O procedimento, que durou aproximadamente uma hora, foi realizado no centro cirúrgico do Instituto Dr. José Frota (IJF), maior hospital de atenção terciária da rede municipal de Fortaleza.
O paciente é Nicolas Henrique, que foi baleado perto de casa, quando chegava do trabalho, há cerca de seis meses. Atualmente, ele não tem o movimento das pernas e utiliza uma cadeira de rodas para se locomover.
O médico Lucas Chaves, neurocirurgião do IJF, detalhou que o paciente foi sedado e ficou deitado em posição lateral para a aplicação de duas agulhas, guiadas por raio-X.
“A gente vai vendo a posição da agulha até a agulha atingir a medula abaixo da lesão e acima da lesão. Então a gente injeta essa medicação acima do nível da lesão e abaixo do nível da lesão com o intuito de que a polilaminina, que é uma proteína, possa regenerar os neurônios lesionados”, afirmou o neurocirurgião.
A aplicação da polilaminina contou com a presença de diferentes profissionais de saúde, como médicos neurocirurgiões, médicos residentes, anestesista, enfermeiros, técnico de enfermagem e técnico em radiologia.
A polilaminina é um composto recriado em laboratório a partir da laminina, proteína produzida no corpo humano, especialmente durante o desenvolvimento embrionário, quando exerce papel fundamental na organização dos tecidos e no crescimento celular.
Esperança e cautela
Nicolas tem diagnóstico de paraplegia decorrente do trauma na medula espinhal, causado pela perfuração de uma bala no nível da vértebra T8.
Conforme Lucas Chaves, o jovem passou por uma avaliação para que o uso do medicamento pudesse ser autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
O caso dele estava dentro de alguns critérios, como: ter idade entre 18 e 72 anos, não apresentar nenhum grau de sensibilidade abaixo do nível da lesão (o paciente não consegue mexer nem sentir as pernas após ter sido baleado) e ter uma lesão entre as vértebras T2 e T10.
“Por mim, eu já tava voltando a andar hoje ou amanhã, mas a expectativa é bem grande, com fisioterapia e tudo”, declarou Nicolas Henrique, em entrevista à TV Verdes Mares.
A dona de casa Crislene Lima, mãe de Nicolas, comenta que a família torce para que o jovem possa voltar a fazer atividades como caminhar e dirigir. No entanto, eles estão cientes de que não há certezas sobre os resultados.
“Também falo muito pra ele que, se não der certo, não desanimar e não ficar triste. Ele tem que estar preparado pra tudo”, disse a mãe.
Para Nicolas, o momento é de esperança e de fé. Ele detalha que a equipe médica comunicou claramente que a aplicação da polilaminina não é uma garantia de que ele voltará a andar.
Uso compassivo
Os estudos conduzidos pela cientista Tatiana Sampaio, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), repercutiram entre pacientes e familiares de pessoas com lesão medular.
Com isso, dezenas de pessoas têm acionado a Justiça para ter acesso à substância.
O Brasil tem uma resolução que permite o uso compassivo de medicamentos ainda em fase de estudo, mas o processo exige avaliação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Como a polilaminina precisa ser aplicada em até 72 horas após a lesão, as decisões judiciais pediam celeridade nessa análise.
Mas, atenção: todas essas aplicações não fazem parte de um ensaio clínico formal. Os pacientes recebem a substância, mas não são acompanhados dentro de um protocolo estruturado de pesquisa.
Com a liberação excepcional da substância, o paciente do Ceará deve ter acompanhamentos com consultas após um mês, três meses, seis meses e um ano. Ele teve alta do IJF no domingo (24).
A polilaminina é produzida pelo Laboratório Cristália em parceria com a UFRJ. Não houve custos para a aplicação da substância no paciente atendido pelo IJF.
O procedimento, coordenado por Lucas Chaves, teve apoio de um médico do Laboratório Cristália e de um médico pesquisador ligado ao estudo clínico, que vieram a Fortaleza para acompanhar a aplicação.
Durante o procedimento, foram administrados 0,5 ml da medicação. Após a alta, Nicolas continuará com uma rotina de fisioterapia e acompanhamento da equipe de Neurocirurgia e Cirurgia da Coluna do IJF.
“A gente está acompanhando o paciente no intuito de saber se houve melhora, se não houve melhora, se houve algum efeito adverso, algum efeito colateral da medicação. Isso o paciente passa pra gente nas consultas ambulatoriais regulares”, explica Lucas.
Caso o tratamento seja eficaz, a expectativa é que o paciente recupere os movimentos das pernas parcialmente ou totalmente.
Apesar de alguns resultados em seres humanos descritos pelo médico como animadores durante os estudos com a substância no Brasil, ele destaca que ainda não há garantias quanto ao sucesso do tratamento experimental. Por isso, ele pontua que é importante acompanhar a evolução do paciente sem ‘formar falsas esperanças’./g1
( Foto: IJF/Divulgação)





