A função surge após anos de discussões sobre relatos de assédio e episódios de violência durante corridas por aplicativo.
A proposta da empresa é dar mais autonomia às usuárias na escolha de quem dirige a viagem, aumentando a sensação de segurança durante o trajeto.
Segundo a Uber, a funcionalidade responde a um pedido antigo das passageiras.
“A ferramenta Uber Mulher é uma demanda antiga das brasileiras, que relatam sentir-se mais confortáveis ao encontrar uma motorista mulher na viagem”
Recurso começou como teste em cidades brasileiras
Antes da expansão para as capitais, o Uber Mulher passou por uma fase de testes iniciada em outubro do ano passado.
O recurso foi testado em sete cidades:
- Piracicaba
- Uberlândia
- Curitiba
- Campinas
- São José dos Campos
- Ribeirão Preto
- Campo Grande
De acordo com a empresa, a experiência positiva das usuárias levou à nova fase de expansão.
“Agora expandimos a funcionalidade para 13 capitais do país e novas expansões serão avaliadas de forma gradual. A empresa acompanha atentamente a experiência das usuárias e motoristas parceiras para planejar as próximas etapas”, informa a Uber.
A companhia também afirma que ainda não há datas definidas para novas ondas de expansão para outras cidades.
Como funciona o Uber Mulher
A nova função aparece dentro do aplicativo e pode ser usada de três maneiras diferentes.
Corrida imediata com motorista mulher
Ao pedir uma corrida, a passageira pode selecionar a opção Uber Mulher. O aplicativo, então, tenta conectar a viagem com uma motorista mulher próxima. Caso o tempo de espera fique muito alto, a usuária pode escolher entre continuar aguardando uma motorista ou solicitar o motorista mais próximo disponível.
Corridas agendadas
A função também pode ser utilizada no Uber Reserve, ferramenta que permite agendar corridas com pelo menos 30 minutos de antecedência.
Preferência permanente por condutoras
Também é possível ativar uma configuração de preferência no aplicativo. Nesse modo, sempre que houver uma motorista disponível, o sistema prioriza condutoras nas corridas da categoria UberX.
Quais capitais o recurso será liberado?
A expansão inicial acontece nas seguintes cidades:
- São Paulo
- Rio de Janeiro
- Belo Horizonte
- Brasília
- Salvador
- Recife
- Fortaleza
- Manaus
- Belém
- João Pessoa
- Goiânia
- São Luís
- Cuiabá
Segundo a Uber, a liberação acontece gradualmente dentro do aplicativo, então algumas usuárias podem ver o recurso antes de outras.
O problema do assédio nos deslocamentos
A criação da ferramenta também está ligada a um cenário preocupante envolvendo violência de gênero na mobilidade urbana.
Uma pesquisa apoiada pela Uber e realizada pelo Instituto Patrícia Galvão mostra que o medo ainda faz parte da rotina de deslocamento das mulheres no país.
Os dados apontam que:
- 97% das brasileiras sentem medo de sofrer violência ao se deslocar pela cidade.
- 71% já sofreram algum tipo de violência nesse contexto.
- Os episódios acontecem principalmente a pé (73%) e no ônibus (45%).
Para especialistas, ferramentas de escolha de motorista podem aumentar a sensação de controle e segurança, embora não eliminem totalmente o problema.
Ainda existem poucas motoristas mulheres
Um dos desafios do novo recurso é o baixo número de condutoras na plataforma. Segundo a Uber, o número de motoristas mulheres cresceu mais de 160% nos últimos anos, e mesmo assim, elas representam apenas cerca de 8% da base de motoristas no Brasil. Isso significa que o tempo de espera por uma motorista mulher pode ser maior em algumas regiões.
A empresa afirma que a nova função também busca estimular mais mulheres a dirigir na plataforma.
“A Uber continuará investindo em iniciativas para que mais mulheres vejam aqui uma oportunidade de geração de renda”, informou a companhia.
A empresa afirma ainda que o Uber Mulher é apenas uma das frentes de segurança voltadas às passageiras. Atualmente, o aplicativo conta com ferramentas que atuam antes, durante e depois da corrida, como:
- Verificação de identidade do motorista.
- Compartilhamento de trajeto em tempo real.
- Botão de emergência.
- Suporte dentro do aplicativo.
Além disso, desde 2018, a Uber mantém um compromisso público de enfrentamento à violência contra a mulher, com parcerias com especialistas e autoridades. Uma dessas iniciativas foi criada com o movimento MeToo, que resultou em um canal de suporte psicológico para vítimas de violência de gênero ou condutas discriminatórias dentro da plataforma.
Violência contra mulheres em aplicativos e deslocamentos
Embora aplicativos de transporte tenham ampliado opções de mobilidade nas cidades brasileiras, casos de violência e assédio também já foram registrados dentro dessas plataformas.
Dados divulgados em relatórios internacionais de segurança da própria Uber mostram que milhares de denúncias de agressão sexual e comportamento inadequado foram registradas ao longo dos últimos anos em viagens intermediadas pelo aplicativo.
No Brasil, os registros oficiais são mais difíceis de consolidar porque nem todos os casos chegam à polícia ou são classificados separadamente por tipo de transporte. Ainda assim, dados de segurança pública indicam que a violência contra mulheres continua em níveis elevados no país.
Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou mais de 74 mil casos de estupro em 2023, o maior número já contabilizado no país. A maioria das vítimas é mulher e grande parte das ocorrências acontece em contextos de deslocamento ou vulnerabilidade.
Outro levantamento do mesmo órgão mostra que:
- Uma mulher é vítima de estupro no Brasil a cada cerca de 7 minutos.
- Mais de 60% das vítimas têm menos de 14 anos.
- A maior parte dos crimes ocorre em ambientes cotidianos ou durante deslocamentos.
Especialistas em segurança pública apontam que a subnotificação ainda é um problema significativo, especialmente em casos de assédio ou violência ocorridos em transportes.
Nesse contexto, iniciativas como o Uber Mulher são vistas como uma tentativa de reduzir riscos e ampliar a sensação de segurança durante as corridas, embora pesquisadores alertem que o enfrentamento da violência de gênero exige ações mais amplas de toda a sociedade.
Em meio a números alarmantes de violência contra mulheres no Brasil, a possibilidade de escolher quem dirige a corrida surge como uma tentativa de devolver às passageiras algo que muitas ainda sentem faltar ao se deslocar pelas cidades: a sensação de segurança./Metrópoles
(Foto: Reprodução)





