Mais Médicos retorna no governo Lula com recorde de inscritos e mudança de perfil

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Médicos estrangeiros e brasileiros que se graduaram em outro país, fazem a segunda etapa da edição 2017 do Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos Expedidos por Instituições de Educação Superior Estrangeira (Revalida).

O perfil do Mais Médico mudou. No ano que completou dez anos, o programa federal retornou no governo Lula com recorde de inscritos, idade média mais elevada e o Paraguai na liderança do ranking de formação dos profissionais. Os brasileiros também passaram a ser os mais numerosos.

Para ingressar no programa, que atualmente conta com 18,5 mil médicos, os inscritos participam de imersão presencial e obrigatória, o MAAv (Módulo de Acolhimento e Avaliação de Médicos), e ao final de 30 dias estão sujeitos a prova para aprovação definitiva.

No edital mais recente, 3.436 médicos iniciaram o curso em 6 de novembro. Essa é a a maior turma já reunida pela iniciativa, segundo o Ministério da Saúde. Nesse período serão abordadas questões relacionadas à atenção primária, ética médica e doenças comuns, como diabetes, câncer, tuberculose, pré-natal, além do funcionamento do SUS (Sistema Único de Saúde).

O grupo é composto por médicos intercambistas, brasileiros ou estrangeiros formados no exterior. As aulas, com duração total de 160 horas, ocorrem simultaneamente em São Paulo (SP), Salvador (BA) e Belo Horizonte (MG), em uma parceria dos ministérios da Saúde e Educação com universidades.

“Um ponto importante é a diversificação do perfil dos médicos, incluindo muitos que já tinham experiência em outras áreas da saúde antes da medicina. A idade média [36 anos], é superior à média de formação médica no Brasil, e muitos são pessoas maduras, alguns até casados”, diz Nésio Fernandes, secretário da Atenção Primária à Saúde, pasta do ministério.

É o caso do médico generalista Ismael Marins, 36. Ele se graduou primeiro em enfermagem para depois, aos 29 anos, iniciar o curso de medicina. Casado, pai de uma menina de três anos, e natural de Ourinhos (SP), ele optou por estudar em Ciudad del Este, no Paraguai.

Para chegar até ali, conta que seus pais sempre o incentivaram a estudar. O pai era trabalhador rural e a mãe faxineira. Eles próprios conquistaram novas carreiras com os estudos, ele virou professor e ela técnica de enfermagem.

“Acabei fazendo enfermagem e depois eles me ajudaram a realizar o meu sonho [de ser médico]. Por isso estar no Mais Médicos fez renascer a esperança de conquistar uma nova carreira”, diz ele, que vai trabalhar em Canitar, no interior de São Paulo.

Para Marins, as aulas proporcionam as ferramentas necessárias para assumir o novo posto com mais segurança. “Mesmo sendo brasileiro, é essencial aprender sobre o SUS, já que meu treinamento no exterior não incluiu essa disciplina. Quero seguir atuando no Brasil, vou revalidar o diploma e seguir minha carreira com ética e dedicação.”

Os médicos brasileiros e estrangeiros formados no exterior poderão participar do programa por quatro anos sem precisar revalidar seus diplomas, desde que tenham registro para atuar no país de formação.

O Mais Médicos, de acordo com Fernandes, tem contribuído para a redução das mortalidades infantil e materna em várias regiões do Brasil, além de aumentar no país o número de consultas médicas em 36%.

Atualmente, o programa está em expansão, diz ele, com o objetivo de preencher 28 mil vagas até o mês que vem e totalizar 40 mil até o fim da gestão Lula, em 2026.

“O governo tem planos ambiciosos de abrir 20 mil novas equipes de saúde da família em quatro anos para garantir acesso aos cuidados primários. Ampliando esse número, melhora a proporção de equipe por habitante no Brasil.”

Inaugurado por Dilma Rousseff (PT) em 2013, o Mais Médicos passou por mudanças ao longo dos anos, especialmente durante os governos Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL). A saída dos médicos cubanos em 2018 trouxe desafios para manter o atendimento à população.

No ano seguinte, para substituir o programa petista, foi criado o Médicos pelo Brasil, que teve dificuldades em sua implementação e não conseguiu preencher todas as vagas remanescentes do Mais Médicos, segundo o secretário.

Atualmente, a iniciativa conta apenas com dois profissionais vindos de Cuba. Além desses estrangeiros, há três venezuelanos e um haitiano. Dentre os 3.430 brasileiros, parte deles é naturalizada.

Paraguai, Bolívia, Argentina, Venezuela e Rússia, nessa ordem, são os países com maior número de médicos formados que atuarão no Mais Médicos. Muitos desses países não possuem sistemas universais de saúde, como o Brasil.

O perfil dos médicos mudou, afirma Fernandes, após avaliação de que com o contingente de profissionais formados no Brasil, considerando a expansão dos cursos de medicina e o total de brasileiros com registro no exterior, haveria demanda suficiente de profissionais para ocupar as vagas do programa.

Nicaraguense com cidadania brasileira, o médico generalista Henry Antonio Gómez Rodríguez, 34, se formou em medicina na Escuela Latinoamericana de Medicina, em Havana, Cuba, em 2013. Ele se mudou para o Brasil em 2017, mas não conseguiu atuar como médico desde então.

“Trabalhei como educador físico e em empregos temporários para sobreviver. Cada tentativa de participar do Mais Médicos falhava devido à falta de documentos ou do tempo de permanência no país.”

Ele afirmou que finalmente obteve a chance neste ano. “É uma mudança de vida inacreditável. Minha esposa entrou no Mais Médicos antes de mim e agora trabalhamos juntos em Bagé, no Rio Grande do Sul.”

A médica generalista Domênica Resende, 43, escolheu estudar na Universidad Politecnica y Artística del Paraguay, no país vizinho, por questões financeiras.

“A possibilidade de uma formação mais acessível me levou a essa opção, pois os custos no Brasil são altos”, diz ela, alocada em União da Vitória (PR)./ Folha SP

(Foto reprodução)

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