Falta atenção às dificuldades emocionais dos atletas no Brasil

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Sem querer comparar, mas comparando, as qualidades individuais e coletivas do Flamengo com as do Manchester City, já que o time inglês é muito superior, o Flamengo quer assumir no Brasil e na América do Sul a liderança técnica que o City a cada dia mais tem na Inglaterra e na Europa. Para isso, o Flamengo não para de contratar jogadores famosos e caríssimos. Além disso, levou Tite, que, apesar de o Brasil não ter chegado às finais de duas Copas sob o seu comando, é tido como principal treinador brasileiro, o que é discutível.

Para um time sul-americano, é um luxo o Flamengo contar com três excelentes jogadores que têm características parecidas e atuam quase na mesma posição (Arrascaeta, Gerson e De La Cruz). Na seleção uruguaia, Arrascaeta é reserva de De La Cruz. Gerson e De La Cruz podem jogar em mais de uma posição. Provavelmente, um dos três ficará mais tempo na reserva.

Discordo da preferência de Tite por Everton Cebolinha. Ele é um bom ponta, hábil, rápido, que volta para marcar, como quer Tite, mas Bruno Henrique é muito mais decisivo, como demonstrou nos últimos anos. Os treinadores deveriam definir a maneira de jogar a partir do conteúdo, não da forma.

O Manchester City, como o Flamengo, utiliza várias opções de ataque de acordo com o momento. Se todos têm boas condições físicas, o centromédio (volante) Rodri, o meio-campista De Bruyne e o centroavante Haaland são titulares. Nas outras três posições do meio para a frente, Guardiola muda a cada jogo. Bernardo Silva e Foden atuam muito bem pelo centro e pela ponta direita. Álvarez é geralmente o primeiro reserva de De Bruyne e de Haaland. Tite poderá seguir o mesmo caminho, o de alternar os titulares de acordo com as circunstâncias.

O Palmeiras não tem um elenco tão farto quanto o do Flamengo, mas, quando os dois se enfrentam, não há favorito. As equipes que entram em campo possuem o mesmo nível individual. Talvez o Palmeiras leve até uma pequena vantagem por ter um sistema defensivo mais consistente e ser um time mais concentrado em campo. O Palmeiras possui uma diretoria mais realista, eficiente, que prioriza as categorias de base.

O Fluminense não tem um elenco tão forte quanto o do Flamengo, mas é o campeão da Libertadores. O jovem John Kennedy tem grande chance de se tornar um dos principais destaques do futebol brasileiro. O Atlético-MG deve se fortalecer com os cruzamentos fortes, de curva e precisos de Scarpa. Se melhorar a qualidade individual dos zagueiros, o Galo ficará mais forte.

Repito, o Brasil, apesar de formar um número enorme de bons e excelentes jogadores, espalhados pelo país e pelo mundo, carece, há tempos, de jogadores excepcionais nas laterais, no meio-campo e na posição de centroavante, em comparação com as melhores seleções do mundo. Essa é uma das razões de o Brasil não ter chegado à final das cinco últimas Copas do Mundo, de não ter há bastante tempo, desde Kaká, um jogador eleito como o melhor do mundo e de ter tido apenas um jogador, Vinicius Junior, na seleção mundial eleita pela Fifa do último ano.

Os grandes clubes brasileiros possuem ótimos profissionais, excelentes estruturas de treinamento para formar jogadores e para atender as necessidades dos atletas profissionais. Porém falta atenção às dificuldades emocionais dos atletas. Além disso, é necessário estimular os jogadores a ser mais críticos, mais conscientes de suas virtudes e deficiências e mais inventivos. Precisam também aprender a sonhar./Folha SP

(Foto reprodução)

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