Não é impressão. A transição menopausal está associada a uma maior ocorrência de doença do olho seco, e as alterações hormonais parecem participar desse processo.
Mas o que a menopausa tem a ver com a lágrima?
Para entender essa relação, é preciso focar na superfície ocular. A lágrima não é apenas água. Ela forma um filme delicado que recobre a córnea, lubrifica, protege o epitélio e contribui para a qualidade da visão.
Entre seus componentes, existe uma camada lipídica produzida pelas glândulas de Meibomius, localizadas nas pálpebras. Essa camada ajuda a reduzir a evaporação da lágrima e a manter o filme lacrimal estável. Quando a produção ou a liberação desse lipídio se altera, a lágrima evapora mais rapidamente e os sintomas podem aparecer.
É nesse ponto que a menopausa pode entrar em cena.
Embora os mecanismos ainda não estejam totalmente esclarecidos, as mudanças nos hormônios sexuais, especialmente estrogênio e androgênios, podem interferir na superfície ocular, nas glândulas lacrimais e nas glândulas de Meibomius. As glândulas lacrimais são responsáveis pela produção da parte aquosa da lágrima, enquanto as glândulas de Meibomius produzem o componente lipídico que reduz sua evaporação. Essas alterações são capazes de afetar a estabilidade do filme lacrimal e a regulação da inflamação da superfície ocular.
A disfunção das glândulas de Meibomius é, inclusive, uma das principais causas do olho seco evaporativo. Esse conjunto de alterações pode provocar ardência, ressecamento, sensação de corpo estranho, coceira, vermelhidão e uma sensação bastante curiosa: a visão parece variar, com momentos de melhora e piora da nitidez.
E aí vale a pergunta: se a menopausa pode favorecer o olho seco, será que a reposição hormonal melhora esses sintomas? Hoje, a resposta não é simplesmente “sim” ou “não”.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 reuniu nove estudos, com 594 mulheres, e não encontrou melhora significativa dos sintomas de olho seco, do tempo de ruptura do filme lacrimal ou do teste de Schirmer, que avalia a produção aquosa da lágrima, com a reposição hormonal.
Estudos anteriores chegaram a resultados diferentes. Uma revisão de 2018 encontrou melhora na produção lacrimal medida pelo teste de Schirmer, mas não no tempo de ruptura do filme lacrimal nem nos índices de conforto ocular. Já uma revisão de 2020 observou melhora de alguns sintomas, como ressecamento, sensação de corpo estranho, fadiga ocular e ardência, além de benefícios em determinados parâmetros da superfície ocular em alguns grupos de mulheres.
Ou seja, há estudos que sugerem benefício, mas os resultados ainda não permitem recomendar a terapia hormonal como tratamento do olho seco.
Isso não significa que a reposição hormonal não possa ser indicada para uma mulher com sintomas da menopausa. Significa apenas que sua indicação deve ser feita por razões clínicas próprias da transição menopausal, considerando individualmente seus benefícios e riscos. O tratamento ocular precisa ser pensado separadamente, de acordo com o que está acontecendo na superfície dos olhos.
O que fazer
A recomendação é uma avaliação oftalmológica para investigar melhor o quadro. No exame, podemos avaliar a estabilidade do filme lacrimal, a função das glândulas de Meibomius, a integridade da córnea e a presença de sinais de inflamação. A partir dessa avaliação, é possível entender se a paciente apresenta predominantemente um olho seco evaporativo, relacionado a alterações nas glândulas de Meibomius, uma deficiência na produção aquosa ou uma combinação dos dois.
De acordo com o exame, o tratamento será recomendado. Ele pode envolver lágrimas artificiais, cuidados com as pálpebras, medidas para melhorar a função das glândulas de Meibomius e tratamentos direcionados à inflamação, conforme a causa e a intensidade do quadro. Não existe uma única receita para todas as mulheres.
A menopausa não precisa ser vivida como uma sucessão de desconfortos inevitáveis. É uma fase de transformação que merece cuidado integral, inclusive com a saúde ocular.
Se os olhos estão ardendo, lacrimejando, vermelhos ou com a visão oscilando, não atribua tudo ao cansaço ou à idade. O sintoma pode ter relação com a transição hormonal, mas também pode revelar uma doença da superfície ocular que precisa ser investigada. Cuidar dos olhos é cuidar da autonomia, do conforto e da qualidade de vida./AE
(Foto: Reprodução)






