Em uma das publicações, uma mulher aparece dizendo que a “receita” funciona como um passe de mágica: basta cortar a cebola em dois pedaços, deixar em algum recipiente enquanto a criança dorme e pronto: a tosse é curada milagrosamente.
De acordo com os médicos consultados, isso é uma crença popular, difundida há anos, mas sem evidências científicas.
Mas por que tantas pessoas acreditam que funciona? A explicação está na evolução natural da maioria das infecções respiratórias, segundo Aline Amoras, pneumologista do Hospital Infantil Darcy Vargas, gerido pelo Einstein Hospital Israelita.
“Grande parte das tosses infantis é causada por vírus e melhora espontaneamente em uma ou duas semanas. Quando a cebola é colocada no quarto durante esse período, é comum associar a melhora à prática, quando, na verdade, a recuperação aconteceria de qualquer forma”, diz a médica.
Nos comentários dos vídeos, as pessoas dizem que o grande herói seria o enxofre, que é mesmo uma substância liberada pela cebola.
A pneumologista explica que, de fato, quando é cortada, a cebola libera compostos sulfurados voláteis, que são gases derivados do enxofre, como o propanetial-S-óxido, responsável pelo ardor nos olhos.
Além disso, a especialista diz que existem estudos, realizados em laboratório, mostrando que extratos concentrados de cebola, quando administrados por via oral em doses farmacológicas, possuem propriedades anti-inflamatórias em modelos animais.
“Porém, não se pode extrapolar esses achados para a simples presença de uma cebola no ambiente. A concentração de compostos voláteis liberados por uma cebola cortada é mínima e não atinge níveis capazes de produzir qualquer efeito terapêutico nas vias aéreas”, reforça Aline.
A prática, apesar de não apresentar risco de danos graves, merece atenção já que pode causar irritação nos olhos e nas vias respiratórias, especialmente em crianças com asma ou hiperreatividade brônquica.
Além disso, como cita a pneumologista, cebolas cortadas deixadas em temperatura ambiente também podem acumular bactérias.
“O risco mais importante, porém, é indireto: confiar em práticas sem evidência pode atrasar a busca por atendimento médico em casos de tosse por causas graves como asma, coqueluche, pneumonia ou aspiração de corpo estranho”, diz.
Importante lembrar que a tosse é um reflexo da defesa do corpo. Entender o que está causando o sintoma é fundamental, explica Raisa Elena Tavares Pinheiro, pneumologista pediátrica do Hospital Pequeno Príncipe.
“Pode ser um resfriado, um descontrole de asma ou uma crise alérgica”, diz. Na lista de medidas a serem seguidas estão: ingestão adequada de líquidos, hidratação e lavagem nasal, além do uso de umidificador de ar, se o tempo estiver seco. A ingestão de mel também pode ajudar, mas apenas para crianças acima de um ano.
É fundamental procurar atendimento médico se a criança ou adulto apresentar dificuldade respiratória, febre persistente, tosse com sangue, recusa alimentar ou tosse que dure mais de três semanas./AE
(Foto: Reprodução)






