Os títulos são acompanhados de sorteios – secundários, mas que aparecem com protagonismo em propagandas. Os prêmios vão de dinheiro a bens como veículos. As chances remotas de vencer não chamam atenção da mesma forma.
O regulamento de um sorteio diário consultado apontava 20 milhões de títulos – cada um corresponde a uma cota no sorteio. Considerando a venda de todos, para ter 1% de chance de vencer, seria necessário comprar 200 mil unidades. Como cada um custava R$ 0,05, seriam gastos R$ 10 mil para ter 1% de chance de ser sorteado e levar R$ 500 mil.
Um título de capitalização esteve no meio de uma polêmica com a torcida do Grêmio recentemente. Foi divulgado que valores transferidos via Pix por torcedores bancariam um reforço, mas ninguém foi anunciado pelo clube. Depois, Willian e Arthur, contratados na última janela de transferências, foram atribuídos ao apoio da patrocinadora, que promovia os sorteios.
A Superintendência de Seguros Privados (Susep), que regula a prática, veta os títulos que apresentem nomes que não o das empresas promotoras. Esse foi o motivo para que outros clubes interrompessem a promoção de seus produtos desse tipo.
O Corinthians, por exemplo, havia lançado o “Viva Timão”, em fevereiro deste ano, junto da Viva Sorte. A empresa também vendia as versões “Viva Tricolor” (do São Paulo), “Viva Vascão”, e “Viva Fortaleza”, por exemplo. Já o caso do Santos envolve os naming rights da “Vila Viva Sorte” (Vila Belmiro).
Todos tinham formato semelhante. Era indicado valor de R$ 0,49 por unidade, valendo sorteios de carros, motos e experiências com os times, como visita a CTs e camisas autografadas.
Com a descontinuação dos produtos, os patrocínios também acabaram. No São Paulo, o fim da parceria ainda foi motivado por a Viva Sorte lançar sua plataforma de apostas esportivas. O clube já era patrocinado por outra bet.
Com o Santos, a Viva Sorte somou forças para ajudar na repatriação de Neymar, também patrocinado pela empresa. O uniforme santista mantém a marca relativa à parte de capitalização, enquanto tem outra bet no espaço máster da camisa.
No caso do Grêmio com a Pix das Estrelas, o clube apareceu como parceiro, sem nomear o produto. Ainda assim, todo material de divulgação tinha escudo e cores da equipe. A logo da empresa é uma das marcas estampadas na camisa tricolor.
A Susep confirmou que a licença apontada da Pix das Estrelas está aprovada no modelo de “incentivo”, que veda prêmios pagos em bens ou serviços.
Entretanto, alguns dos materiais de divulgação da campanha com o Grêmio indicavam um carro como alternativa ao prêmio de R$ 300 mil. O clube chegou a apagar um post em que essa opção era citada, mas manteve o texto no seu site oficial.
“Na ação de lançamento, os torcedores poderão concorrer a R$ 300 mil no Pix ou a um carro, além de outras premiações em dinheiro com 50 números premiados”, diz um trecho.
A revolta da torcida foi com a demora na contratação. Isso desviou o foco sobre como a venda do título era divulgada: “Você adquire um dos nossos e-books na plataforma, contribui com seu clube e ainda concorre a prêmios que podem mudar sua vida”.
Os e-books citados eram, na verdade, produzidos e disponibilizados gratuitamente pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Cada livro concedia uma respectiva quantidade de números para o sorteio de um prêmio de R$ 300 mil.
“Ao tomar conhecimento de que e-books de autoria de seus pesquisadores estão sendo utilizados como premiação para clientes de uma empresa mediante compra de produtos, vai tomar as providências cabíveis, inclusive judiciais”, disse a universidade.
O Grêmio pediu desculpas aos torcedores por “qualquer mal-entendido”. A Pix das Estrelas endossou a mensagem e pediu “paciência” aos gremista. Outras ações do clube com a empresa foram feitas posteriormente.
A Viva Sorte, antiga parceira de outras equipes, trabalha com títulos filantrópicos. Isso significa que, ao depositar, o comprador não terá o dinheiro de volta, já que o valor é revertido para uma instituição.
No caso da empresa, trata-se do Hospital do Câncer de Londrina. A Viva Sorte aponta ter premiado mais de 200 mil famílias com “conquistas materiais e oportunidades de um futuro melhor”.
Ainda segundo a Susep, a aprovação para atuar significa apenas que o produto está consoante com os requisitos técnicos exigidos. Aspectos sobre a forma de comercialização não são considerados neste ponto.
“O principal objetivo de um título de capitalização é a própria capitalização, devendo o sorteio ter caráter acessório e secundário do instrumento”, disse a autarquia em resposta à reportagem do Estadão.
‘Não é investimento’, alertam especialistas sobre títulos de capitalização
A entrada deste tipo de produto no meio do futebol divide espaços com outros riscos financeiros, como as bets. Os dois guardam semelhanças.
“A possibilidade de ganhar é sedutora, e o prazer da aposta muitas vezes afasta a racionalidade necessária na tomada de decisão”, avalia a planejadora financeira, Mariana Banja.
“É importante reforçar: apesar de envolver pagamentos e resgates, os títulos de capitalização não são seguros, nem investimentos. O foco do produto não é fazer o dinheiro crescer, mas sim oferecer a chance de participar de sorteios. Do ponto de vista financeiro, ele se assemelha muito mais a uma aposta do que a uma aplicação”, explica.
Tanto nos títulos, quanto nas bets, o torcedor fica exposto a produtos de baixa eficiência financeira, apresentados de forma emocionalmente atrativa, com promessas, prêmios e apelo à paixão. Na aposta esportiva, porém, a odd (chance de vitória) faz parte do jogo, enquanto não é clara nos sorteios de títulos.
A fundadora do Me Poupe!, plataforma de entretenimento financeiro, Nathalia Arcuri, também é crítica dos títulos de capitalização. “Eu não concordo nem mesmo com a maneira que esses produtos são vendidos. São muito utilizados para tentar provar que você não é competente para juntar dinheiro. Isso atrelando a um bem”, diz.
As dicas para quem busca rendimento de fato não precisam ser ousadas no sentido de risco financeiro. “A rentabilidade (de um título de capitalização) dificilmente supera o que se obteria atualmente em investimentos conservadores, como o Tesouro Direto (especialmente o Tesouro Selic) ou CDBs de liquidez diária. Essas alternativas costumam oferecer rendimentos superiores, mais transparência e menos custos embutidos”, conclui Banja./AE
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