Entre 12 patógenos avaliados, cinco (uma bactéria e quatro vírus) foram responsáveis por quase todos os casos de câncer associados a infecções:
- H.pylori
- HPV
- Hepatite B
- Hepatite C
- Epstein-barr
Para o resultado, os pesquisadores cruzaram o número estimado de novos casos de câncer naquele ano com estimativas da proporção de cada tipo de tumor atribuível a diferentes agentes infecciosos.
Apesar de representarem uma minoria do total de casos de câncer, os tumores com origem infecciosa ainda são prevalentes devido à falta de conhecimento das pessoas sobre essa possibilidade, avalia a oncologista Maria Del Pilar Estevez Diz, da Rede D’Or. “A desinformação reduz a adesão aos programas de prevenção e vacinação”, afirma a médica, também coordenadora do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp).
O oncologista Breno Jeha, da Oncoclínicas, ressalta que o câncer, mesmo quando causado por vírus e bactérias, não é contagioso. “O que pode ser transmitido são o vírus e a bactéria. E uma pequena parcela das pessoas que adquirem a infecção vai desenvolver câncer após muitos anos ou até décadas”, esclarece o médico.
Para ele, a mensagem mais importante do estudo é mostrar que uma parte desses tumores pode ser evitada pela vacinação contra esses agentes infecciosos ou pelo tratamento desses patógenos.
Dois mecanismos ajudam a explicar a relação desses micro-organismos com o câncer. Segundo Maria del Pilar, eles podem provocar um processo inflamatório crônico, capaz de favorecer mutações nas células.
No caso de alguns vírus que carregam seu material genético na forma de DNA, o DNA viral pode ser incorporado ao DNA da célula infectada, aumentando o risco de alterações que favorecem o desenvolvimento de tumores, processo que costuma levar anos, segundo a especialista.
Confira, abaixo, o que você precisa saber sobre os principais vírus e bactérias associados ao câncer.
H.pylori
A bactéria estomacal Helicobacter pylori (h.pylori) liderou o levantamento publicado no The Lancet, sendo associada a 760 mil casos de câncer em 2024 — 4% de todos os cânceres diagnosticados naquele ano (infecciosos ou não).
O câncer de estômago é o principal tipo ligado à infecção por H.pylori, mas a bactéria também pode desencadear um tipo menos frequente de tumor, chamado de Linfoma de Malt.
A transmissão da bactéria ocorre de pessoa para pessoa, por via oral ou até fecal oral, “então naturalmente está relacionada a condições de higiene, de saneamento”, explica Breno Jeha.
A infecção costuma acontecer com mais frequência ainda na infância ou adolescência, principalmente pela ingestão de água ou alimentos mal higienizados, contato direto com a saliva de uma pessoa infectada (como ao beijar ou compartilhar talheres, copos e escovas de dente) ou viver em locais sem saneamento básico ou água potável.
“Na maioria das pessoas ela nunca vai causar um câncer. No entanto, quando permanece no estômago por vários anos, levando a uma inflamação crônica da mucosa, uma parcela dos indivíduos pode progredir para um câncer”, pontua o oncologista. “Você tem uma gastrite crônica, depois uma gastrite atrófica, na sequência uma metaplasia e, após, displasia. Aí acaba tendo o câncer”, descreve Maria del Pilar.
Entre os principais sintomas estão dificuldade de deglutição, perda de peso, vômitos, má digestão, dor de estômago e náuseas. Antibióticos e bloqueadores de ácido ajudam a eliminar a bactéria, reduzindo o risco futuro de câncer gástrico. “Temos a oportunidade de tratar uma infecção como uma estratégia de prevenir o câncer”, destaca Jeha.
HPV
Uma das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) mais comuns no Brasil, o papilomavírus humano (HPV) foi ligado a 750 mil casos de câncer diagnosticados no mundo em 2024, também cerca de 4% do total, de acordo com o estudo.
O vírus é responsável por quase a totalidade dos casos (99%) de câncer de colo de útero, o tipo de tumor que mais mata mulheres jovens (até 35 anos) no País. Menos frequentemente, pode levar também ao câncer de vulva ou de vagina.
Homens podem desenvolver o câncer de pênis. Além disso, câncer anal e de orofaringe podem surgir em homens e mulheres como consequência da infecção.
Muitas pessoas são portadoras do vírus do HPV e não sabem, já que não possuem sintomas. “A maioria das pessoas sexualmente ativas vai ter contato com ele em algum momento da vida, mas não significa que desenvolverá o câncer”, pontua Jeha.
O que contribui para o câncer é a infecção persistente pelo HPV, que permite que fragmentos do DNA do vírus se incorporem ao genoma das células infectadas, gerando uma série de alterações no material genético, explica Maria del Pilar. O mecanismo se repete em diferentes tecidos: no colo do útero, na vulva, na vagina, no pênis, no canal anal e na orofaringe.
Na maioria das vezes, o HPV é transmitido por meio de relações sexuais e contato físico, seja vaginal, anal ou oral. Também é possível se infectar pelo contato com objetos, sexuais ou não, que estejam contaminados.
A principal forma de prevenção é a vacinação contra o HPV associada ao uso de preservativo nas relações sexuais. Enquanto a camisinha protege a região coberta, a vacina blinda contra os tipos de HPV mais associados ao câncer (existem mais de 200 tipos de HPV).
Quem já foi exposto ao vírus também pode se beneficiar da vacina, já que ela é capaz de proteger contra os subtipos com os quais o indivíduo ainda não teve contato.
Apesar de verrugas (na região genital, na boca ou na garganta) serem um sinal de alerta para o HPV, muitos casos são assintomáticos — apenas 20% deles causam lesões visíveis. Por isso, os exames de rastreamento do vírus e de lesões pré-cancerígenas é tão importante.
Nas mulheres, o rastreio é feito geralmente por meio do papanicolau ou pelo teste de genotipagem molecular. Já nos homens, a investigação ocorre quando há suspeita (por lesão ou por um parceiro ou parceira contaminado) por meio do exame clínico realizado pelo urologista.
Não existe um tratamento específico capaz de eliminar o vírus HPV diretamente: o foco é combater as manifestações clínicas, como verrugas e lesões pré-malignas.
Hepatites B e C
As hepatites B e C podem causar uma infecção crônica no fígado e, ao longo de décadas, levar a uma inflamação, à fibrose, à cirrose, e, em última instância, aumentar o risco do câncer no fígado.
Há dois mecanismos principais por trás da relação desses vírus com o câncer. A hepatite B, um vírus de DNA, se integra ao genoma do hospedeiro, de forma parecida com o que acontece com o HPV.
Já a hepatite C induz uma lesão tecidual crônica que favorece a produção de proteínas associadas ao tumor. Em ambos os casos, há ainda uma segunda via: a cirrose provocada pela infecção crônica.
“O que é comum para os dois vírus é o fato de ter esse processo inflamatório tão grave que leva à cirrose. E isso traz os elementos necessários para o desenvolvimento do câncer”, explica Maria del Pilar.
Os vírus são transmitidos principalmente por contato com sangue contaminado. Isso pode acontecer, por exemplo, na manicure, ao fazer tatuagem ou piercing, ao compartilhar seringas para o uso de drogas e até mesmo na acupuntura. A hepatite B também pode ser transmitida sexualmente ou da mãe para o bebê no parto normal.
Para ambos os vírus, as medidas de segurança mais importantes são manter relações sexuais protegidas e não compartilhar objetos que possam carregar sangue contaminado.
Mas existe uma diferença crucial entre as duas infecções: para a hepatite B, existe vacina e ela está disponível no SUS. Isso é importante, já que não existe cura para a doença. O tratamento foca em controlar a infecção, proteger o fígado e evitar complicações graves.
Já para a hepatite C, não existe um imunizante. Porém, na maioria dos casos, trata-se de uma doença curável com o apoio de medicamentos antivirais.
Muitas vezes, os sinais da contaminação pelas hepatites B ou C só começam a se manifestar quando o quadro está avançado. Os principais indícios são cansaço, tontura, enjoo e vômito, febre, além de pele e olhos amarelados.
“As duas infecções podem ficar ‘silenciosas’ durante muitos anos. Então, fazer a prevenção com a vacina de hepatite B, realizar exames de sangue (para testagem), e diagnosticar e tratar antes que o indivíduo desenvolva fibrose, cirrose ou até mesmo o câncer no fígado são grandes oportunidades de prevenção”, ressalta Jeha.
Epstein-Barr (EBV)
Assim como o HPV, o vírus do Epstein-Barr (EBV) é muito comum, e mais de 90% da população mundial vai entrar em contato com ele em algum momento da vida. Da família do vírus da herpes, o EBV pode ser transmitido pela saliva, por transfusões de sangue e por meio do contato com objetos contaminados.
Em uma parcela das pessoas, o vírus fica latente no organismo e contribui para o desenvolvimento de tumores, em especial o linfoma de Hodgkin, linfoma de Burkitt e o carcinoma da nasofaringe.
O EBV provoca uma infecção crônica nos linfócitos, levando a uma proliferação descontrolada dessas células, o que pode desencadear o câncer, explica Maria del Pilar.
Além disso, a infecção pelo EBV pode causar a mononucleose infecciosa, popularmente conhecida como “doença do beijo”, o que altera a resposta autoimune da pessoa infectada. Tal processo pode aumentar o risco de esclerose múltipla.
Não existe vacina contra o EBV. Os sintomas mais comuns são febre alta, dor de garganta intensa e inchaço dos gânglios linfáticos (ínguas) no pescoço. Também não há um tratamento específico para o EBV. O foco do tratamento é o alívio dos sintomas e o suporte ao sistema imunológico./AE
(Foto: Reprodução)






