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Ceará Notícias > Blog > Destaques > Você tem TDAH ou apenas se identificou com vídeo? Entenda riscos do autodiagnóstico 
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Você tem TDAH ou apenas se identificou com vídeo? Entenda riscos do autodiagnóstico 

Ultima atualização: 30/09/2026 10:46 AM
Redação
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9 Min. de Leitura
Hand of black boy puts wooden cube with ADHD, Attention Deficit Hyperactivity Disorder on table.
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Agitação, desatenção, procrastinação. É comum encontrar conteúdos nas redes sociais relacionando essas características ao transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). No TikTok, por exemplo, a hashtag “tdah” reúne mais de 830 mil publicações e, entre os vídeos agrupados nela, é recorrente a associação do quadro a esses potenciais sintomas.

Nem toda inquietação, porém, é um sinal de TDAH. Há outros fatores que podem explicar dificuldades momentâneas de concentração e organização, como a própria personalidade, períodos de estresse, privação de sono e até hábitos como o uso excessivo de telas e a exposição constante a notificações.

Diante desse cenário, como diferenciar o que é uma característica ou hábito de um sintoma que, de fato, merece investigação?

Para responder a essa dúvida, especialistas em psiquiatria e neurologia, que ajudam a traçar esse limite e a conduzir uma investigação mais consciente.

Pode ser TDAH?

Uma pessoa pode esquecer ocasionalmente onde deixou um objeto, perder a concentração durante uma atividade monótona ou deixar uma tarefa para depois. Esses comportamentos, isoladamente, não significam a existência de um transtorno. “Isso acontece com todos nós”, diz Luis Augusto Paim Rohde, professor do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e primeiro latino-americano a receber o Ruane Child Psychiatry Award.

Ele explica que características associadas ao TDAH, como a desatenção, estão presentes em toda a população em diferentes graus. A diferença se dá quando elas são marcantes no funcionamento do indivíduo, provocando problemas em áreas como trabalho, estudos ou relacionamentos. É por isso que o diagnóstico do transtorno é considerado dimensional, ou seja, não existe uma divisão rígida.

Guilherme Polanczyk, psiquiatra de crianças e adolescentes, professor da Universidade de São Paulo (USP) e membro do Comitê Científico do Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI), acrescenta que o TDAH envolve um conjunto de dificuldades. Entre elas estão distração, desorganização, perda ou esquecimento de objetos e dificuldade para completar tarefas, além da mente dispersa. “Não é só uma dificuldade de organização ou de manter a atenção”, pontua.

Esses sintomas precisam ocorrer de maneira persistente, em intensidade maior do que a esperada e com prejuízo para a vida da pessoa para que sinalizem um possível quadro de TDAH.

Redes sociais podem confundir

Um estudo de 2025 avaliou os 100 vídeos mais populares do TikTok sobre TDAH e descobriu que menos da metade era condizente com o que o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) estabelece sobre o transtorno.

Outra pesquisa analisou 177 vídeos sobre TDAH na plataforma e identificou informações incorretas em metade deles.

Para Rohde, o problema não está no uso das redes sociais para falar sobre saúde mental, mas na qualidade das informações que chegam ao público. “Quando esses sintomas estão presentes de forma intensa na vida do indivíduo, a ponto de causar prejuízo funcional, eu mereço fazer uma avaliação e não (chegar a um diagnóstico) por dancinha no TikTok (ou) porque é o ‘meu jeito TDAH de ser’”, alerta.

Segundo ele, a banalização pode levar pessoas a interpretar comportamentos comuns como sinais de um transtorno. Ao mesmo tempo, conteúdos simplificados podem fazer com que características importantes sejam reduzidas a listas de sintomas, de forma descontextualizada.

Sobre esse ponto, Polanczyk recomenda que conteúdos e questionários encontrados na internet sejam vistos como uma possível porta de entrada para informação, e não como instrumento de diagnóstico.

Sono, estresse e telas também entram na conta

Nem toda dificuldade de atenção tem sua origem no TDAH. “Excesso de eletrônicos, privação de sono e uso de substâncias claramente aumentam dificuldades cognitivas”, lista Polanczyk.

Rodrigo Meirelles Massaud, neurologista do Einstein Hospital Israelita, acrescenta que as notificações constantes e a realização simultânea de várias tarefas também podem prejudicar a atenção, a memória e o controle inibitório.

É preciso ainda ter cautela com falsas associações, alerta o neurologista. “Não é correto afirmar que celulares, redes sociais ou notificações ‘causam TDAH’. Eles podem dificultar a concentração e agravar sintomas em pessoas vulneráveis”, distingue.

Por isso, durante a avaliação, os especialistas investigam quando os sintomas começaram e em quais situações surgem. Uma pessoa que passou a ter dificuldades de concentração depois de um período de privação de sono ou de grande estresse, por exemplo, pode estar diante de uma situação bem diferente daquela de alguém com dificuldades persistentes desde a infância.

Relatos da infância

Rememorar a infância quando se está investigando um diagnóstico de TDAH na vida adulta é um caminho importante. Contudo, Rohde alerta que a ausência de sintomas nessa fase nem sempre é uma negativa para o transtorno.

Segundo ele, algumas pessoas conseguem compensar as dificuldades durante a infância, seja por terem uma capacidade cognitiva maior, por viverem em ambientes com menos demandas ou por contarem com adultos que as auxiliavam na organização das atividades.

Além disso, as lembranças podem falhar. Rohde cita uma pesquisa brasileira em que adultos com sintomas importantes de TDAH foram questionados sobre a própria infância e tiveram suas respostas confrontadas com registros feitos por pais e professores na época. Entre os que afirmavam ter tido sintomas quando crianças, apenas 55% tinham registros compatíveis.

O resultado mostra como a retrospectiva pode ser imprecisa. “Existe um fenômeno chamado recall bias, que é um viés de lembrança”, explica Rohde. Por isso, sempre que possível, a avaliação deve contar com alguém que conhecia o paciente na infância, além de documentos oficiais.

Exames de imagem e escalas de sintomas

“O diagnóstico é clínico, baseado na história e nos sintomas”, afirma Massaud. “Não existe ressonância magnética, eletroencefalograma ou outro exame capaz de diagnosticar individualmente o TDAH.”

Segundo o neurologista, o transtorno geralmente envolve redes do cérebro relacionadas à atenção, ao controle dos impulsos, à motivação e às funções executivas. No entanto, mesmo que algumas diferenças tenham sido observadas em pesquisas que comparam grupos, elas não funcionam como um marcador individual para o TDAH.

Nos comentários de vídeos nas redes sociais, é possível ver que muitos internautas acreditam em avaliações neuropsicológicas padronizadas como forma de obter o diagnóstico.

Polanczyk afirma que elas até podem mostrar como estão determinadas funções cognitivas em um determinado momento, mas não são capazes de determinar sozinhas se uma pessoa tem ou não o quadro. “Essas escalas de sintomas não são nunca, jamais diagnósticas”, enfatiza.

Ele reforça que elas podem ajudar a identificar a necessidade de uma investigação mais aprofundada, mas o profissional precisa considerar o histórico do paciente e também outras possíveis explicações para as dificuldades observadas no dia a dia.

Para Rhode, a avaliação clínica cuidadosa é a principal ferramenta disponível para evitar diagnósticos frágeis e a banalização do transtorno. Diante da dúvida sobre o quadro, ele orienta procurar um profissional com experiência em TDAH e em transtornos mentais, seja psicólogo, psiquiatra, neurologista ou médico de família./AE

(Foto: Reprodução)

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