/Nilmar fala sobre luta contra a depressão: “Eu só chorava. Por que comigo?”

Nilmar fala sobre luta contra a depressão: “Eu só chorava. Por que comigo?”

Nilmar tinha uma carreira de sucesso quando chegou ao Santos em 2017. O atacante, então com 33 anos, carregava no currículo títulos importantes por Corinthians e Internacional, passagem bem-sucedida pela Europa e futebol árabe, participação na Copa do Mundo de 2010. Era dono de uma carreira consistente e também já estava realizado financeiramente. Porém, nada disso impediu que sua vida mudasse rapidamente.

Sem forças para treinar e sem vontade de jogar, Nilmar deixou o Santos após três meses, tendo atuado em dois jogos e por apenas 39 minutos. O atacante, que enfrentou grandes defensores e superou cirurgias complicadas durante sua trajetória, tinha pela frente o adversário mais difícil de sua vida: a depressão.

Em entrevista a Roger Flores, amigo e ex-companheiro de Corinthians, Nilmar falou pela primeira vez sobre a doença. Há um ano e sete meses sem jogar, ele explicou que dificilmente voltará aos gramados. Mas diz estar curado (e atento) e agradece ao apoio da família. Principalmente Laura, a esposa que está ao seu lado há 15 anos, e que também participou da conversa com o Esporte Espetacular.

Qual foi o primeiro momento em que você percebeu que poderia estar com depressão?

– Eu relutei um pouco para falar sobre isso porque até pouco tempo atrás eu não me sentia confortável. Eu tive o apoio da minha família mas onde eu diagnostiquei mesmo foi quando eu cheguei ao Santos. Antes mesmo do jogo com o Cruzeiro, na verdade, duas semanas antes, eu vinha me sentindo diferente, até mesmo nos treinamentos, naquele momento da ansiedade de voltar a jogar. Eu vinha de um ano muito conturbado nos Emirados e acredito que isso possa ter sido um dos gatilhos. Mas esse dia específico foi o dia em que acabou desligando a chavinha, como eu costumo dizer. Eu desconectei totalmente e entrei naquele mar que é tipo uma bolha. Quem viveu isso sabe o que eu estou contando. Eu só chorava. Todos os sintomas que vocês puderem pesquisar, eu vivi; insônia, eu não conseguia dormir, mas isso já depois desse caso da concentração.

 Depois da concentração passei, dois dias no hospital, não diagnosticaram nada e entendi que eu precisava procurar os profissionais. O pessoal do Santos me auxiliou, colocou psicólogo, psiquiatra, comecei a fazer tratamento com medicação. Então aquilo para mim foi um choque muito grande. Eu sou um cara tranquilo e eu me cobrava muito em não querer estar naquela situação, foram três meses ali num processo muito difícil, só quem passa sabe a dor que é.

”Você não consegue sair, por mais que você lute, mais triste você fica, mais angústia… Só quem enfrentou, quem viveu próximo a isso, e o atleta profissional tem essa imagem de ser um super-herói”.

Você estava voltando para encerrar a tua carreira, para estar perto dos teus familiares, amigos e os filhos?

– Esse era um dos motivos que me fortaleciam. Por que isso comigo? Talvez por ter vindo também do interior, ter saído do nada, eu me cobrava muito. Eu não tinha nada, conquistei tudo que eu conquistei na minha carreira e estou passando por isso. Por que eu? E a vergonha de expor, de falar até mesmo para minha esposa. Você pode perguntar se eu pensei em suicídio, não, não é esse nível de depressão, porque isso aí é um nível muito alto e quem faz terapia sabe. Mas é uma infelicidade que você não tinha prazer em nada, nada te motivava, me dava prazer. Meus filhos chegavam da escola e eu não tinha forças para brincar com eles… (começa a chorar) Um dos motivos que me fizeram voltar era os meus filhos estarem maiores e poderem ver o pai jogar. Não ter forças para brincar quando eles chegavam em casa, brincar, dar um carinho, um abraço, eu não tinha forças, era muito difícil.

 Hoje eu consigo ver que a gente passa uma imagem de super-herói paras pessoas e por trás de tudo, um atleta profissional é muito exigido, é muito cobrado, então sem dúvida nenhuma prejudica até certo ponto. Tudo aquilo que eu vivi foi para fortalecer mais ainda. Hoje estou dando valor às pequenas coisas, que às vezes a gente está num mundo de muito glamour e a gente acaba esquecendo as pequenas coisas da vida. Estou tomando esse tempo agora, melhorei, me reergui, estou mais presente com eles, meus filhos, me dá uma alegria que é estar mais presente. No futebol a gente não está junto por conta das viagens. Todo pai sonha em levar o filho para escolinha de futebol, levar pro colégio e ter finais de semana com eles, isso aí sem dúvida nenhuma me ajudou bastante. A minha esposa foi muito importante nesse momento.

Laura, você hoje tendo mais clareza sobre essa doença, pois vocês estudaram juntos, você consegue perceber alguma diferença do Nilmar?

– Quando voltamos ao Brasil ele estava com uma carga superforte de treinos. Dava para perceber que ele estava bem cansado, com a rotina de treinos que ele praticamente só tinha folga domingo à tarde durante 40 dias. Ele reclamava, dizendo que estava cansado por conta dos muitos treinos, dormia cedo, estava bem diferente, mas eu achava que era só cansaço. O estalo mesmo foi depois do jogo lá em Minas,em que ele me ligou e aí ficamos até às 4 da manhã, ele chorando no telefone, uma crise e eu não sabia o que estava acontecendo. Ele só chorava, fui pegar ele no aeroporto e dali partimos direto para o hospital porque ele reclamava que estava com o lado direito todo paralisado. Aí foi diagnosticado que não tinha nada e ele falava que a cabeça dele não estava boa, na verdade ele estava com receio de me contar que ele não sabia se queria jogar bola. Em duas semanas ele já estava com a ajuda do Santos, a psicóloga ia lá em casa, a gente teve bastante ajuda também por fora, médica e de alguns amigos, mas eu acho que o mais importante foi a gente ter diagnosticado muito rápido que era depressão. Depois dessa crise de choro, acho que em dez dias a gente já estava indo num psiquiatra

Nilmar, ao longo de sua carreira, você consegue lembrar de alguns fatos que possam ter contribuído para você ter depressão?

– Eu tenho quatro cirurgias no joelho, duas muito sérias que foram na época do Corinthians (em 2006 e 2007). E eu tinha 21 anos, então praticamente a minha carreira toda eu convivi com isso. Joguei em nove clubes. Para eu passar em qualquer exame médico, eram dois a três dias de exame porque tinha essa desconfiança. Entendo que a imprensa tem que informar, mas por eu ser atacante, o meu biótipo, fui tachado de frágil. Estigmatizado não sei, mas eu convivi com isso a minha carreira toda. Mas consegui ir a uma Copa do Mundo, jogar na Europa, realizar os sonhos que eu tinha de criança… de poder jogar na seleção brasileira, conquistar títulos. Foi uma carreira de altíssimo nível e eu sou feliz, o futebol me deu tudo na vida. Saí do interior e vim para cá para Porto Alegre há 20 anos.

Quem foram os pilares dessa sua recuperação?

– Foi ela, a minha esposa Laura que é a mais próxima, a gente tem uma vida juntos, são 15 anos. E eu sai de casa entre os 13 para 14 anos, eu morei mais com ela do que morei com a minha mãe. Foi ela que abraçou a causa, pois quem viveu isso sabe realmente o que é a depressão. Não adianta brigar, é o tempo que vai te dizer, que vai te dar a resposta. Claro que com medicamento, fazendo tudo certinho, hoje tem muitos estudos… No sexto mês eu comecei a melhorar, mas depois de um ano foi quando eu me assentei. Consigo enxergar, agora eu consigo ver o momento, pois tem dias que até hoje eu acordo meio assim e tem muitas pessoas que podem voltar a ter. Não é uma coisa que eu curei, mas estou curado. Hoje eu fico mais atento para não ter as recaídas e agora esse ano tem sido sensacional, realizações com a minha família. Hoje eu pego meus filhos, vou no Beira-Rio torcer, os primeiros dias deu um “tumultinho”, mas agora já estão acostumados comigo ali.

Muitas pessoas te cobram na rua para você voltar a jogar? Qual é a sua decisão?

– Olha, depois que eu saí do Santos, eu sou consciente que está ficando mais distante ainda a volta pro futebol.

Você acha que está mais perto de anunciar a aposentadoria do que receber uma proposta que te faça mudar de ideia?

– Sem dúvida nenhuma. As pessoas me ligam para consultar e ninguém conseguiu ainda me passar algo que eu falasse que vale a pena, um lugar bacana, eu vou tentar.

Qual o recado que você deixa sobre essa questão da depressão, pois você deve ajudar muita gente falando abertamente sobre isso?

– Eu gostaria que o pessoal que está em casa e tem algum familiar passando por esse problema, com os mesmos sintomas que eu tive, se abra e possa procurar um profissional. Existe cura e a prova disso é que hoje eu estou aqui, eu consegui superar e estou superando. Cada dia é uma luta, com essas pessoas maravilhosas aqui do meu lado./ge

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