Essa prática consiste na aplicação de doses inferiores às recomendadas, seja contando os “cliques” das canetas em vez de girar o mostrador até o visor exibir a dose padrão, seja espaçando as aplicações. A estratégia ganhou espaço nas redes sociais sob a justificativa de reduzir custos e efeitos colaterais, mas especialistas alertam: ela não tem respaldo científico.
Essas adaptações não foram avaliadas em ensaios clínicos para comprovar a eficácia e a segurança, e não há razão científica para supor que fracionar doses traga mais benefícios, afirmam os médicos.
“(Esses) medicamentos são estudados para o uso da maneira em que são mais bem tolerados e eficazes, geralmente com aplicação semanal”, diz o endocrinologista Rodrigo Lamounier, membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso).
O endocrinologista Renato Zilli, do Hospital Sírio-Libanês, reforça: “Do ponto de vista de ciência, não existe comprovação sólida de que microdoses fora do esquema estudado tragam benefício consistente para controle do apetite ou manutenção de peso.”
Por que a dose certa importa?
Segundo os especialistas, os estudos que embasam o uso das canetas seguiram protocolos rígidos de dosagem, intervalo e titulação, que é o ajuste gradual da quantidade de medicação.
Eles destacam que as doses iniciais mais baixas fazem parte de uma fase de adaptação do organismo, e não de manutenção a longo prazo. No caso da semaglutida, a dose mínima semanal é de 0,25 mg, enquanto a da tirzepatida fica em 2,5 mg.
Lamounier explica que isso é feito porque os medicamentos são desenvolvidos para alcançar um equilíbrio específico no organismo, chamado de steady state. “Os estudos são feitos para que o medicamento atinja níveis estáveis ao longo do tempo, com eficácia e segurança conhecidas.”
Procurada, a Novo Nordisk, fabricante de Ozempic e Wegovy, informou não ter estudos em andamento sobre microdosagem de semaglutida. A multinacional dinamarquesa reforça que qualquer tratamento com a medicação deve ser baseado em avaliação individual e orientação especializada, seguindo as indicações da bula. A Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, não se pronunciou.
Riscos da microdosagem
Alterar dose ou intervalo sem orientação médica não é apenas uma questão de perda da eficácia. Lamounier reforça que há riscos sutis, que nem sempre aparecem de forma imediata. “Interações medicamentosas, deficiências nutricionais, ingestão inadequada de água. Os riscos são imponderáveis.”
Ele também critica o uso banalizado fora da indicação, como se os medicamentos fossem um “adereço estético”. “Os estudos foram feitos com pessoas com obesidade, não com pessoas magras”, destaca.
Já Zilli lembra que a interrupção do tratamento costuma levar ao reganho de peso. “Isso apareceu claramente com a semaglutida no (estudo) STEP 1 e com a tirzepatida no SURMOUNT-4 quando o medicamento foi retirado.”
O “para e volta”, segundo ele, pode piorar a tolerabilidade, aumentar erros de dose e dificultar decisões clínicas futuras. Além disso, em pessoas com diabetes ou em uso de outros medicamentos, mudanças não orientadas podem elevar o risco de hipoglicemia.
Manipulação e ‘reaproveitamento’ de canetas
O uso de versões manipuladas e o reaproveitamento de canetas para fracionar o conteúdo também são práticas que acendem alertas.
“Isso traz risco real”, afirma Zilli. Ele cita problemas de pureza do insumo, estabilidade, cadeia fria, esterilidade e a possibilidade de contaminação ou dose errada. “Há também um mercado grande de falsificação e produtos irregulares”, lembra.
Lamounier também contraindica o uso de medicamentos manipulados como alternativa por custo ou alta demanda. “É uma produção paralela, sem fiscalização adequada, com riscos biológicos e de dose não padronizada.”
Quando é aceitável reduzir a dose?
Os endocrinologistas afirmam que ajustes de dose são possíveis, mas essa não deve ser uma prática feita pelo paciente por conta própria.
Hoje, há pesquisas avaliando esquemas de titulação mais lenta da semaglutida, com indicação de menor incidência de efeitos gastrointestinais. Contudo, Zilli pondera que esse dado não deve ser confundido com microdosagem.
“Subir a dose mais devagar pode reduzir efeitos adversos e melhorar a adesão porque os sintomas aparecem justamente na fase de escalada. Mas isso não valida ‘microdose improvisada’ nem ‘contar cliques’ como estratégia segura”, afirma.
Quanto a espaçar aplicações além do que está previsto em bula, ele diz que “os estudos de manutenção mostram que continuar o tratamento preserva melhor os resultados”.
Para quem enfrenta efeitos colaterais, o caminho é a pausa orientada e a revisão de hábitos, não “hackear” a caneta.
Para quem enfrenta limitações financeiras, a recomendação é discutir alternativas seguras, como outros medicamentos, estratégias não farmacológicas ou manter uma dose aprovada e tolerável.
“Quando inicio o tratamento, deixo claro que a medicação ajuda muito, mas faz parte de um plano maior”, diz Zilli. “Os resultados dependem de mudanças de hábitos sustentadas.”/AE
(Foto: Reprodução)






