/Tombou uma das “Torres Históricas de Crateús”. Por Júnior Bonfim

Tombou uma das “Torres Históricas de Crateús”. Por Júnior Bonfim

Tombou uma das Torres Históricas de Crateus: o centenário Norberto Ferreira Filho, o Ferreirinha. Quando fundamos a Academia de Letras de Crateus, para ele foi destinada a Cadeira 01.

Nossa solidariedade a todos da família.

Posto, abaixo, uma Crônica, lavrada para ele:

FERREIRINHA

No dia 27 de maio de 2006 ocorreu um evento histórico em Crateús. Numa solenidade que combinou simplicidade, emoção e profundidade foi comemorada a nonagenária existência da empresa Norberto Ferreira. Fundada por Norberto Ferreira de Souza em 1916, a empresa sobreviveu a todas as intempéries econômicas ocorridas nestas nove décadas. Começou como fábrica de pão. Hoje, loja de material de construção. Lembra um singelo e virtuoso templo em louvor à virtude e à tradição, um modesto porém altivo monumento aos valores sólidos e essenciais. Seu ícone, filho legítimo e sucessor empresarial do velho Norberto, é um longevo pastor que ali se posta cotidianamente para receber a freguesia fiel (seus freqüentadores cultivam mais uma relação de amizade que de clientela, no sentido mercantilista que esta palavra encerra). É… Seu nome é Norberto Ferreira Filho, carinhosamente chamado de Ferreirinha. Quando ali funcionava uma padaria, Ferreirinha aprendeu que sua missão neste mundo ia além de colocar o fermento na substância do pão; tinha que fermentar, também, a massa popular. E passou a contribuir para que o mundo fosse menos desigual. Conscientizou-se da necessidade de todos terem, à mesa, o pão e a paz de cada dia. Tornou-se um combatente. Mais do que isso: autodidata, biblioteca ambulante, conselheiro universal, portal histórico, manancial de sabedoria.

Certa feita teve a deferência de me instigar a escrever a orelha de um de seus livros. Transcrevo-a, pois no livro está incompleta, como singela homenagem:

“De repente, a chuva! Tal qual o milho debulhado, que se depreende das espigas em delicados caroços, cai o látego líquido, os pingos celestiais, a esperada chuva de inverno. Do chão explode o verde, os açudes sangram, os rios transbordam, os olhos brilham, as pessoas resplandecem.

Eis o nosso sertão: mandacaru e juazeiro, escassez e fartura, sequidão e verdura, espinho e flor – entusiástica terra que não conhece a monotonia. Existem seres que, por vínculo amoroso, assumiram esta mística e se confundem com o nosso solo. Ferreirinha é um desses raros e sagrados seres.

Esta imagem me vem à cabeça no momento em que recebo um afetuoso bilhete do autor solicitando que lhe escreva a “orelha” da Coletânea-2 (As nossas conchas auriculares captam os principais sons que nos rodeiam; penso que a orelha de um livro deve captar a essência do mesmo).

Fotógrafo de mentes, caricaturista de almas, pintor de corações – o Sr. Ferreirinha nos brinda nesta obra com uma galeria de quadros com suas pinturas prediletas: homens e mulheres que fizeram e/ou fazem a história dos sertões de Crateús. Com a sensibilidade de um artista cuidadoso, ele faz da sua caneta o pincel no qual realça os traços mais marcantes das criaturas que retrata. Memorialista admirável, sacode-nos com a abundância de informações que detém, a precisão de detalhes que recolhe, o manancial de dados que armazena.

Modesto nos hábitos, colossal na inteligência, o Sr. Norberto Ferreira Filho reúne outra vez os cacos de nossas lembranças e acende a aquecedora fogueira do tempo.

Torre histórica de Crateús, em ti reconhecemos a humilde imponência dos bravos e fortes sertanejos.

Reverentes, curvamo-nos ante teu farol e te saudamos por mais esse raio de luz que lanças sobre o túnel da nossa memória coletiva!”

(Júnior Bonfim, in “Amores e Clamores da Cidade).

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