Para voltar a ser campeã mundial após 24 anos, a seleção brasileira entende que não basta cuidar de aspectos táticos, técnicos e físicos dos jogadores.
O aspecto mental na Copa do Mundo é muito importante — avisou o técnico Carlo Ancelotti.
Por isso, a CBF toma diversas medidas em relação ao bem-estar emocional dos atletas. Os cuidados vão desde a presença de uma psicóloga na comissão técnica, algo que não aconteceu nas últimas duas Copas do Mundo, até pequenos detalhes da rotina de trabalho e convivência dos convocados.
O hotel em que a Seleção está hospedada, em Nova Jersey, passou por modificações pensando na saúde mental dos jogadores e demais membros da delegação.
São cerca de 90 pessoas confinadas num hotel por 40 ou até 50 dias, é um tempo muito longe de casa e muitas pessoas no mesmo espaço, então nós preparamos espaços para relaxamento, um local de silêncio para leitura ou se o atleta quiser ficar em um momento mais isolado. Também temos uma área externa com vegetação, que já é do hotel, mas a gente refinou alguns desses locais para ficar mais agradável — explica o fisiologista Guilherme Passos.
No interior do hotel têm algumas paginações para remeter à paisagem, ao ambiente externo, também frases de vitória, de luta. Diferentemente da Copa da Rússia, por exemplo, em que muitas vezes a gente trocou o hotel, dessa vez, se classificar em primeiro do grupos, a gente vai ficar praticamente a competição inteira no mesmo hotel, então tem que ter esses ambientes para espairecer um pouco — complementa.
Outra medida que visa o bem-estar psicológico dos atletas é o contato com familiares durante a competição. Esse tipo de interação será permitido somente nas folgas, previstas para o dia seguinte aos jogos. No dia a dia de trabalho, visitas não são permitidas na concentração.
Psicologia, sim. Terapia, não
A responsável por ouvir e orientar atletas e demais profissionais da Seleção é Marisa Santiago, especialista em Psicologia do Esporte. Com passagens por Atlético-MG, Bahia e Cruzeiro, ela trabalha atualmente no Grêmio e, desde 2024, vem sendo convocada pela CBF para atuar nas datas Fifa.
Marisa faz questão de destacar que, diferentemente do que muitos imaginam, seu papel na Seleção não consiste em realizar sessões de terapia com os jogadores. Em entrevista ela explicou a sua atuação:
– O trabalho é estar à disposição dos atletas para que eles possam lidar melhor com a com a pressão e com tudo o que envolve o desempenho e o resultado desses atletas. O tempo todo fazendo com que eles se sintam mais confortáveis para poder colocar em campo o futebol que eles têm – disse.
– A gente entende como um trabalho multidisciplinar. Por exemplo: a fisioterapia muitas vezes fala: “olha, fulano está um pouco mais chateado por causa dessa lesão.” Os atletas também entenderem que tem essa figura da psicóloga ali, isso também foi uma construção. Hoje em dia é bem mais fácil lidar do que foi no início de 2024, quando eu cheguei – completou.
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Marisa Santiago é psicóloga da seleção brasileira — Foto: Rafael Ribeiro / CBF
O meia Bruno Guimarães enaltece a importância desse tipo de acompanhamento:
– Eu acho muito isso importante não só para o futebol como para a vida. Eu tenho a minha própria (psicóloga) também, então acho que isso me levou a outro nível de como balancear a pressão, não se importar muito com as coisas de fora. Tudo que mais importa na minha vida está dentro da minha casa. Então a gente vê que é uma geração que se abalou muito com críticas. A gente viu a situação do Richarlison, o quanto ele passou por um momento difícil e ter uma pessoa como essa dentro da seleção é importante. A gente teve trocas com elas individualmente e coletivamente, acho que foi positivo.
No dia a dia
Além de conversas individualizadas, Marisa realiza dinâmicas em grupo em determinados momentos. Nas Datas Fifas mais curtas, geralmente de dez dias, a atuação fica mais restrita, já que há pouco tempo para atividades deste tipo em meio a treinos, viagens e jogos.
Muitas vezes, os atendimentos da psicóloga acontecem na saída do campo, após os treinamentos, ou em momentos de descanso nas concentrações.
– Dentro da Seleção, a gente faz um trabalho de acolhimento mesmo, individualizado e também em grupo, de acordo com as demandas e com o que a comissão entende que é importante no momento – comentou.
– Às vezes, as pessoas entendem psicologia como um trabalho a longo prazo, que é o trabalho terapêutico. Mas na seleção é muito mais pontual para a questão do aqui e agora.
Durante a Copa do Mundo, uma das missões de Marisa será preparar os jogadores e instruir a comissão técnica sobre como manter o grupo concentrado em eventuais atrasos ou paralisações de partidas. A CBF toma como exemplo a Copa do Mundo de Clubes, realizada no ano passado nos Estados Unidos, quando alertas de raios adiaram ou interromperam jogos.
Histórico
A última vez que o Brasil teve um profissional especializado no cuidado com a saúde mental foi no Mundial de 2014, em que a psicóloga Regina Brandão integrou a comissão do técnico Felipão.
Nas duas Copas em que comandou a Seleção, em 2018 e 2022, o técnico Tite optou por não ter alguém com essa especialização em seu staff. No entendimento dele, a presença de um psicólogo na comissão surtiria pouco efeito na Copa, uma vez que o tempo para criar vínculos de confiança entre os atletas e esse profissional é escasso. O treinador preferiu ter apenas um aconselhamento de um profissional da área.
Em paralelo, os atletas passaram a buscar acompanhamento psicológico fora de seus clubes e da Seleção. Uma das lideranças do grupo de 26 convocados, o lateral e zagueiro Danilo fala com frequência sobre a importância dos cuidados com a saúde mental e chegou a criar um projeto relacionado ao assunto.
A Seleção estreia na Copa do Mundo no próximo sábado, contra Marrocos, às 19h (de Brasília). O Grupo C ainda conta com Haiti e Escócia./ge
( Foto: Rafael Ribeiro / CBF)





