Bolsonaro associa sua patranha ao fato de ter anunciado que o médico Claudio Lottenberg, ex-presidente do Einstein, será seu ministro da Saúde. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Esse tipo de associação equivale a prometer prosperidade “padrão BTG” para todos os brasileiros porque o banqueiro André Esteves, cujo patrimônio é estimado em R$ 66 bilhões, será o ministro da Fazenda.
A comunidade israelita de São Paulo investiu bilhões no Einstein e seu padrão só é acessível aos planos de saúde mais caros. Imaginar que esse padrão possa ser replicado no SUS é algo próximo de prometer o elixir da longa vida ou a pomada da juventude.
Para compensar os incentivos fiscais que são concedidos a entidades filantrópicas, o Einstein presta alguns serviços assistenciais de alta qualidade, nada a ver com a generalização para toda a população.
Semelhante promessa desclassifica a opinião que o candidato tem do discernimento do eleitorado. Quem acredita num SUS com padrão Einstein precisa ser um idiota. Se Flávio Bolsonaro quer pescar nessas águas, superestima a capacidade dos brasileiros de serem enganados. Seu pai, por ignorante na matéria, acreditou por muito tempo no milagre da cloroquina.
Flávio não acredita num SUS/Einstein. Mente, confiando na tolerância dos eleitores. Com décadas de atividade profissional, o doutor Lottenberg se vê convidado para o Ministério da Saúde numa plataforma de propaganda enganosa. Mau começo.
A menos que alguém esteja pensando em transferir para a rede privada alguns procedimentos de alta complexidade (e remuneração), sucateando o que fica abaixo.
O que o SUS precisa é de financiamento, para que um presidente possa se orgulhar de seu próprio padrão, que é melhor do que supõe a sabedoria convencional. Durante a pandemia da Covid, quando os planos privados tentaram não cobrir os custos de testes e de vacinas, o SUS imunizou, de graça, dezenas de milhões de pessoas.
O debate da Band teve poucos bons momentos. Os piores foram os lances de Flávio macaqueando a grosseria de Donald Trump no segundo debate de 2016, colocando-se atrás de Hillary Clinton, balançando o corpo e fazendo umas poucas caretas. Flávio abusou dessa coreografia, roubando a cena enquanto Lula falava.
O truque funcionou, mas, como ensinava Tancredo Neves, esperteza, quando é muita, come o dono. A astúcia gerou um atrito da equipe de Lula com os organizadores do debate, mas o estrago já estava feito.
Tudo indica que, no debate da Globo, na sexta-feira, essa malandragem não será permitida. Infelizmente, nenhuma emissora do mundo pode impedir um candidato de mentir./Folha SP
(Elio Gaspari Jornalista, autor de cinco volumes sobre a história do regime militar, entre eles “A Ditadura Encurralada”)
(Foto: Reprodução)






