Quem é padre Júlio Lancellotti e por que a Câmara de SP quer investigá-lo em CPI das ONGs?

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Alvo de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) a ser instalada na Câmara Municipal de São Paulo, padre Júlio Lancellotti é uma figura conhecida nacionalmente pelo trabalho que realiza com a população em situação de rua na capital paulista. Há mais de 40 anos militando pelos pobres, o sacerdote, de 75 anos, é coordenador da Pastoral do Povo da Rua, da Arquidiocese de São Paulo.

Paulistano nascido no bairro do Brás, Lancellotti é também o padre responsável pela Paróquia de São Miguel Arcanjo, da Mooca, desde 1986, onde começou o trabalho pastoral com populações de rua, menores infratores e crianças com HIV.

Taxado de “padre esquerdista” por políticos da extrema direita, Júlio Lancellotti teve a atuação incentivada pelo Papa Francisco. O pontífice ligou para o sacerdote em 2020 e recomendou que ele não desanimasse do trabalho para auxílio dos pobres, mesmo diante de todas as dificuldades.

Ele também acumula reconhecimentos oficiais e premiações em direitos humanos, concedidos por entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Movimento Nacional de Direitos Humanos, Ministério da Justiça e da Segurança Pública, Câmara dos Deputados e Presidência da República.

Agora, o padre Júlio Lancellotti deve ser um dos principais alvos de uma CPI para investigar as organizações não governamentais (ONGs) que atuam na Cracolândia, na região central de São Paulo, caso o colegiado saia do papel na Câmara.

O autor da proposta, vereador Rubinho Nunes (União Brasil), prevê que a comissão seja instaurada em fevereiro, após o recesso parlamentar, e diz que a medida já conta com o apoio de 30 vereadores.

Rubinho acusa duas organizações, a Craco Resiste e o Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, conhecida como Bompar, de promoverem uma “máfia da miséria”, que “explora os dependentes químicos do centro da capital”. O padre já foi conselheiro do Bompar e desenvolve um dos principais trabalhos sociais na capital paulista.

Segundo o vereador, essas organizações recebem dinheiro público para distribuir alimentos, kit de higiene e itens para o uso de drogas à população em situação de rua. A política de redução de danos, segundo ele, gera um “ciclo vicioso” no qual o usuário de crack não consegue largar o vício.

O padre Júlio declarou que a instalação de CPIs para investigar o uso de recursos públicos pelo terceiro setor é uma ação legítima do Poder Legislativo. O padre esclareceu que não faz parte de nenhuma organização conveniada à Prefeitura de São Paulo, mas, sim, da Paróquia São Miguel Arcanjo.

Já a entidade Craco Resiste informou que não é uma ONG e sim um projeto de militância que atua na região da Cracolândia para reduzir danos a partir de vínculos criados por atividades culturais e de lazer. “Quem tenta lucrar com a miséria são esses homens brancos cheios de frases de efeito vazias que tentam usar a Cracolândia como vitrine para seus projetos pessoais. Não é o primeiro e sabemos que não será o último ataque desonesto contra A Craco Resiste”, diz, em nota divulgada nas redes sociais. A reportagem ainda não conseguiu contato com o Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, conhecida como Bompar, também mencionada por Rubinho.

Essa não é a primeira vez que o padre Júlio Lancellotti é alvo de figuras ligadas à extrema direita. Na mira de bolsonaristas, o padre já recebeu críticas de Arthur do Val, candidato a prefeito pelo Patriota em 2020, que culminaram em ameaças.

Lancellotti também já foi processado por Jair Bolsonaro (PL), quando ele ainda era deputado, por um vídeo divulgado nas redes sociais em março de 2017, em que o padre defende os direitos das mulheres e critica o fato de “uma pessoa homofóbica e violenta como Bolsonaro” aparecer nas pesquisas eleitorais pela Presidência. O sacerdote venceu a ação.

Lei Padre Júlio Lancellotti

A atuação de padre Júlio Lancellotti com aos pobres já serviu de inspiração para criação uma lei. Batizada com o nome dele, a norma veda o uso de materiais, estruturas e técnicas construtivas hostis nos espaços livres de uso público. O projeto teve autoria do senador Fabiano Contarato (PT-ES).

Em fevereiro de 2021, na pandemia de covid-19, o sacerdote quebrou a marretadas pedregulhos colocados sob o viaduto Dom Luciano Mendes de Almeida pela Prefeitura de São Paulo para afastar pessoas em vulnerabilidade do local. Após a repercussão dos atos na época, as pedras foram removidas pela administração municipal.

A lei foi promulgada no dia 21 de dezembro de 2022, como resultado da derrubada de um veto do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo Congresso. Essa norma editou o Estatuto da Cidade e foi assinada simbolicamente pelo presidente da Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e pelo ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania, Silvio Almeida, durante cerimônia no Palácio do Planalto, no último dia 11 de dezembro./AE

(Foto reprodução)

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