É justamente essa lógica que o cientista social Luís Mauro Sá Martino discute em Ninguém é perfeito (BestSeller). Professor da Faculdade Cásper Líbero e doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP, ele parte de uma pergunta aparentemente simples: de onde vem nossa obsessão pela perfeição?
Martino conta que a obsessão contemporânea pela perfeição fincou suas raízes há cerca de 200 ou 300 anos. “A perfeição pertenceria ao reino da divindade. Com a modernidade, deslocamos isso para o humano, aí aparece a ideia do gênio artístico. Mais para frente, avançando um pouquinho a história, começamos a associar perfeição com sucesso”, resume.
Mas, em vez de oferecer mais uma receita para viver melhor, Martino convida o leitor a questionar a crença de que deveria viver uma vida perfeita, entregando um ensaio acessível sobre comportamento, consumo, redes sociais e saúde mental.
Ele apresenta uma ideia, antecipa as dúvidas e responde a elas com exemplos cotidianos. Assim, nos conduz a reflexões que evitamos confrontar. A estrutura torna acessíveis discussões apoiadas em filósofos e autores como Aristóteles, Espinosa, Michel Foucault, Jean-Paul Sartre, bell hooks, Annie Ernaux e Sigmund Freud, entre outros, mas sem transformar a leitura em uma sucessão de conceitos filosóficos.
Por que nunca nos sentimos suficientes?
“Esse ideal de perfeição chega através da mídia, das mídias sociais, das conversas cotidianas. Está sempre faltando alguma coisa. O sucesso está sempre ali na esquina, mas nunca onde eu estou”, reflete Martino.
No livro, o pesquisador observa que não há como equilibrar bem-estar e busca pela perfeição, “até porque essa equação não é feita para ser resolvida”.
Em vez de responsabilizar o indivíduo por não conseguir corresponder aos padrões, Martino mostra como a busca pela perfeição movimenta mercados, impulsiona o consumo e alimenta uma indústria baseada na baixa autoestima.
“Eu só consigo lhe vender algo perfeito se eu provar que você tem um problema: a família errada, o corpo errado, o cabelo errado, o modo de falar, o modo de ser, a perspectiva de carreira… e, a partir disso, mostrar qual é o caminho perfeito. Então, a ideia da perfeição acaba reforçando o seu erro”, explica. Contudo, quando finalmente conquistamos aquilo que parecia indispensável, logo surge um novo objetivo, uma nova comparação, uma nova sensação de inadequação.
Essa lógica, segundo o autor, cobra um preço alto. “A busca pela perfeição a qualquer custo cria uma equação entre ansiedade e culpa”, diz no livro. Na obra, ele ainda lembra que nossa sociedade “aprendeu a adiar indefinidamente o momento de ser feliz, esperando a vida entrar em um estado de perfeição”.
O cientista social não restringe essa discussão às redes sociais. Ele fala também sobre vergonha, excesso de trabalho, necessidade constante de aprovação, medo de errar e até sobre a dificuldade de tomar decisões.
Em comum, todos esses temas revelam como a busca pela vida perfeita acaba produzindo exatamente o contrário daquilo que promete: menos liberdade, mais culpa e uma permanente sensação de insuficiência.
“Como nem todo mundo vai atingir esse objetivo, o que fica disso não é motivação, é frustração. Então, o livro busca inverter essa ideia de que a busca pela perfeição nos motiva. Não, ela nos machuca, porque existem ideais que eu não vou conseguir atingir”, observa.
Imperfeição à mostra
Martino também passa por temas como o significado de “chegar lá”, a relação entre procrastinação e perfeccionismo, a cultura do “eu mereço”, a idealização do passado, a necessidade de validação e o conceito da “vida não vivida”.
O autor recupera ainda o kintsugi, técnica japonesa que restaura peças de cerâmica quebradas valorizando justamente as marcas das rachaduras. A imagem funciona como uma síntese do livro – e ilustra sua capa.

Em uma época que vende a ideia de que qualquer falha precisa ser corrigida ou escondida, Ninguém é perfeito lembra que viver implica errar, perder, mudar de ideia e recomeçar.
“Não é abandonar a busca pelo melhor, é abandonar a busca pelo perfeito“, pontua Martino. “Enquanto ficamos esperando a vida perfeita, não vivemos a vida real, com toda a maravilha das suas imperfeições.”
8 reflexões que ficam depois da última página
O mérito de Ninguém é perfeito talvez esteja em não oferecer respostas prontas, mas deixar perguntas ecoando depois da última página. Algumas delas aparecem em frases que resumem a proposta do livro e convidam o leitor a olhar para si mesmo com um pouco mais de gentileza, e um pouco menos de cobrança.
- “A busca pela perfeição a qualquer custo cria uma equação entre ansiedade e culpa.”
- “A autenticidade é uma mercadoria valiosa quando não se sabe onde termina a realidade e começa a representação.”
- “Nossa sociedade aprendeu a adiar indefinidamente o momento de ser feliz, esperando a vida entrar em um estado de perfeição.”
- “A culpa, ao que tudo indica, pode ser um amplo fator motivacional para a perfeição. O custo, no entanto, é alto — a ansiedade de uma permanente insatisfação com você mesmo, tornada o centro, começo e fim de todas as suas ações.”
- “No limite, às vezes parece que, quanto mais precisamos confiar em nós, mais outra parte nos derruba.”
- “A perfeição da vida não vivida se apresenta como um obstáculo formidável para nos atrapalhar a viver a vida que temos.”
- “A tirania da perfeição se manifesta com especial foco quando você toma uma decisão errada, sem sentido — e todos nós estamos sujeitos a isso.”
- “A ilusão da facilidade para conseguir o que se quer, sobretudo em termos materiais, cria as condições para o nascimento de uma cultura do excesso.”/AE
(Foto: Reprodução)






