O petista fez afagos ao chefe da Casa, amenizou atritos pelo lançamento de candidaturas presidenciais por partidos aliados e se emocionou ao intercalar seu discurso com músicas como “Disparada”, de Jair Rodrigues, e “Pra Dizer que Não Falei das Flores”, de Geraldo Vandré.
Lula agradeceu aos deputados pela aprovação de projetos importantes para o governo, como a reforma tributária e a isenção do Imposto de Renda, e não se alongou sobre propostas que ainda serão votadas, apenas citando o fim da escala 6×1 e a regulamentação do trabalho via aplicativo.
Nesse contexto, o presidente marcou para semana que vem uma reunião com Motta e os ministros Guilherme Boulos (Secretaria-Geral) e Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais) para debater o assunto. Disse que mesmo parlamentares que votaram contra pautas de interesse do Planalto podem ter colaborado dando quórum.
O presidente também elogiou Hugo Motta, de quem se reaproximou no fim do ano. O petista afirmou que o deputado enfrentou um “ano muito difícil”, com muitas pautas delicadas. Destacou que o presidente da Câmara é jovem e que, por vezes, indagava se o parlamentar estaria bem diante de um cenário hostil.
Por fim, Lula destacou a paciência do congressista e disse que Motta poderia contar com ele, pois “os amigos se mostram nas horas difíceis”. De acordo com um dos presentes, o chefe do Legislativo foi aplaudido quando falou do pacto contra o feminicídio, lançado nesta quarta pelos três Poderes, e também disse que há momentos de divergência e convergência com o governo.
Lula ainda abordou as eleições. Afirmou que estava animado para a disputa e que tem “certeza” de que chegará ao quarto mandato. O petista disse que “a eleição não está ganha”, mas vai trabalhar para isso. Para tal, disse querer contar com o apoio do máximo de partidos que tenham o mínimo de parâmetros democráticos, mas afirmou entender que campanhas eleitorais geram discordâncias.
O presidente também se dirigiu aos partidos do centrão e minimizou que siglas com ministérios lancem nomes próprios na corrida pelo Planalto. Lula disse que entende o fato de essas siglas articularem candidaturas, destacando que deseja manter uma boa relação com a base. Foi um recado indireto ao PSD, que tem três pré-candidatos à Presidência enquanto mantém três ministérios na Esplanada.
Lula busca alianças nos estados com políticos de partidos que, nacional e oficialmente, não deverão apoiá-lo –como União Brasil, PP, PSD e MDB. Deputados de regiões onde o presidente tem maior popularidade, como nos estados do Nordeste, têm interesse em associar seus grupos políticos aos dele.
O mandatário dividiu os quase 30 parlamentares e seis ministros convidados em mesas temáticas, com nomes de madeiras. O cardápio do jantar oferecido pelo presidente e pela primeira-dama, Janja, incluiu pirarucu preparado de várias formas, além de pirão e farofa, em um ambiente descontraído.
O chef escolhido para agradar o paladar dos deputados foi o paraense Saulo Jennings, o mesmo escolhido para a COP30, em Belém, no ano passado.
Lula também apresentou o samba-enredo feito sobre sua mãe, Dona Lindu. O presidente aproveitou para convidar os líderes a ir ao Rio de Janeiro, no Carnaval, onde o petista será homenageado pela Acadêmicos de Niterói.
Da equipe do governo, além de Gleisi e Boulos, estiveram presentes os ministros Sidônio Palmeira (Secom), Alexandre Silveira (Minas e Energia), Fernando Haddad (Fazenda) e Rui Costa (Casa Civil).
Gleisi discursou brevemente e afirmou que logo estará de volta à Câmara. A ministra já confirmou sua pré-candidatura ao Senado pelo Paraná, após um pedido direto de Lula.
Os convidados chegaram à Granja do Torto, residência de campo do presidente da República, entre 19h e 20h, e tiveram seus celulares recolhidos na entrada. O encontro durou cerca de três horas e teve tom descontraído.
Na residência, também estiveram o líder do governo na Câmara, deputado José Guimarães (PT-CE), e líder do PT, Pedro Uczai (PT-SC), assim como o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA). Outros parlamentares da base também compareceram, como Benedita da Silva (PT-RJ), Túlio Gadêlha (Rede-PE), Paulo Pimenta (PT-RS), Damião Feliciano (União-PB), Pedro Lucas (União-MA) e Isnaldo Bulhões (MDB-AL).
Os convites para o jantar foram feitos a partidos de esquerda e do centrão nos últimos dias. Integrantes da liderança do governo na Câmara e da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República contataram os congressistas.
Um jantar de mesmo molde, com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) e senadores, inicialmente previsto para ocorrer junto ao dos deputados, ficou marcado para após o Carnaval.
Motta, em uma demonstração de alinhamento com Lula, havia reforçado o convite com diversos deputados. Em uma ocasião, o presidente da Câmara disse a um grupo de líderes de bancada, em tom de brincadeira, que até representantes do oposicionista PL poderiam ir.
Com a exceção de PL e Novo, todos os partidos tiveram representantes nesta quarta.
Motta selou sua aproximação com Lula no fim do ano passado, quando o petista nomeou Gustavo Feliciano como ministro do Turismo. Ele foi indicado pelo presidente da Câmara, de quem é aliado na Paraíba. A relação repercutiu na definição dos projetos prioritários do início do ano legislativo na Câmara.
Além disso, Motta quer eleger seu pai, Nabor Wanderley (Republicanos), como senador na disputa deste ano e busca apoio de Lula para impulsionar a candidatura de Wanderley, hoje prefeito de Patos (PB).
O governo federal tem uma lista de projetos para aprovar no Legislativo antes das eleições de outubro, e que seriam importantes para a tentativa do presidente de conseguir mais um mandato no cargo.
São citados como exemplo a proposta Antifacção, que muda as regras do combate ao crime organizado, e a PEC (proposta de emenda à Constituição) que aumenta as atribuições da União na área da segurança pública. Também está na lista a regulamentação do trabalho por aplicativos, e ao menos o início da discussão da redução da jornada de trabalho, proposta conhecida como fim da escala 6 x 1.
O petista costumava ter contato direto com deputados, senadores e outros políticos com mais frequência em seus primeiros governos. No atual mandato, esses eventos são mais raros. Aliados do presidente avaliam que atritos entre o Executivo e o Legislativo poderiam ter sido minimizados se esse tipo de contato fosse frequente./Folha SP
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