Conversei com o médico Daniel Buttros, mastologista e professor do Programa de Pós-Graduação em Tocoginecologia da Faculdade de Medicina de Botucatu (Unesp). Ele explica que a resposta exige mais do que um simples sim ou não. Durante décadas, a terapia hormonal foi associada ao câncer de mama de maneira tão generalizada que muitas mulheres passaram a acreditar que utilizar hormônios na menopausa significa colocar a própria saúde em risco.
Segundo o especialista, o que a ciência mostra hoje é mais complexo. Determinados tratamentos hormonais estão associados a um aumento do risco de câncer de mama, mas ele é muito pequeno em termos absolutos. E nem todas as formulações apresentam o mesmo perfil de risco. “De maneira sintética, a terapia hormonal quando bem indicada, com doses e hormônios bem escolhidos, quase não se correlaciona com câncer de mama”, diz Buttros.
Ao mesmo tempo, fatores como consumo de álcool, excesso de peso depois da menopausa e sedentarismo, cuja associação com a doença está bem estabelecida, nem sempre recebem a mesma atenção.
Por que a reposição hormonal passou a ser associada ao câncer de mama?
Boa parte do medo começou em 2002, quando foram divulgados os resultados do Women’s Health Initiative (WHI), um grande estudo realizado nos Estados Unidos para investigar os benefícios e riscos da terapia hormonal após a menopausa.
Uma das etapas foi interrompida antecipadamente depois que os pesquisadores identificaram aumento de alguns riscos à saúde, incluindo câncer de mama. A repercussão foi mundial. Milhões de mulheres deixaram de utilizar hormônios, e a reposição hormonal passou a ser vista como um tratamento perigoso.
O que nem sempre se explica é que o WHI passou a ser alvo de críticas importantes, sobretudo pela maneira como seus resultados foram interpretados e divulgados. A idade média das participantes era de 63 anos, e cerca de dois terços tinham 60 anos ou mais. Muitas estavam há mais de uma década na pós-menopausa, uma situação diferente daquela de mulheres que iniciam a terapia hormonal durante a transição menopausal ou logo após a última menstruação.
Além disso, o estudo utilizou estrogênios extraídos da urina de éguas prenhas associados a um progestagênio sintético. Essa combinação é diferente das formulações frequentemente utilizadas hoje, que incluem os chamados hormônios bioidênticos, como o estradiol e a progesterona micronizada, cuja estrutura molecular é idêntica à dos hormônios produzidos naturalmente pelo organismo feminino.
Hoje, sociedades médicas internacionais, como a The Menopause Society, são claras em suas recomendações: para mulheres com menos de 60 anos ou que estão há menos de dez anos na menopausa, sem contraindicações, os benefícios da terapia hormonal geralmente superam os riscos. Um movimento importante nessa direção ocorreu em novembro de 2025, quando a FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, anunciou a retirada das advertências mais severas sobre câncer de mama, doenças cardiovasculares e demência das bulas de medicamentos hormonais para a menopausa.
Afinal, qual é o tamanho do risco de câncer de mama com a terapia de reposição hormonal?
Os números do estudo WHI ajudam a dimensionar esse risco. Entre as mulheres que utilizaram uma combinação específica de estrogênio e progestagênio, foram registrados 38 casos de câncer de mama por ano a cada 10 mil participantes, contra 30 casos entre aquelas que receberam placebo.
Isso representa apenas oito casos adicionais por ano a cada 10 mil mulheres, um aumento absoluto de 0,08 ponto percentual. É um aumento muito pequeno em termos absolutos, embora não seja inexistente. E deve ser considerado levando em conta a duração do tratamento e as características individuais de cada mulher.
Também é importante lembrar que esses resultados se referem aos hormônios utilizados naquele estudo, não a todas as formulações disponíveis atualmente.
Mas o próprio WHI trouxe outro resultado importante. Entre as mulheres que haviam retirado o útero e, por isso, utilizaram apenas estrogênio, sem progesterona, não houve aumento do risco de câncer de mama. Pelo contrário: o acompanhamento de longo prazo mostrou uma redução da incidência da doença e da mortalidade por câncer de mama nesse grupo.
Quais outros fatores aumentam o risco de câncer de mama?
Embora o grande temor de muitas mulheres seja a reposição hormonal, outros fatores associados ao câncer de mama merecem atenção:
- Consumo de álcool: uma dose de bebida alcoólica por dia está associada a um aumento de 7% a 10% no risco de câncer de mama. Com duas ou três doses diárias, esse aumento chega a aproximadamente 20%, segundo a American Cancer Society.
- Obesidade: uma análise do Women’s Health Initiative, publicada no JAMA Oncology, encontrou um risco de câncer de mama 58% maior entre mulheres na pós-menopausa com IMC igual ou superior a 35, em comparação com aquelas de peso normal. O excesso de gordura corporal favorece alterações hormonais e metabólicas associadas à doença.
- Sedentarismo: a falta de atividade física está associada a um aumento de aproximadamente 20% a 25% no risco de câncer de mama, segundo a entidade Breast Cancer Research Foundation. A prática regular de atividade física é um dos fatores de proteção, e a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é realizar pelo menos 150 minutos semanais de exercícios de intensidade moderada
Esses dados não significam que hábitos saudáveis eliminem o risco de câncer de mama, nem que mulheres que desenvolvem a doença sejam responsáveis por isso. Mas mostram que a prevenção envolve muito mais do que a discussão sobre hormônios.
Quem já teve câncer de mama pode fazer reposição hormonal?
Uma coisa é avaliar o risco de uma mulher sem histórico da doença que deseja utilizar terapia hormonal para tratar os sintomas da menopausa. Outra é considerar esse tratamento em uma mulher que já teve câncer de mama.
“Atualmente, a gente evita o termo ‘contraindicação’ para mulheres que passaram pelo câncer de mama e optamos por ‘não recomendação’”, diz Buttros. “É um termo mais apropriado porque o câncer de mama é uma doença muito heterogênea e, dependendo do tipo de câncer de mama, do seu estágio, da idade da mulher e dos sintomas que ela tem, a terapia hormonal pode ser discutida. Mas vale lembrar que essa seria a terapia hormonal sistêmica. A terapia hormonal via vaginal é segura para muitos tipos de casos de câncer de mama. Esse é um tratamento para atrofia e secura vaginal, que é muito importante para a qualidade de vida das mulheres”, afirma o especialista.
Para mulheres com histórico pessoal da doença, a terapia hormonal sistêmica continua sendo, em geral, não indicada, especialmente quando o tumor apresenta receptores hormonais positivos. Isso porque a exposição a hormônios sistêmicos pode aumentar o risco de recorrência.
Também é importante diferenciar histórico pessoal de histórico familiar. Ter uma mãe ou irmã que teve câncer de mama não representa, por si só, uma contraindicação absoluta à terapia hormonal, mas exige avaliação cuidadosa do risco individual.
Como tratar os sintomas da menopausa depois do câncer de mama?
Mulheres que passaram por um câncer de mama podem enfrentar sintomas intensos da menopausa, muitas vezes agravados pelos próprios tratamentos oncológicos.
A boa notícia é que existem alternativas não hormonais. “Para as ondas de calor, já temos uma medicação aprovada no Brasil chamada fezolinetanto. Em breve uma nova droga também chegará ao Brasil, chamada elinzanetant, que aguarda aprovação.”
Já para o ressecamento vaginal e a dor durante o sexo, hidratantes vaginais e lubrificantes costumam ser opções. Quando essas medidas não são suficientes, o uso de estrogênio vaginal em baixas doses pode ser considerado em determinadas situações
O médico também chama atenção para o estilo de vida. “Atividade física regular, dieta adequada, controle de estresse, saúde do sono, diminuição do consumo de álcool e tabaco, e os relacionamentos saudáveis e conexões, que são os pilares da medicina do estilo de vida, têm impacto direto na qualidade de vida.”
O que o Outubro Rosa também deveria ensinar sobre a menopausa
A relação entre terapia hormonal e câncer de mama é mais complexa do que se costuma divulgar. Os riscos variam conforme o tratamento e o histórico de saúde de cada mulher e precisam ser avaliados sem alarmismo, mas também sem minimização.
O Outubro Rosa deveria servir também para ampliar essa conversa e combater a desinformação sobre a saúde das mulheres na menopausa. Afinal, tomar boas decisões depende de conhecer os riscos reais, saber o que podemos fazer para reduzi-los e ter acesso a informações confiáveis./AE






