Para o cearense Rutenio Florencio (25/11), a favela é celeiro de potências, desde que assumiu como projeto de vida uma missão desafiadora: transformar o inferno em céu.
Criado na favela do Inferninho, em Fortaleza, ele fundou o Pensando Bem, instituto que oferece atividades esportivas, culturais e de qualificação profissional para crianças, jovens e adultos.
As atividades, que começaram na garagem da casa de Rutenio, hoje acontecem em uma rua cheia de grafites, batizada de Beco Céu. Antes degradado e perigoso, foi revitalizado em 2019 com a ajuda dos moradores e se tornou um oásis de cor e de oportunidades.
Barracos deram lugar a casas estruturadas, onde funciona um hub de inovação e de apoio ao empreendedorismo comunitário.
Um desses espaços, a Casinha das Nuvens, foi onde Rutênio morou dos seis aos 16 anos junto com a mãe, que tem a saúde debilitada, e o pai, que morreu quando ele ainda era adolescente.
O jovem costuma dizer que foi salvo pelo muay thai, esporte que pratica desde os 9 anos e o incentivou a estudar e a querer se tornar um empreendedor.
Atualmente, o instituto tem 33 funcionários, atende mais de 900 moradores e é um dos integrantes da rede de Favelas 3D da ONG Gerando Falcões, que busca erradicar a pobreza com ambientes dignos, digitais e desenvolvidos.
“Quando eu tinha seis anos, minha mãe ficou paraplégica por causa de um vírus na medula, meu pai parou de trabalhar para cuidar dela e a gente veio para a favela do Inferninho. Eles não me deixaram passar fome, mas a gente já passou muita necessidade.
Fui um menino introvertido. Sofri violência sexual dos seis aos oito anos. Como meus pais passavam muito tempo no hospital, eu ficava mais livre e fui abusado pelos meus vizinhos. Isso me deixou mal, mas, aos nove anos, conheci o muay thai, que me libertou.
O esporte me fez ser um bom aluno na escola. Meu professor de muay thai é como um pai e hoje ele dá aulas no Pensando Bem.
Quando eu tinha 16 anos, o beco começou a ficar muito perigoso e nos mudamos para a casa da minha avó pertinho da favela. Aos 17, perdi meu pai e virei o homem da casa.
Comecei a trabalhar como aprendiz em uma farmácia. Sempre gostei de administrar, eu era o primeiro a chegar, o último a sair. Nunca tive medo de responsabilidade. Eu era líder desde o início e não sabia.
Fui efetivado e minha ideia era fazer faculdade de farmácia, mas vi que não dava. Cuidava da minha mãe, só de remédio gastava meu salário inteiro. Tinha que ganhar dinheiro e infelizmente faculdade não dá retorno rápido.
A gente, da favela, tem que fazer escolhas como essa: ou estudar ou ganhar dinheiro para não morrer de fome. No mesmo dia em que fui efetivado no emprego, vi um amigo de infância morto, com o corpo estirado no chão. Foi um choque: por que eu estava vivo e ele não?
Comecei a dar aulas de muay thai para oito crianças da comunidade na garagem da minha avó. Em 2019, pedi demissão para viver só do Pensando Bem.
Na pandemia, focamos em assistencialismo. A gente entrou de cabeça, trabalhou demais, só que sem salário. Percebi que só de vontade não dá para transformar nada.
Hoje eu falo: não faço isso aqui porque eu sou bonzinho, eu faço porque eu tenho uma missão, eu empreendo de fato. É cabeça de empresa e coração do social.
Quando veio a baixa da pandemia, eu já sabia que prato de comida sacia, mas não acaba com a fome. O que acaba com a fome é a transformação social, é a oportunidade, é um pai de família se qualificar para trabalhar e não depender da cesta básica.
Só que depois da pandemia, a favela inteira sabia o que a gente estava fazendo. A ideia era sair da minha casa e buscar um espaço maior, mas eu não tinha dinheiro.
Naquele beco abandonado na esquina da casa onde cresci, vi a oportunidade de levar mudança social para a favela. Um lugar revitalizado revitaliza pessoas.
No começo, a ideia era só minha, mas eu compartilhei com a favela e a favela começou a sonhar. Na primeira ação que fiz, um evento de literatura, não movi uma pá para limpar nada. Os moradores limparam o Beco do Céu.
O esporte e o mercado de trabalho me trouxeram uma rede de contatos fora da favela que expandiu minha mente. E ter uma família me livrou de sequelas, porque eu tinha com quem contar. Tem gente na favela que não tem com quem contar, e isso acarreta problema para a vida inteira.
O maior problema que vejo na favela é a cabeça do morador. Porque a galera acha que nasceu para morar na miséria. É difícil falar isso, parece papo de coach, mas é o que eu vivo todos os dias. Nossa maior dificuldade é mostrar que existe um caminho diferente.
A criança consegue absorver isso melhor, mas o adulto, não. É muita pancada, sabe? Imagina dizer para uma mãe que engravidou aos 14 anos, que apanha do marido, que ela não nasceu para isso, que ela pode terminar os estudos, mexer no computador, ter um futuro melhor?
A gente tem o plano de transformar esta favela na primeira favela sem pobreza, sem violência, em que jovens não morrem mais por falta de oportunidade, em que o básico não é negado e a potência é valorizada. Somos um celeiro de potências e temos mentes brilhantes aqui.
De onde saem as grandes ideias no Brasil? Das universidades. Mas nas favelas também têm criatividade, perseverança, vontade de fazer acontecer. É isso que nos mantém vivos. Se a gente olhar para a favela com esse ar de oportunidade, teríamos muitas ideias transformadoras no país.”/Folha SP
(Foto reprodução)






