O ganho de peso é um dos sintomas da perimenopausa, sentido por 60% a 70% das mulheres de meia-idade. Nessa fase da vida, é estimado que as mulheres ganhem, em média, 0,7 kg por ano, diz estudo publicado no Women’s Health Reports.
Isso acontece porque a queda do estrogênio –principal hormônio sexual feminino– reconfigura todo o metabolismo e transforma também o formato do corpo da mulher, fazendo com que haja maior acúmulo de gordura na região do abdômen.
Karen Faggioni, presidente eleita da SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia), explica que o hormônio também é importante para a “proteção de doenças cardiovasculares, prevenção de desenvolvimento de resistência insulínica, diabetes, hipertensão, dislipidemia (desequilíbrio da gordura no sangue) e também atua colaborando para a oxidação da gordura”.
Em complemento, o ginecologista José Maria Soares Júnior, chefe do ambulatório de climatério da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) diz que a diminuição do estrogênio faz com que haja maior dificuldade de formar massa magra e há o aumento da grelina, hormônio que estimula o apetite.
Mesmo com o perfil metabólico diferente do que outras etapas da vida, dados do estudo Surmount, que analisou a redução de peso de mulheres por estágio reprodutivo que estavam em uso de tirzepatida (substância do Mounjaro) mostram que a redução de peso promovida pelo medicamento ocorreu em todas as fases hormonais, sem diferença estatisticamente significativa entre elas.
Já o estudo Step Up, publicado no Lancet Diabetes & Endocrinology, que testou uma dose maior de semaglutida (7,2 mg), princípio ativo do Ozempic, também mostrou que a redução de 20% ou mais de peso atingiu quase metade dos participantes (47,7%).
O estudo também mostrou que 84% da perda de peso com semaglutida foi de gordura, não de músculo. Uma subanálise identificou que a maior parte da massa magra perdida era, na verdade, gordura dentro do músculo (miosteatose), o que representa melhora da composição corporal, não piora.
“Nesse estudo, 74% das participantes eram mulheres, o que mostra que a mulher tem respostas significativas em todas as fases da vida”, diz Fernanda Canedo, gerente médica da Novo Nordisk Brasil.
Ela também diz que não há nenhuma interação medicamentosa relatada com semaglutida, inclusive com anti-hipertensivo, estatina (remédio para o colesterol), que são medicações geralmente usadas nessa população.
Realizado por médicos da Mayo Clinic utilizando tirzepatida e publicado no The Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women’s Health, uma pesquisa aponta que mulheres na pós-menopausa que fazem reposição hormonal e usam semaglutida podem ter uma resposta até 35% maior na perda de peso. O estudo é observacional (não randomizado), então os próprios autores alertam que não dá para afirmar a causalidade.
Para Faggioni, a relação poderia ser explicada porque o estrogênio melhora o sono, a disposição e a composição corporal, criando um ambiente mais favorável à ação do GLP-1. Por outro lado, Soares Júnior pondera que nem toda mulher responde desse jeito e que há algumas ressalvas a serem consideradas.
“Na menopausa, você costuma perder massa óssea e massa muscular. Se você não fizer atividade física adequada e não tiver uma dieta adequada, pode gerar sarcopenia. E com isso desencadeia osteoporose e fratura espontânea”, afirma Soares Júnior, que alerta que a falta de orientação nutricional pode gerar anemia por falta de ferro, baixa ingestão de cálcio (piorando a osteoporose) e deficiência de vitamina B12.
Além disso, Faggioni aponta que a atividade física é fundamental e deve ser iniciada antes mesmo da perimenopausa, para que se construa memória muscular e estabeleça disciplina, o que auxilia na manutenção da massa muscular e na diminuição de um possível reganho de peso após o término do tratamento./Folha SP
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