Um exame de sangue que promete detectar de forma mais precoce cerca de 50 tipos de câncer passou a ser oferecido na rede privada do Brasil, por meio de uma parceria entre o Einstein Hospital Israelita, o Grupo Fleury e a biotech norte-americana Grail, que desenvolveu a tecnologia.
Trata-se de uma biópsia líquida, que busca fragmentos de DNA tumoral que possam estar em circulação na corrente sanguínea antes do aparecimento de qualquer sintoma. O exame analisa os chamados padrões de metilação, marcadores químicos naturais que não só ajudam a indicar a presença de células tumorais como sua provável origem.
Embora traga uma oportunidade inédita de detecção do câncer por um meio menos invasivo, o exame não substitui os exames de rastreamento de rotina e tem limitações no diagnóstico de tumores em seus estágios mais iniciais (leia mais abaixo).
É o primeiro teste comercial de detecção precoce multicâncer disponível no Brasil. Até então, biópsias líquidas só eram feitas em pacientes que já tinham diagnóstico de câncer para avaliar a resposta do tumor às terapias ou para definir os próximos passos do tratamento. E os exames do tipo até então disponíveis eram focados na busca do material genético de um único tipo de tumor.
O novo teste, chamado Galleri, foi desenvolvido pela Grail e está sendo disponibilizado no Brasil pela Gênesis Genomics, joint venture do Einstein com o Grupo Fleury, mediante prescrição médica e por R$ 6.990 – ele não é coberto pelos planos de saúde. O sangue é coletado no Brasil, mas a amostra é enviada aos Estados Unidos, onde é processada pela Grail. Ele está disponível desde setembro no Einstein e em todos os laboratórios das marcas do Grupo Fleury.
A principal promessa do exame é detectar de forma mais precoce tumores para os quais não há estratégias de rastreamento e que costumam ser diagnosticados em estágios mais avançados, como os de pâncreas, fígado e ovário.
“O intuito é ampliar o rastreamento, especialmente nas pessoas com um risco maior de câncer e para os cânceres que não têm exames de rastreio como os que existem para os tumores de mama, intestino, próstata, colo de útero e pulmão”, diz Sidney Klajner, presidente do Einstein.
Para as doenças mencionadas, há protocolos de rastreamento que recomendam a realização periódica de exames na população assintomática na tentativa de detectar a patologia mais cedo, quando ela tem maiores chances de cura. É o caso da mamografia para o câncer de mama, colonoscopia para o intestino, PSA e toque retal para a próstata, papanicolau para o colo de útero e tomografia de tórax de baixa para o pulmão no caso de fumantes e ex-fumantes.
“O novo exame tem a capacidade de detectar as células em um nível menor do que o necessário para a detecção por exames radiológicos e pelo exame físico. Isso naturalmente gera uma oportunidade de detectar precocemente tumores silenciosos”, diz Fernando Moura, oncologista e gerente médico do Centro de Multiômica do Einstein.
O que os estudos mostram sobre a sensibilidade do exame Galleri
Os dois maiores estudos clínicos feitos para testar o Galleri mostraram que, embora ele consiga detectar alguns tumores em pessoas sem sintomas e antes das fases mais avançadas, sua sensibilidade é limitada, principalmente nos estágios muito iniciais do câncer.
No estudo Pathfinder 2, que acompanhou cerca de 35 mil pessoas de 50 anos ou mais por 12 meses, a sensibilidade para os mais de 50 tipos de câncer analisados foi de 39,3%, ou seja, somente 4 em cada 10 tumores descobertos pelos participantes no período de um ano de seguimento havia sido detectado inicialmente pelo Galleri.
Os pesquisadores ressaltaram, porém, que a sensibilidade do teste foi de 69,8% para um grupo de 12 cânceres responsáveis por dois terços das mortes por tumores nos Estados Unidos e de 66,2% para seis tipos de câncer agressivos com uma baixa sobrevida.
O maior estudo, o NHS-Galleri, acompanhou 142 mil pacientes na Inglaterra, mas não conseguiu atingir seu objetivo principal, que era reduzir a incidência de tumores nos estágios 3 e 4 por meio de uma detecção mais precoce. Por outro lado, houve uma redução de 14% nos tumores em estágio 4, além de mais casos identificados nos estágios 1 e 2 e menos diagnósticos após atendimentos de emergência.
“É uma tecnologia promissora, que pode ser usada como uma ferramenta a mais, mas ele parece ser menos eficaz nos estágios iniciais e ainda precisa ser aprimorada”, afirma Fábio Franke, presidente eleito da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) e líder nacional de pesquisa clínica da Oncoclínicas.
Nos dados apresentados pela Grail ao FDA (agência regulatória americana), a sensibilidade do teste no Pathfinder 2 variou de 21,4% para os tumores em estágio 1 a 63,2% no estágio 4.
Uma das hipóteses para essa diferença, diz Franke, é que tumores maiores costumam liberar mais DNA na corrente sanguínea, facilitando assim a detecção pelo Galleri.
O Galleri ainda está sendo testado quanto à sua capacidade de, ao detectar alguns tumores mais cedo, reduzir a mortalidade em nível populacional, o que justificaria, por exemplo, o financiamento do exame por planos de saúde e sistemas públicos.
“Para uma avaliação desse tipo, são necessários sete, oito anos de acompanhamento. Ainda não houve tempo suficiente para isso”, explica Edgar Gil Rizzatti, presidente de Unidades de Negócios Médicos, Técnico, Inovação e Novos Elos do Grupo Fleury.
Para quem o exame Galleri é indicado
De acordo com Paulo Campregher, CEO da Gênesis, o exame é indicado para pessoas com risco aumentado de câncer, seja por histórico familiar, predisposição genética ou pela idade. A indicação principal é para pessoas sem sintomas a partir dos 50 anos. “É a faixa etária onde a incidência de câncer começa a subir de forma substancial”, explica.
Pessoas mais jovens podem ser avaliadas individualmente pelo médico quando houver risco elevado, mas a população alvo dos estudos foi a da faixa etária a partir dos 50. O teste não deve ser feito por pacientes que já estão em tratamento oncológico, gestantes e menores de 22 anos – este último grupo pelo fato de não ter sido incluído nos testes clínicos.
O Einstein elaborou um protocolo para acompanhamento dos pacientes após a realização do teste, já que um eventual resultado positivo requer uma investigação diagnóstica para confirmar a doença. “Não é um exame que encerra o assunto, mas uma ferramenta a mais tanto na prevenção de um câncer mais avançado quanto no rastreamento de populações com risco aumentado”, diz Klajner.
Moura explica que um resultado positivo do Galleri costuma ser seguido de exames de imagem para confirmar ou descartar o diagnóstico e, quando necessário, de biópsia da lesão suspeita, se identificada.
Da mesma forma, um resultado negativo não significa que os exames de rotina e cuidados com a saúde possam ser abandonados. O teste deve ser repetido anualmente e os demais exames de rastreio seguem sendo necessários.
Teste não substitui exames de rastreamento de rotina
Como já mencionado, o teste não substitui exames de rastreamento como mamografia e colonoscopia. A primeira razão é justamente a baixa sensibilidade para tumores em estágio mais inicial, para os quais alguns exames de rastreio são bastante efetivos.
Um exemplo é o câncer de mama. Em seu estágio mais inicial (carcinoma ductal in situ), o tumor costuma estar contido dentro dos ductos mamários, o que torna mais difícil a liberação de DNA tumoral na circulação e, portanto, detecção num exame de biópsia líquida. A mamografia, no entanto, é capaz de identificar microcalcificações na mama que podem indicar um carcinoma in situ e levar a um tratamento da doença precocemente, quando as chances de cura são superiores aos 90%.
Além disso, alguns exames de rastreio não têm a função somente de detectar o câncer, mas de impedir que uma lesão pré-cancerígena evolua para um tumor, como é o caso da colonoscopia na identificação de pólipos intestinais, que podem ser retirados antes da evolução para um câncer colorretal.
Da mesma forma, exames como o papanicolau podem identificar lesões precursoras do câncer de colo de útero, que podem ser tratadas antes de progredir para uma neoplasia maligna./AE
(Foto: Reprodução)






