O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) foi procurado, mas não respondeu.
A carta, divulgada por apoiadores e pelo próprio senador, já tem três versões. A primeira tem um brasão escrito “Estados Unidos do Brazil”, com o nome do País escrito em inglês e a data de 15 de novembro de 1889. O emblema remonta à Proclamação da República e vigorou até 1968.
O manifesto foi enviado pelo blogueiro Paulo Figueiredo. Quinze minutos após distribuir o texto, o influenciador divulgou uma nova versão, atualizando o brasão com nome correto do País. Flávio abrandou o tom em uma terceira versão, publicada no X às 17h51, autointitulando-se “o líder do Brasil”.
“Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente eleito do Brasil. Antes de mais nada, queria agradecer ao Presidente Milei, pela coragem, senso de justiça e legalidade, ao Presidente Trump e ao maravilhoso povo americano por me acolher. Essa é uma terra de liberdades e irmãos que comungam dos mesmos valores das boas pessoas do meu país. O Presidente Trump é um grande defensor da liberdade de expressão”, escreveu o senador nas duas primeiras versões da carta.
Flávio chamou o resultado do segundo turno de “fraude eleitoral”, sem apresentar provas, repetindo o discurso do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em 2022. O petista foi reeleito com 51,78% dos votos válidos, ante 48,22% de Flávio – por uma diferença de 4,4 milhões de votos.
Também caracterizou como “atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula” a prorrogação em duas horas do horário de votação definida pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin, após pedidos das duas chapas. O senador disse que a decisão acrescentou 10 milhões de votos a Lula. Tanto a campanha de Lula quanto a de Flávio pediram a prorrogação do segundo turno.
A vitória de Lula foi reconhecida pelo presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, na noite do último domingo, 25. O Partido Liberal (PL) e o vice de Flávio na chapa derrotada, o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), também atestaram o resultado das urnas.
“Reconhecemos o resultado presidencial, proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas entendemos que os questionamentos levantados precisam ser devidamente esclarecidos dentro de um debate político equilibrado e democrático. Seguiremos acompanhando os fatos e buscando respostas com responsabilidade, transparência e respeito às instituições”, segundo a nota do partido, assinada pelo presidente da legenda, Valdemar Costa Neto.
“Nossas bandeiras continuam aí e nós não vamos desistir do Brasil. Nós lutamos até o fim, permanecemos de pé, mantivemos nossos princípios. Têm vitórias que representam derrotas e têm derrotas que são verdadeiras vitórias. Nós ganhamos, permanecemos firmes naquilo que acreditamos. O Brasil, no futuro próximo, vai vencer”, disse Gaspar em pronunciamento nas redes sociais.
Levantamento do Monitor do Debate Político no Meio Digital, da Universidade de São Paulo (USP), aponta que houve 34,7 mil votos após às 17h no segundo turno, até as 19h. O número é menor que os 40 mil registrados em 2022, quando não houve extensão de prazo.
“Na noite de domingo, vi estarrecido uma fraude eleitoral se concretizar diante dos meus olhos. A atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula permitiu que uma impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno”, prosseguiu Flávio, na carta.
No texto, o candidato derrotado se comparou políticos de esquerda e de direita que partiram para o exílio. Entre os nomes, estão o advogado e diplomata Rui Barbosa, o ex-presidente Floriano Peixoto, o líder francês Charles de Gaulle, o mártir da independência de Cuba José Martí, o ex-presidente interino da Venezuela Juan Guaidó, o ex-embaixador da Venezuela na Argentina Edmundo González e a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz María Corina Machado, opositora de Hugo Chavéz.
“Não sou o primeiro a ter que lutar pelo próprio país longe dele. Rui Barbosa foi para o exílio por enfrentar o arbítrio de Floriano Peixoto e de lá seguiu defendendo a lei e a liberdade. Charles de Gaulle liderou a França Livre a partir de Londres, condenado à morte pelo regime de Vichy, e voltou para libertar o seu país. José Martí organizou a luta pela independência de Cuba a partir de Nova York. Na Venezuela, Juan Guaidó e Edmundo González tiveram que deixar o país por enfrentar a ditadura chavista, e María Corina Machado, mesmo perseguida, se recusou a legitimar a fraude e se tornou um símbolo mundial da resistência democrática. Todos eles foram tratados como criminosos pelos regimes que enfrentavam. A história os chamou de outra coisa.”
Lula, Flávio e os respectivos partidos ingressaram na Justiça com pedidos de cassação de chapa um contra o outro durante a campanha eleitoral. Sem citar o nome do ministro do STF Alexandre de Moraes, o senador o acusou de “sequestrar meus passaportes”.
A Polícia Federal (PF) pediu a suspensão dos passaportes dele no domingo, sete minutos após o resultado do segundo turno. Moraes acatou. A ordem, descumprida por Flávio, se deu em um inquérito que apura suspeitas de lavagem de dinheiro do senador com o advogado Willer Tomaz.
A corporação encontrou registros de e-mail em que o presidenciável derrotado era citado como operador de uma conta no exterior vinculada ao advogado, o que poderia gerar um risco de fuga para uso de recursos no exterior. De acordo com a PF, Tomaz deixou o Brasil e foi para os Estados Unidos após passar a ser investigado.
Flávio, a mulher, a dentista Fernanda Bolsonaro, e as filhas deixaram o Brasil de carro via Foz do Iguaçu na terça-feira, 27. A família embarcou num jato particular no Aeroporto Internacional de Cataratas del Iguazu, na Argentina, e desembarcou em Miami, pouco depois das 10h30, pelo horário de Brasília.
Flávio usou o passaporte italiano para entrar na Argentina e diplomático para os EUA. A PF já havia cancelado os documentos brasileiros, que não poderiam ter sido usados.
Antes da fuga, o discurso era outro. O senador prometeu “pedir a anulação” do segundo turno no domingo, em entrevista a jornalistas, e buscar a cassação da chapa de Lula e Alckmin na segunda.
“Não era minha intenção deixar minha pátria, mas eu sei exatamente onde isso vai dar. Isso é o manual clássico de qualquer golpe de Estado. A perseguição política que começou com meu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e se espalhou para milhares de outros brasileiros patriotas comuns e até mesmo cidadãos americanos, tem um único objetivo: silenciar qualquer pessoa que não concorde com o regime de exceção instaurado no Brasil, através de uma Suprema Corte aparelhada pela organização criminosa petista.”
Veja a íntegra da carta de Flávio Bolsonaro
Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente eleito do Brasil. Antes de mais nada, queria agradecer ao Presidente Milei, pela coragem, senso de justiça e legalidade, ao Presidente Trump e ao maravilhoso povo americano por me acolher. Essa é uma terra de liberdades e irmãos que comungam dos mesmos valores das boas pessoas do meu país. O Presidente Trump é um grande defensor da liberdade de expressão. Na noite de domingo, vi estarrecido uma fraude eleitoral se concretizar diante dos meus olhos. A atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula permitiu que uma impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno. Uma decisão do STF, tomada por cima da competência do TSE, estendeu a votação no apagar das luzes, e a ordem só chegou depois do fim do horário legal, quando as urnas já estavam encerradas. Eleitores ficaram submetidos a regras diferentes. Até agora, o TSE se limitou a defender a prorrogação do horário e não há sequer uma única resposta crível. E as nulidades não são o único problema. Ao longo de toda a campanha, houve abuso de poder político, econômico e uso da máquina pública em favor da reeleição. São fatos graves, expressamente vedados por lei, que justificam a cassação da chapa Lula-Alckmin. A resposta do regime ao meu questionamento veio rápida. Como num plano previamente elaborado, sete minutos após essa repugnante fraude eleitoral, o juiz, implicado em um imenso escândalo de corrupção, diretamente citado no inquérito que usou para tentar sequestrar meus passaportes, e que muito provavelmente estaria preso, se eles não tivessem impedido a minha posse, pôs em andamento a máquina de perseguição política do regime. Sendo impedido de origem e completamente suspeito para iniciar qualquer procedimento judicial contra mim, a sua mera participação em atos processuais mostra o tamanho da arbitrariedade e ilegalidade em andamento. Não era minha intenção deixar minha pátria, mas eu sei exatamente onde isso vai dar. Isso é o manual clássico de qualquer golpe de Estado. A perseguição política que começou com meu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e se espalhou para milhares de outros brasileiros patriotas comuns e até mesmo cidadãos americanos, tem um único objetivo: silenciar qualquer pessoa que não concorde com o regime de exceção instaurado no Brasil, através de uma Suprema Corte aparelhada pela organização criminosa petista. Para deixar claro, não existe nenhum mandado de prisão contra mim, porque eu não cometi nenhum crime. O que existe é uma caça às bruxas politicamente motivada, que visava me colocar como refém e objeto de chantagem para proteger os juízes corruptos da Suprema Corte do 2 impeachment. Eis o roteiro da perseguição: apreensão de passaporte, tornozeleira eletrônica, censura, prisão domiciliar, julgamento de fachada e, finalmente, condenação política. Não vou submeter minha família a isso e meu país não merece passar novamente por este vexame internacional. Diante da instrumentalização política da Justiça no Brasil, trouxe minha família para os Estados Unidos, onde estamos em segurança. Agradeço, mais uma vez, ao Presidente Trump e ao governo americano por nos acolherem e nos darem a segurança jurídica que não temos mais no Brasil. Quero deixar claro: não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil, saí de um regime de exceção para poder ser o líder que o meu povo merece, pois calado, preso e censurado, como meu pai está, eu não poderia ser essa liderança e seríamos entregues ao teatro institucional de uma oposição castrada e controlada pela Suprema Corte repleta de serviçais do regime. Não sou o primeiro a ter que lutar pelo próprio país longe dele. Rui Barbosa foi para o exílio por enfrentar o arbítrio de Floriano Peixoto e de lá seguiu defendendo a lei e a liberdade. Charles de Gaulle liderou a França Livre a partir de Londres, condenado à morte pelo regime de Vichy, e voltou para libertar o seu país. José Martí organizou a luta pela independência de Cuba a partir de Nova York. Na Venezuela, Juan Guaidó e Edmundo González tiveram que deixar o país por enfrentar a ditadura chavista, e María Corina Machado, mesmo perseguida, se recusou a legitimar a fraude e se tornou um símbolo mundial da resistência democrática. Todos eles foram tratados como criminosos pelos regimes que enfrentavam. A história os chamou de outra coisa. Este é apenas o começo da nossa luta pela democracia, pelos direitos humanos e pela liberdade no Brasil. Quero dizer, não só para os meus 60 milhões de eleitores, mas para o povo brasileiro, que eu sou o presidente eleito e os criminosos que roubaram a eleição do Brasil são parte de uma organização criminosa que implementou uma tirania. Vocês que almejavam a mudança, e eu não vou abandoná-los, eu serei a voz e a liderança livre da nossa nação. Às instituições brasileiras, faço um apelo: essa sandice precisa acabar. O Brasil vive hoje um caos jurídico, de corrupção e de perseguição política, em que a oposição tem medo de falar e a família de um ex-presidente é tratada como inimiga do Estado. Nenhuma nação consegue viver em paz ou prosperar assim. Ainda há tempo de restabelecer o equilíbrio entre os Poderes e devolver aos brasileiros a confiança que perderam. À comunidade internacional, peço: não normalizem o que está acontecendo no Brasil. O que acontece hoje no meu país não é normal e não pode ser tratado como normal. Aos senadores, deputados e governadores que ajudei a eleger, e em especial ao meu candidato à presidência do Senado, Rogério Marinho: sei que hoje vocês não têm a liberdade necessária para o pleno exercício da atividade política. Por isso, liderarei a oposição daqui. Direi o que vocês, aí, não podem dizer, e assumirei os riscos que vocês não podem correr. E a você, que votou em mim e sonha com a mudança: não estamos derrotados e não estamos sozinhos. Este é apenas o começo da nossa luta pela democracia, pelos direitos humanos e pela 3 liberdade no Brasil. Nos próximos dias, vou me dirigir regularmente ao povo brasileiro, e apresentaremos uma estratégia para mobilizar a oposição e o imenso apoio popular que temos, por todos os meios pacíficos e legítimos, para impedir que Lula consolide um regime ditatorial no Brasil. Peço a cada um que permaneça firme e jamais desista. Saí do Brasil, mas não abandonei os brasileiros. Esta luta não terminou no dia 25 de outubro. Ela só termina quando o Brasil voltar a ser um país livre. E esse dia vai chegar. Que Deus abençoe o Brasil. Flávio Bolsonaro/AE
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