“Vim da periferia de São Paulo, mas não sou uma pessoa típica da periferia. Fui bolsista em Harvard, mas nunca fui uma aluna típica de lá. Saía da aula e ia trabalhar como babá, para mandar dinheiro à minha mãe, que estava desempregada. Convivia com pessoas muito ricas sem nunca ter conhecido a Disney, museus, moda. Eu não sou vista como igual por nenhum grupo – nem na periferia, nem na elite, e muito menos na política. Por muito tempo, isso foi uma dor para mim”, reflete Tabata.
Vim da periferia de São Paulo, mas não sou uma pessoa típica da periferia. Fui bolsista em Harvard, mas nunca fui uma aluna típica de lá
Tabata Amaral
Sexta deputada federal mais votada por São Paulo em 2022 (338 mil votos) e com quase 10% dos votos válidos em sua primeira eleição majoritária, na disputa pela Prefeitura paulistana em 2024, na qual recebeu 606 mil votos, ela avalia que conquistou sua base de eleitores justamente por não se encaixar. “Fazer esses mundos tão diferentes caberem dentro de mim foi o que me ensinou a dialogar. Minha trajetória é tão diferente que foi essencial conseguir me conectar tanto com quem não veio da periferia quanto com quem não fez faculdade. Primeiro, isso foi uma questão de sobrevivência. Depois, entendi que esse era o meu diferencial.”
Dialogar com diferentes perfis de eleitores, da classe A à E, e se distanciar da polarização direita-esquerda foram apostas da congressista na eleição passada. “Quem se vê representado no meu mandato são aqueles que não se identificam com os extremos, que conseguem entender que é possível defender o social, defender a educação pública, e, ao mesmo tempo, querer que as contas públicas fechem, que o lado fiscal esteja bem.” A abertura que ela teve com a elite paulistana, Tabata atribui a essas características. A aproximação ficou evidente pela lista de seus conselheiros durante a eleição passada – que incluía nomes como Luciano Huck, Armínio Fraga, Marisa Moreira Salles, Eduardo Wurzmann e Carlos Ari Sundfeld.
Questionada se há espaço na política para alternativas fora dos extremos, a parlamentar se define como uma “realista esperançosa”. “Não sei se em 2026. Sendo bem honesta, acho que ainda vamos lidar por alguns anos com essa polarização extremada – mais grave até do que isso, esse sentimento de torcida, quase que de facção política. Quando olho para o curto prazo, não vejo muito espaço ainda para vencer essa polarização, esse ódio, essa lógica de torcida que não ajuda o País. ‘Se você não pensa exatamente como eu, você é meu inimigo’. Quem ganha com isso?”
Não sei se em 2026. Acho que ainda vamos lidar por alguns anos com essa polarização extremada – mais grave até do que isso, esse sentimento de torcida, quase que de facção política
Tabata Amaral
CPMI DO INSS
Ao falar do escândalo do INSS, a deputada foi uma das poucas em seu partido a assinar o pedido de abertura da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito sobre o caso. “É um dos maiores escândalos de corrupção da história do Brasil. Milhares de pessoas foram roubadas em suas aposentadorias.” Ela defende a investigação, mas critica o uso político do episódio. “A reação da maioria dos meus colegas é olhar para esse escândalo horroroso e falar: ‘Como eu posso usar isso para atacar o meu opositor?’. Tem que investigar, sim. Mas não para usar como arma política contra o PT ou contra o Bolsonaro. Até porque, quando puxarmos esse fio, vai alcançar quase todos os partidos.” A CPMI deve ficar para junho, mas Tabata já articula com o PSB e com outras legendas para integrar o colegiado.
CANCELADA
Ao não se enquadrar nem na esquerda nem na direita, a congressista virou alvo – muitas vezes, de ambos os campos. “Eu já fui muito cancelada . É horroroso ser cancelada. Ser mulher e ser jovem são agravantes nesses ataques. A primeira vez que fui muito cancelada, na votação da Reforma da Previdência, eu não sabia se eu ia ser reeleita depois. Recebi ameaça de morte, ameaça de estupro, fui desconvidada de eventos. Não sabia se algum dia eu seria descancelada. E, aí, eu fui cancelada muitas outras vezes. Claro que machuca. Muito. Mas, a cada vez, dói menos”, aponta.
É horroroso ser cancelada. A primeira vez que fui muito cancelada, na votação da Reforma da Previdência, eu não sabia se eu ia ser reeleita depois. Recebi ameaça de morte, ameaça de estupro
Tabata Amaral
“Quem vê uma jovem baixinha, que parece mais nova ainda e fala manso, não enxerga a força do que eu já enfrentei.” Esse contraste, segundo ela, explica o choque do público quando se impõe num debate ou solta um palavrão. “As pessoas ainda estranham o lugar que ocupo. ‘Quem é essa mulher, com carinha de menina, sem padrinho político, sem pedigree, dizendo que esse lugar é dela também?’. E o pessoal lá, com cadeirada, carteirada, soco… e eu me mantendo firme e brigando”.
HARVARD
Nascida na Vila Missionária, na periferia da Zona Sul de São Paulo, filha de diarista com cobrador de ônibus, a decisão de voltar ao Brasil após se formar em astrofísica e em ciência política em Harvard desperta curiosidade. “Cresci dentro da igreja católica. Desde muito cedo, fui ensinada de que Deus e a vida foram muito generosos. Fui ensinada a sempre retribuir. É até uma forma de lidar com a culpa. Então, fiz compromisso comigo mesma antes de ir: vou, mas volto – e, de alguma forma, vou transformar o que aprender em algo positivo.”
A importância da Ivy League em sua trajetória faz Tabata reagir à decisão do presidente Donald Trump proibir alunos estrangeiros em Harvard. “É um plano de vingança. Uma retaliação por Harvard ter se recusado a obedecer ordens absurdas: não aceitou apagar políticas de igualdade, nem submeter seu currículo, nem trocar sua liderança, nem silenciar o pensamento crítico. Depois disso, Trump congelou mais de 2 bilhões de dólares em recursos federais para a Universidade e agora vem com essa decisão ilegal e imoral. Quando diz que matricular um aluno estrangeiro é um privilégio e não um direito, Trump demonstra seu autoritarismo e atenta contra o maior dos valores ocidentais: a democracia.”
JOÃO CAMPOS
Dentro do PSB, Tabata, assim como seu namorado, o prefeito de Recife, João Campos, são vistos como apostas entre a nova geração de políticos. Apesar das incertezas do futuro eleitoral, a deputada conta já ter planos com o companheiro. “Temos um combinado de ter cinco filhos.” Sobre ainda não serem noivos: “Quase seis anos, já passou da hora. Por favor, faça essa pergunta para ele”./AE
(Foto Reprodução)





