A estreia na Copa do Mundo, contra Marrocos, só surpreendeu quem andava distraído. O Brasil foi terrivelmente coerente em campo: exibiu, em especial nos primeiros 30 minutos, as falhas mais características deste ciclo – em especial a fragilidade no meio-campo e o esforço para construir jogadas ofensivas.
A culpa por esses problemas extrapola a figura de Ancelotti, é anterior a ele, mas não o exclui. A maior dificuldade da Seleção hoje está na indefinição sobre a arquitetura de meio-campo. O italiano investiu muito tempo na insistência em uma formação de quatro atacantes, projetando uma fantasia em que dois deles seriam capazes de se metamorfosear em meias e fortalecer o setor nas fases defensivas.
Isso não funcionou antes, com Dorival (aquele 4 a 1 para a Argentina que o diga), e teve resultados modestos com Ancelotti. Não por acaso, o técnico decidiu mudar justamente para a estreia, colocando Lucas Paquetá como titular. Ao fazer isso, apostou em um sistema pouco utilizado desde sua chegada.
A Seleção ainda busca seu rumo, ainda tateia na escuridão, e aí eu retorno ao pensamento original: nada impede Carlo Ancelotti de arriscar. O jogo contra Marrocos mostrou: aquilo de que o Brasil menos precisa no momento é manutenção, repetição. O campo pede tentativas, mesmo que elas, paciência, não funcionem.
Eu gostaria de ver Danilo Santos entre os titulares para fortalecer o meio. E gostaria de ver sobretudo Endrick. Para uma equipe com problemas de construção, com pouca coordenação ofensiva, não vejo muito sentido no uso de Igor Thiago desde o começo.
Endrick poderia melhorar a composição do setor, poderia ser mais ativo nas tramas com os demais atacantes, poderia oferecer aquele clique, aquele estalo, que a equipe tanto busca para se encaixar. E é um jogador de evidente talento, em grande fase, voando fisicamente. Foi uma pena não ter entrado contra Marrocos.
A partida da próxima sexta-feira, diante do Haiti, um adversário frágil, bastante inferior ao da estreia, pode servir para dar à Seleção um rumo como time. Mudanças decisivas durante uma Copa do Mundo não seriam novidade para a Seleção – Mazinho no lugar de Raí em 1994, por exemplo.
Ancelotti tem como característica ser um treinador flexível, que não se prende a dogmas irreversíveis. Ele ficou insatisfeito na estreia e, presumo, fará mudanças na equipe. Que faça: é a hora delas, é a hora de Endrick./ge
(Foto: Reprodução)





