Nike, Adidas, Puma e New Balance apostaram em modelos rosa para seus principais atletas, criando uma unanimidade estética em um ambiente comumente marcado pela diferenciação entre marcas. Poucos jogadores fogem da tendência, como Messi, que usa uma chuteira branca e azul da Adidas, e Cristiano Ronaldo, com um modelo dourado exclusivo da Nike. Para a maioria dos demais atletas, porém, a escolha não é pessoal. Embora as chuteiras sejam um dos poucos itens em que os jogadores podem exibir a marca de seus patrocinadores individuais, os contratos costumam exigir o uso dos modelos fornecidos pelas fabricantes.
As marcas apontam razões semelhantes para a escolha nesta Copa. Procurada pelo Estadão, a Adidas afirmou que o rosa é uma das cores mais visíveis em campo e que a tonalidade une desempenho, visibilidade e autoexpressão. A Nike destacou que cores ousadas fazem parte do DNA da linha Mercurial e que o tom vibrante adotado nesta edição da Copa traduz energia, velocidade e ousadia. Já a Puma relaciona a escolha ao legado de lançamentos anteriores da marca e ao impacto visual gerado pelas cores intensas nas transmissões esportivas.
Estratégia de cor e disputa por atenção
A escolha do rosa entre marcas concorrentes ganha outra interpretação quando observada a partir da lógica do mercado esportivo e do atual momento do futebol.
Segundo a estrategista de marcas Tamara Lorenzoni, a cor deixou de ser apenas um elemento estético e passou a funcionar como linguagem dentro de uma disputa por atenção cada vez mais intensa. Em um evento de tamanha proporção, transmitido para diferentes países e divulgado em tempo real nas redes sociais, cada escolha visual passa a ter impacto.
“Em eventos globais como a Copa do Mundo, cada detalhe visual passa a ter valor estratégico”, afirma. Para ela, essa convergência de cores entre marcas não é aleatória, mas resultado de uma leitura comum de comportamento e consumo. “Quando várias marcas escolhem a mesma direção cromática, isso demonstra que estão respondendo a um mesmo diagnóstico sobre visibilidade e impacto”, explica.
Isso significa que a cor passa a ser pensada também fora de campo — não só para se destacar durante a partida.
Atletas como vitrines de tendência
Se antes a chuteira precisava apenas cumprir sua função dentro de campo, hoje também precisa chamar atenção em transmissões, fotografias, vídeos curtos e publicações nas redes sociais. Afinal, os jogadores deixaram de ser vistos apenas como atletas e passaram a ocupar um espaço como referências de estilo, comportamento e consumo, influenciando tendências muito além do universo esportivo.
O impacto comercial das chuteiras cor-de-rosa já começou a aparecer. Em entrevista ao Valor, Thiago Bessa, gerente comercial de futebol da Netshoes, afirmou que as vendas de chuteiras rosas cresceram 15% apenas nos quatro primeiros dias da Copa do Mundo.
A volta das cores vibrantes
Após um período marcado por tons neutros e estética minimalista, relatórios de tendências e semanas de moda vêm sinalizando o retorno de cores mais vibrantes.
Em 2024, a Worth Global Style Network (WGSN), principal autoridade global em previsão de tendências de consumo, design e estilo, apontou o Electric Fuchsia entre as tonalidades da primavera/verão de 2026. Esta cor é associada a ideias de transformação, energia e ruptura.
Para Andreia Meneguete, coordenadora acadêmica e docente na área de moda, beleza e luxo da ESPM Panamericana, a popularização do rosa também acompanha mudanças sociais. “As tendências de moda dificilmente podem ser explicadas apenas pela estética. Elas são respostas a transformações culturais, econômicas e sociais mais amplas”, afirma.
Como uma cor pode trazer reflexões sobre um sistema
No futebol, o impacto visual da tendência ganha uma camada adicional. Durante décadas, as chuteiras foram majoritariamente pretas. Apenas nos últimos 20 anos os jogadores passaram a usar modelos mais coloridos, especialmente neon e fluorescentes — embora os árbitros ainda sigam submetidos à exigência da Fifa de utilizar modelos pretos tradicionais, produzidos pela Adidas. Ainda assim, nunca uma única cor havia predominado desta maneira em uma mesma competição.
A presença do rosa em um ambiente historicamente associado a códigos rígidos de masculinidade abre espaço para reflexões culturais mais amplas. Para Andreia, isso acontece porque o futebol continua sendo um dos principais espaços de construção das identidades masculinas contemporâneas. “Quando uma cor como o rosa ganha protagonismo nesse universo, seu impacto vai muito além da dimensão estética”, explica. Ela afirma que o que antes poderia ser interpretado como uma quebra de padrão passa a ser incorporado “como uma possibilidade legítima de expressão estética e identitária”.
“Quando clubes, seleções, atletas e marcas esportivas incorporam o rosa em uniformes, campanhas ou produtos, eles contribuem para ampliar o repertório de significados associados ao masculino e à masculinidade não tóxica, o que é importante também pensarmos”, complementa a coordenadora acadêmica.
Apesar de avanços recentes, o futebol ainda é marcado por episódios recorrentes de machismo e homofobia. Um relatório divulgado pela CBF em 2023, com base em levantamento do Coletivo de Torcidas Canarinhos LGBTQ+, apontou aumento de 76% nos casos de homofobia no futebol brasileiro em 2022, em comparação ao ano anterior.
Embora hoje a cor rosa possa ser popularmente associada ao universo feminino, ligada à ideia de afeto, doçura e delicadeza, essa leitura nem sempre existiu. A professora de moda da ESPM Panamericana explica que a associação entre o rosa e a feminilidade só começou a se consolidar a partir da década de 1940, impulsionada pela indústria da moda, pelo mercado infantil, pela publicidade e por estratégias de segmentação do consumo.
Em séculos passados, o rosa aparecia com frequência no vestuário masculino, assim como saias e vestidos. “Aquilo que hoje parece uma convenção natural é, na verdade, resultado de processos históricos e culturais relativamente recentes”, afirma Andreia.
Considerando o contexto de marketing, comportamento, sociedade e história do futebol, o destaque das chuteiras cor-de-rosa nesta Copa do Mundo poderia ser entendido como um questionamento aos padrões — ainda que, na prática, esteja inserido em contratos, estratégias de marca e decisões da indústria.
Na avaliação de Andreia, esse movimento revela uma mudança maior do que a escolha de uma cor. “A popularização do rosa vai além de uma tendência cromática. Ela pode ser compreendida como um indicador das mudanças nas formas de expressão das identidades contemporâneas, refletindo uma sociedade que tende a aceitar maior diversidade estética, comportamental e simbólica”, conclui./AE
(Foto: Reprodução)






