O que leva pais a expor os filhos em programas como MasterChef Jr? Por Marcos Sacramento

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O programa MasterChef Júnior tem sido um dos assuntos mais comentados na internet nos últimos dias, mas o barulho não foi por causa das peripécias culinárias das crianças e sim pelo assédio a umas das participantes.

A história bizarra de marmanjos tecendo comentários libidinosos a respeito da Valentina, de 12 anos, deixa no ar a dúvida se realmente vale a pena expor crianças em programas de televisão voltados para adultos. Sim, o público alvo do reality show gastronômico não tem nada de júnior, pois o programa começa às 22h30.

Pelo menos nesse reality, o prêmio final não deve ser o maior atrativo. O vencedor ganha uma viagem para Disney com cinco acompanhantes, um curso de culinária, um vale compras no Carrefour de R$ 1 mil por mês durante um ano e um kit de eletrodomésticos. Para o segundo colocado, o prêmio é o vale compras no Carrefour, no mesmo valor e período.

Então novamente surge a pergunta. Por que expor a garotada em uma disputa televisionada para o país inteiro? Seria a fama? Ou a vaidade de ver o filho esbanjando seus talentos para quem quiser ver?

Em uma época que pais exageram na exposição dos filhos nas redes sociais, postando situações do dia a dia como se fossem fatos extraordinários, ver um filho preparando quitutes na televisão dá uma mexida no ego.

Se uma simples curtida no Facebook libera dopamina, neurotransmissor responsável pela sensação de prazer no organismo, ter um filho no MasterChef Júnior deve funcionar como uma fábrica da substância.

A questão é avaliar se vale a pena deixar o filho ou a filha a mercê dos psicóticos que destilam ódio e perversões nas redes sociais. O pai da Valentina, Alexandre Shulz, disse ao site Pure People que está blindando a filha dos comentários pedófilos. Segundo ele, a menina não tem acesso às mensagens criminosas.

Sabe-se lá até quando ela ficará imune e se Valentina será a única participante do programa a ser importunada. Há uma menina negra na disputa e não vai demorar para um canalha qualquer postar comentários racistas sobre ela.

Em um dos seus textos, o psicanalista Contardo Calligaris fala das “vidas não vividas”. Em síntese, o artigo trata daquilo que não fizemos por conta das escolhas, do acaso ou da falta de coragem e do risco dos sentimentos de frustração dos pais afetarem os filhos.

“Agora, as vidas não vividas podem sobretudo nos empobrecer, levando-nos a viver num eterno lamento por algo que não nos foi dado, que perdemos ou do qual desistimos. Esse, aliás, é o futuro que estamos preparando para nossas crianças. (…) Os pais querem que as crianças sejam tudo o que eles não conseguiram ser na vida. Pior, eles querem que as crianças cumpram essa missão sem esforços, por milagre (o milagre do “potencial”).

Os professores acham no potencial uma maneira maravilhosa de assinalar que fulano é medíocre sem atrapalhar o sonho dos pais da criança, os quais podem seguir pensando que seu filho leva notas infernais, mas vale a pena insistir (e pagar a escola mais cara) porque ele tem um potencial extraordinário”, escreveu Calligaris.

Talvez isso explique, ao menos em parte, o encanto de pais pelo MasterChef Júnior e por degenerescências como os concursos de Mini Miss ou o Grupo Mulekada, um simulacro do “É O Tchan” composto por crianças de 9 anos, inventado por Raul Gil no final dos anos 90.

Se naquela época essa projeção já não era boa para as crianças, hoje, com a internet e o fluxo de ofensas que ela permite, tem efeitos ainda mais amedrontadores. Mas tem pai e mãe que parecem não se importar com isso.

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