Em março, ou seja, oito meses antes do Enem, Teixeira apresentou em um grupo de WhatsApp com alunos do seu curso de mentoria resoluções e questões de Matemática e Química com números iguais aos da prova oficial.
As outras três questões apareceram em uma live organizada por ele, dias antes da prova e, segundo o Estadão apurou, o Inep decidiu apenas anular perguntas que apareceram nesse vídeo. As novas questões semelhantes foram reveladas pelo g1, mas confirmadas pelo Estadão, que também teve acesso às mensagens enviadas por Teixeira.
Essas perguntas não foram anuladas pelo Inep, responsável pelo Enem. O órgão informou que nenhuma outra questão do Enem será anulada. “A avaliação técnica da autarquia é a de que a eventual memorização parcial e aleatória entre as milhares de questões pré-testadas para o Enem nos últimos anos não compromete a integridade do exame”, afirmou o Inep em nota. A reportagem procurou Edcley, mas não obteve retorno.
Uma das perguntas se refere a um jogo de dados entre dois personagens: Artur e Pedro. O Enem questiona qual é o jogador com maior probabilidade de vitória. Em 17 de março, Teixeira enviou a questão de Matemática no grupo de WhatsApp com seus alunos e escreveu: “agora uma coisa eu garanto, se cair no Enem pode marcar 125/216 sem medo de ser feliz… nem leia não”. Ele também enviou por WhatsApp as contas que realizou na chegar ao resultado.
Como antecipado por Teixeira, a resposta correta da questão que caiu no Enem era a alternativa 125/216.
Poucos dias antes, em 14 de março, Teixeira enviou no grupo de WhatsApp mensagens referentes a uma questão de Química sobre uma solução composta por duas substâncias: água e cloro. “Vou mandar uma questão do Prêmio Capes que errei, para ver se vocês serão mais espertos do que eu.. enviar no PV… quem não receber me avise!“, escreveu o estudante no grupo.
Já em 16 de novembro, após o segundo dia do Enem, Teixeira relembrou ter antecipado a pergunta: “mandei grupo tbm! E tbm tem nos nossos pdfs de pré-teste kkkkkKakakakak se alguém errou é pq não fez”.
A diferença é que na questão exibida por Teixeira a unidade de medida era “mililitro”. No Enem, a unidade foi “litro”.

Teixeira participou do Prêmio Talento Universitário Capes, aplicado também pelo Ministério da Educação (MEC), e diz que percebeu que se tratava de um pré-teste do Enem – ou seja, um exame em que são testadas previamente as questões que serão aplicadas em provas nos anos subsequentes. Além de decorar as questões e depois replicá-las ao seus alunos, ele também pagava colaboradores para memorizar trechos dessas provas. Teixeira também custeava vans para levar alunos até o local de aplicação desses chamados pré-teste do Enem.
O estudante foi alvo de mandado de busca e apreensão pela Polícia Federal no domingo, 23. Em entrevista ao Fantástico, da TV Globo, ele afirmou que “não sabia” que as questões idênticas que divulgou cairiam na prova deste ano e que acredita que “as similaridades pontuais foram coincidência”. “Não vejo má fé porque não existia nenhum termo de compromisso, nenhum termo de sigilo. Não existia nem no edital e nem no processo de inscrição. […] Se eles nos avisassem: ‘É um pré-teste, você tem que assinar o termo de sigilo, não pode divulgar para ninguém’, com certeza ficaria mais seguro o processo.”
Até agora, não há indícios de vazamento do Enem, mas a suspeita é investigada pela PF.
A prova Prêmio Talento Universitário Capes era aplicada pelo MEC desde 2019. Ela pode ser feito por estudantes no primeiro ano da faculdade, de qualquer área, em instituições públicas, privadas ou militares. São 80 questões de conhecimentos gerais. Os participantes não têm obrigatoriedade de sigilo nem saem com o caderno de questões, a prova será descontinuada pelo MEC. Outro pré-teste, que seria feito em dezembro, também foi adiado.
O objetivo desses testes é analisar o desempenho das questões por estudantes com perfil parecido com o dos candidatos do Enem. Com base na taxa de acerto dos participantes, o MEC entende se o item tem nível fácil, médio ou difícil e equilibra o grau de exigência do exame. Segundo especialistas, isso é necessário para que o Enem fique bem calibrado.
Inep diz ter protocolos de segurança
Em nota, o Inep afirmou que o exame “utiliza a Teoria da Resposta ao Item (TRI) para apuração de seus resultados”, metodologia que “demanda que os itens sejam pré-testados”, diz.
Os estudantes que participam de pré-testes têm contato com itens, informa o órgão, que podem vir a compor o Enem em alguma edição. Segundo o Inep, “os processos envolvem rigorosos protocolos de segurança, que foram cumpridos em todas as etapas do exame”./AE
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