O aplicativo permite a exclusão de mensagens tanto dos servidores da empresa que comanda a plataforma quanto dos dispositivos dos usuários, além de contar com tecnologia própria que bloqueia capturas de tela. O app também impede o encaminhamento, a impressão e o armazenamento das mensagens. Diferentemente do WhatsApp, o app foi desenvolvido com a finalidade de não deixar registros das conversas.
Segundo a Polícia Federal, “sua adoção indica, em tese, o propósito deliberado de afastar a possibilidade de reconstituição futura dos diálogos”. Flávio Bolsonaro não se manifestou, mas já ressaltou, em setembro, que a relação de amizade com Willer é legítima e que “qualquer tentativa de insinuar irregularidade a partir dessa afinidade pessoal é mera ilação, sem qualquer fundamento nos fatos”.
A análise da Polícia Federal sobre a troca de mensagens entre Flávio e Willer consta do mesmo documento enviado pela corporação ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), com o pedido de apreensão do passaporte do senador.
A representação da PF foi apresentada às 21h11 do domingo, 25, sete minutos depois de o Tribunal Superior Eleitoral confirmar a derrota de Flávio Bolsonaro.
A solicitação foi atendida pelo ministro, que determinou a proibição de Flávio deixar o País. Não houve manifestação da Procuradoria-Geral da República.
O senador descumpriu a ordem e, registros migratórios do governo argentino apontam que ele utilizou um passaporte italiano para entrar no país vizinho. Flávio deixou o aeroporto de Puerto Iguazú às 23h52 de terça-feira, 27.
A aeronave na qual Flávio embarcou é um jato executivo bimotor Gulfstream G400, pertencente a uma empresa de táxi aéreo. Segundo registros de voo, o avião decolou de Puerto Iguazú, nordeste argentino, à 0h21 desta quarta-feira, 28, e fez uma escala em Guayaquil, no Equador, às 3h46. Pouco mais de meia hora depois, decolou novamente, desta vez com destino a Miami, nos Estados Unidos, onde já aterrissou.
Os delegados Victor Arruda de Oliveira e Nathália Ribeiro Leite Silva, que assinam a representação de 16 páginas datada de 25 de outubro, destacam que o advogado Willer Tomaz está no exterior desde agosto, possivelmente em Miami, sem registro de retorno ao Brasil, O ministro Alexandre de Moraes determinou a proibição de sua saída do território nacional e o cancelamento de todos os seus passaportes.
“Conforme já evidenciado nos autos, Willer Tomaz dispõe de recursos financeiros suficientes para permanecer indefinidamente no exterior, caso assim deseje”, afirmam os delegados.
‘Ingerência direta na gestão dos recursos’, aponta PF
O uso do aplicativo de mensagens autodestrutivas ganha “especial relevância”, segundo a PF, quando analisado em conjunto com os indícios de que Flávio teve acesso privilegiado à conta bancária da Alcazar Holding, empresa ligada ao advogado Willer Tomaz.
Os investigadores identificaram que o senador teria figurado, por um período ainda não determinado, como “usuário master” da conta da empresa, condição que sugere uma possível participação direta na gestão dos recursos financeiros e que, na avaliação da PF, ultrapassaria uma “relação meramente pessoal ou política”.

Sediada em Portugal, a Alcazar Holding está registrada no mesmo endereço da Cathedral Holdings, empresa constituída por Willer na Ilha da Madeira, que ostenta um regime fiscal privilegiado. Segundo a investigação, a estrutura empresarial teria sido criada para viabilizar a operação da Best Bet (Rede Loto Ltda.), primeira casa de apostas a ter sua atuação avaliada pela Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj).
Willer Tomaz e Flávio estiveram juntos em Portugal, de onde partiram juntos, em 23 de maio de 2025, em um voo executivo de Cascais para Nice, na França. A viagem foi contratada em nome da Cathedral Holdings, empresa sediada na Zona Franca da Madeira.
“O dado é relevante porque a Cathedral Holdings, como se verá adiante, tem sede no mesmo endereço da Alcazar Holding. O custeio do deslocamento do senador por essa estrutura societária evidencia sua proximidade não apenas com Willer Tomaz, mas com as próprias empresas por ele mantidas no exterior”, anotam os delegados.

Willer Tomaz foi alvo da Operação Sem Desconto em 4 de agosto e teve o celular apreendido pela PF. A partir disso, a investigação passou a analisar dados de comunicações eletrônicas para identificar possíveis conexões entre o advogado e um esquema suspeito de utilizar casas de apostas para lavar dinheiro.
Em nota, a defesa de Willer Tomaz classificou as medidas de “desproprocionais” e disse que Flávio nunca movimentou as contas dele.
Segundo a PF, a análise dos dados de Willer identificou possíveis irregularidades nas transferências de recursos de apostadores para as bets, que poderiam ser utilizadas para ocultar ou disfarçar a origem do dinheiro. A principal suspeita é de que as casas de apostas oferecessem facilidades a determinados clientes, permitindo que utilizassem o sistema para movimentar e ocultar recursos de origem ilícita./AE
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