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Ceará Notícias > Blog > Destaques > Por que o Mounjaro funciona melhor para algumas pessoas? Estudo encontra possível explicação
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Por que o Mounjaro funciona melhor para algumas pessoas? Estudo encontra possível explicação

Ultima atualização: 03/09/2026 9:37 AM
Redação
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6 Min. de Leitura
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A obesidade é uma doença crônica e multifatorial que atinge pessoas de diferentes idades e grupos sociais em todo o mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 650 milhões de pessoas vivem com a condição.

Além de mudanças no estilo de vida, com melhora da alimentação e prática regular de atividade física, o tratamento pode envolver o uso de medicamentos. Nos últimos anos, os chamados análogos de GLP-1, como semaglutida (princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, por exemplo) e tirzepatida (do Mounjaro), ampliaram as opções disponíveis e ganharam espaço no combate à doença. No corpo, as substâncias agem como esse hormônio intestinal GLP-1, que reduz o apetite e retarda o esvaziamento gástrico, mantendo uma sensação de plenitude.

Um diferencial da tirzepatida é que, além de ser análoga ao GLP-1, ela simula o GIP, outro hormônio intestinal. Por conta disso, tem um efeito mais potente sobre o metabolismo e o apetite. Mas nem todo mundo responde da mesma forma ao medicamento. Recentemente, cientistas da Mayo Clinic publicaram um estudo que pode ajudar a entender melhor essa situação.

No trabalho, os pesquisadores avaliaram 483 adultos com obesidade e identificaram um grupo que eles denominaram de “intestino faminto”. Esse perfil esteve associado a uma resposta maior à tirzepatida, embora os próprios autores ressaltem que os resultados ainda precisam ser confirmados em estudos maiores e prospectivos. O trabalho foi publicado na revista Gastroenterology.

Como o estudo foi feito

Os cientistas da Mayo Clinic avaliaram características como a velocidade de esvaziamento do estômago e os níveis de GLP-1 dos participantes. A partir daí, chegaram a três grupos, sendo que um deles correspondia ao chamado “intestino faminto”: nessa turma, formada por 130 indivíduos, o estômago esvaziava mais rapidamente, a fome após as refeições era maior e os níveis de GLP-1 estavam abaixo do esperado.

Para ter ideia, ao longo de 90 minutos após a refeição, os níveis de GLP-1 foram cerca de 38% menores nesse grupo. Os autores também encontraram níveis reduzidos de PYY e CCK, outros hormônios ligados à saciedade.

A resposta à tirzepatida foi analisada em uma parte menor da amostra, de 61 participantes. Após seis meses de tratamento, as pessoas com “intestino faminto” perderam, em média, 21,5% do peso corporal, enquanto os outros dois grupos tiveram reduções de 12,1% e 10,8%. A diferença já começava a aparecer após três meses de uso do medicamento.

Segundo a endocrinologista Cynthia Valério, diretora da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), esse perfil pode responder melhor a medicamentos como o Mounjaro justamente porque eles ajudam a aumentar e prolongar a sensação de saciedade.

Vale ressaltar, porém, que a análise da resposta à tirzepatida teve limitações: dos 483 participantes, apenas 61 entraram nessa etapa, e os pesquisadores avaliaram pessoas que já haviam recebido o medicamento, sem distribuí-las aleatoriamente em grupos. Por isso, outros fatores podem ter influenciado a perda de peso, e os resultados ainda não permitem usar esse perfil isoladamente para prever quem responderá melhor ao tratamento.

O que é o “intestino faminto”

A obesidade pode apresentar diferentes fenótipos, ou seja, características relacionadas aos mecanismos que contribuem para o desenvolvimento e a manutenção da doença. Entre eles está o chamado “intestino faminto”. “É um paciente que tem mais dificuldade de atingir a saciedade e perceber, após a refeição, que é hora de parar de comer”, define Cynthia.

Além do “intestino faminto”, a especialista cita mais fenótipos. Um deles é o do comedor compulsivo, caracterizado pela pessoa com maior dificuldade de controlar o quanto come — esse perfil pode continuar se alimentando mesmo sem fome física. Outro é o perfil de menor gasto energético, quando o organismo queima menos calorias ao longo do dia, o que pode facilitar o ganho de peso e dificultar o emagrecimento.

Caminho para um tratamento mais personalizado

Entender os diferentes mecanismos envolvidos na obesidade pode ajudar a tornar o tratamento cada vez mais individualizado. Segundo Cynthia, perfis como o “intestino faminto” podem contribuir para a escolha da terapia, mas não devem ser analisados de forma isolada. “Essas subclassificações podem ajudar na definição do tratamento, mas não são determinantes. Existe uma zona cinzenta em que os fenótipos podem se misturar no mesmo paciente e até mudar ao longo da vida”, pondera.

A escolha do medicamento também leva em consideração outros aspectos, como presença de diabetes e outras doenças, complicações associadas, tratamentos já realizados, resposta anterior e possíveis efeitos colaterais.

“A medicina de precisão é muito mais do que olhar para genética ou alterações metabólicas. É um conjunto de informações e avaliações clínicas que vai determinar a individualização da medicação para cada paciente”, finaliza Cynthia./AE

(Foto: Reprodução)

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