A pesquisa foi feita a partir da análise de informações da Secretaria Municipal de Saúde de Curitiba. Foram estudados dados de quase 5 mil pessoas internadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) na cidade entre 2008 e 2015.
As informações de internação foram cruzadas com registros de mortalidade para acompanhar o desfecho desses pacientes ao longo do tempo. A análise separou os dados por faixa etária, o que permitiu identificar um risco maior de morte entre mulheres de 45 a 55 anos.
Menopausa e sintomas ignorados
De acordo com o cardiologista José Rocha Faria Neto, coordenador do programa de pós-graduação em Ciências da Saúde da PUC-PR e um dos autores do estudo, embora a relação entre idade avançada e maior mortalidade seja um consenso médico, ainda existe uma lacuna de dados sobre o papel do sexo na morte pós-infarto.
Segundo Neto, a maior vulnerabilidade pode estar ligada a características hormonais do sexo feminino, já que o período coincide com a perimenopausa, fase de transição natural que antecede a menopausa, e a menopausa em si.
“Nesse período, você tem o declínio na produção de estrogênio, um hormônio que protege a mulher durante a vida. O declínio pode causar uma alteração nas artérias que talvez tenha papel na pior evolução das mulheres”, sugere o professor.
A situação também pode ter relação com fatores vasculares e psicossociais. Mas, para além disso, Gláucia Maria Moraes de Oliveira, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e editora-chefe do periódico Arquivos Brasileiros de Cardiologia, destaca que o atendimento às mulheres ainda é falho nos casos de infarto.
“Todas as vezes que recebemos um paciente na unidade de emergência e ele tem dor precordial típica, aquela dor no peito com irradiação para o braço esquerdo, pensamos em doenças agudas do coração, como o infarto”, contextualiza.
Esse sintoma, no entanto, é mais comum em homens. No caso das mulheres, podem existir dores em outras regiões, como as costas, além de sensação de cansaço e falta de ar. “Os médicos, em geral, não estão habituados a pensar que essa mulher pode ter uma doença coronariana e não a submetem ao protocolo habitual”, pontua Gláucia, que não participou do estudo.
A situação atrasa o início do atendimento e, consequentemente, aumenta a chance de mortalidade.
Protocolo de atendimento
O indicado é que, ao chegar à emergência, o paciente passe por uma avaliação do histórico de saúde e dos fatores de risco, como hipertensão, diabetes, obesidade, tabagismo e casos na família.
Também devem ser feitos exames como eletrocardiograma e análise de troponina, uma enzima que indica lesão no coração. Quando o exame aponta um tipo mais grave de infarto, com obstrução total da artéria, o tratamento precisa ser imediato, com uso de medicamentos ou procedimentos para desobstrução.
Em casos menos graves, o acompanhamento é feito com novos exames e medicações.
Gláucia reforça a importância das equipes de saúde conhecerem e não ignorarem os sintomas menos comuns, principalmente em mulheres. Quando o atendimento segue o protocolo correto e ocorre no tempo adequado, as chances de recuperação são semelhantes às dos homens.
“A principal mensagem do artigo é que as mulheres nessa faixa etária também precisam ficar atentas aos sintomas. Caso elas tenham qualquer fator de risco, precisam procurar uma unidade de emergência o mais rápido possível para descartar ou colaborar no diagnóstico de infarto”, alerta a professora./AE
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