Mal silencioso: gordura no fígado tende a ser descoberta em fase avançada; veja riscos e tratamentos

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Nem todo mundo sabe, mas o fígado é um órgão que desempenha diversas funções essenciais para o organismo, que incluem desde a filtragem do sangue, a produção de bile (que auxilia no processo digestivo), a metabolização de medicamentos, a eliminação de toxinas, entre outras. Um dos problemas que mais tem preocupado especialistas é o aumento de casos de excesso de gordura no órgão, também chamado de esteatose hepática metabólica (antigamente conhecida por esteatose hepática não alcoólica), uma doença silenciosa, que pode causar uma inflamação crônica e evoluir para cirrose, caso não seja diagnosticada e tratada adequadamente.

Estima-se que cerca de 25% a 30% da população mundial tenha algum grau de gordura no fígado – a esteatose hepática é diagnosticada quando esse acúmulo ultrapassa 5%. Além disso, aproximadamente metade dos portadores poderá evoluir para a forma mais grave a doença, se nada for feito. Trata-se de uma condição cada vez mais comum e que pode manifestar-se também na infância.

“A doença atinge pessoas de qualquer idade e cada vez mais vemos gordura em excesso no fígado de pacientes pediátricos, o que é um problema sério de saúde. Essa é uma população que vem ganhando peso ao longo dos anos, temos cada vez mais crianças com obesidade e diabetes, o que abre espaço para a doença hepática gordurosa. Em adultos, ela acomete mais homens do que mulheres, sendo que o número de mulheres depois da menopausa acaba se igualando ao de homens”, afirma a hepatologista Bianca Della Guardia, do Grupo Médico Assistencial de Doenças Hepáticas do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

O que causa a gordura no fígado

A esteatose hepática metabólica tem esse nome justamente porque é um problema totalmente relacionado à síndrome metabólica – sobrepeso, dislipidemias (colesterol e triglicérides altos) hipertensão arterial, diabetes do tipo 2, circunferência abdominal alta, intolerância à glicose, entre outras, mas ela não acontece somente em pessoas com sobrepeso e obesidade.

“O problema pode surgir em pacientes mais magros que possuem outros fatores de risco, como fatores genéticos, ou ainda quando o metabolismo da glicose e da insulina não estão adequados (pré-diabetes) ou em pessoas com história familiar de diabetes. Também há casos em que algumas medicações podem provocar esteatose, como uso de corticoides e tamoxifeno. Não podemos nos esquecer de que o uso do álcool também é uma das causas mais frequentes de esteatose hepática e pode piorar quando existe associação com os fatores metabólicos”, alerta a hepatologista Claudia Oliveira, professora associada do Departamento de Gastroenterologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

Como é feito o diagnóstico?

O fígado é um órgão que costuma ser silencioso – a pessoa pode passar anos sem sentir nenhum sintoma e, quando percebe, já está em uma fase mais avançada da doença, quando o problema se tornou crônico e o fígado começa a dar sinais de falência.

“É muito comum na doença hepática gordurosa o paciente ser assintomático, por isso ela vem sendo chamada de epidemia silenciosa. Em geral, a pessoa descobre o problema por acaso, durante exames de rotina, ou quando já está com a doença em uma fase mais avançada”, diz Bianca.

O ultrassom de abdômen total é o primeiro exame que vai apontar a presença da gordura no fígado e, na maioria das vezes, ele já identifica se o fígado tem uma quantidade pequena, moderada ou grande de gordura.

Em alguns casos, a doença também é identificada por meio da alteração das enzimas hepáticas no exame de sangue, como TGO (AST), TGP(ALT) e GGT.

Por isso, se o ultrassom identificar a presença de gordura no fígado e o paciente tiver outros fatores de risco, é preciso estratificar a doença e avaliar se existe ou não fibrose (a cicatrização do órgão). “Ter mais de 5% de gordura no fígado sinaliza que há algo errado no metabolismo daquele indivíduo e ele precisa ser avaliado por um especialista”, ressaltou Oliveira.

Os riscos da gordura no fígado

Segundo Bianca, o perigo é que essa gordura que fica acumulada no fígado vai agredindo progressivamente o órgão e, com o tempo, pode evoluir para uma hepatite.

“A gente pode ter hepatites por várias formas: pela ingestão excessiva de álcool, por causa vírus e também por causa do excesso de gordura. Essa gordura pode inflamar o fígado e levar ao processo de fibrose do fígado, cuja fase final é a cirrose. O fígado com doença hepática gordurosa também se torna mais vulnerável ao aparecimento de câncer e, além disso, como a doença tem uma estreita relação com a síndrome metabólica, pode levar a longo prazo a outras complicações, como doenças cardiovasculares, entre elas infarto e AVC”, frisou. Há estudos que demonstram, por exemplo, que pessoas com gordura no fígado têm risco aumentado para desenvolver diabetes tipo 2.

Como é o tratamento

O tratamento padrão ouro é alimentação equilibrada associada à prática de exercícios físicos regularmente – não existe uma medicação específica para eliminar a gordura do fígado e os medicamentos são usados para tratar as condições associadas: diabetes, sobrepeso, obesidade, dislipidemias e pressão alta.

Vários estudos têm demonstrado que a mudança no estilo de vida e a adequação a uma rotina de atividade física (feita regularmente, cinco vezes na semana), pode reduzir a quantidade de gordura no fígado, diminuir o quadro de inflamação e até reverter o quadro, principalmente quando o paciente consegue perder de 7% a 10% do peso corporal.

“Além da perda de peso e, se necessário, o uso de medicações, os indivíduos com gordura no fígado precisam aumentar massa magra (massa muscular) com exercícios resistidos de força e melhorar sua capacidade cardiorrespiratória com exercícios aeróbicos. Os dois tipos de exercícios trazem benefícios, desde que feitos com frequência”, completa Claudia./AE

(Foto reprodução)

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