“Uma dor que fixa num ponto, que está piorando, em vez de melhorar, que está durando horas, precisa de avaliação”, afirma Áureo Augusto Delgado, gastroenterologista e membro titular da Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG).
A intensidade, sozinha, não permite avaliar a gravidade. A apendicite, por exemplo, pode começar com um incômodo vago ao redor do umbigo ou na parte alta do abdômen, acompanhado de enjoo e falta de apetite. Por isso, pode ser confundida com gases ou indigestão.
Com o passar das horas, porém, a dor não melhora e pode se deslocar para a parte inferior direita da barriga. Mesmo que seja tolerável, esse padrão merece uma visita ao médico. “Não precisa esperar ela ficar insuportável”, reforça Artur Seabra, chefe do Serviço de Cirurgia Geral do Hospital Moinhos de Vento.
Quando a dor pode ser passageira?
Segundo Delgado, desconfortos passageiros costumam ser mais espalhados pelo abdômen, sem se concentrar em um ponto específico. Eles podem ter relação com uma refeição mais pesada ou diferente da habitual.
“É uma dor que pode ir e voltar e melhora geralmente quando a pessoa elimina gases ou quando ela evacua”, explica.
Já uma dor que se concentra em uma região, persiste ou piora merece atenção, sobretudo se vier acompanhada de febre ou vômitos.
A dor de apendicite é sempre igual?
A apendicite é a inflamação do apêndice, uma pequena estrutura ligada ao início do intestino grosso. Geralmente, ela provoca dor na parte inferior direita do abdômen, mas nem sempre começa nesse local.
No início, pode haver apenas um incômodo vago ao redor do umbigo ou na boca do estômago. Conforme o quadro evolui, a dor pode se deslocar para baixo e para a direita, tornar-se contínua e piorar ao andar, tossir ou passar por uma lombada dentro do carro, por exemplo.
“A dor de gases pode até mudar de lugar, mas ela alivia”, diz Delgado. Na apendicite, a mudança de localização pode ser acompanhada de persistência e piora.
A posição do apêndice também pode alterar a apresentação. Seabra explica que, quando a estrutura fica mais baixa, podem aparecer sintomas urinários, como desconforto ou sensação de peso na bexiga.
Mesmo uma dor tolerável merece avaliação quando apresenta características suspeitas. “É muito melhor isso do que deixar passar um diagnóstico mais importante sem fazer a avaliação necessária”, afirma Seabra.
Idosos, gestantes e crianças pequenas exigem atenção especial, acrescenta Delgado, porque podem apresentar sintomas menos típicos. Por isso, a ausência daquele padrão conhecido de dor forte no lado direito não basta para afastar uma situação que precisa de atendimento.
Como é a dor de pedra na vesícula?
A vesícula armazena a bile, substância produzida pelo fígado que participa da digestão das gorduras. Depois de uma refeição, ela se contrai para liberar esse conteúdo. Quando há cálculos, essa movimentação pode desencadear dor.
O desconforto costuma aparecer na parte alta da barriga, na boca do estômago ou do lado direito, abaixo das costelas. Também pode se espalhar para as costas ou para o ombro e, apesar de ser popularmente chamado de cólica, pode permanecer em um mesmo patamar de intensidade, em vez de ir e vir em ondas.
A intensidade da dor é, inclusive, algo que chama muita atenção nesse quadro. “Geralmente, a pessoa tem que parar o que está fazendo”, diz Delgado.
A relação com refeições mais fartas e gordurosas é outro aspecto que levanta suspeitas, mas não confirma o diagnóstico e não vale para todos — há pessoas que têm pedras na vesícula e nunca apresentam sintomas.
Quando a dor se prolonga e vem acompanhada de febre ou de pele e olhos amarelados, pode haver complicações. “Esses cálculos migrando podem ocasionar quadros clínicos diferentes, como obstrução biliar e pancreatite”, diz Seabra.
A inflamação da vesícula pode evoluir com formação de abscesso, ruptura e peritonite, uma inflamação da membrana que reveste a cavidade abdominal. Segundo Seabra, essas são complicações que podem exigir cirurgia de urgência.
Quais sinais exigem pronto-socorro?
Além da dor muito intensa, de início súbito ou que persiste e piora, Delgado aponta os seguintes sinais de alerta:
- febre e vômitos persistentes;
- barriga muito inchada, rígida e dolorida ao toque;
- pele ou olhos amarelados;
- sangue no vômito ou nas fezes;
- tontura, sensação de desmaio ou suor frio;
- distensão abdominal acompanhada de interrupção da eliminação de gases e fezes.
Não é preciso que todos esses sintomas estejam presentes para buscar ajuda. A evolução da dor e as condições de cada paciente também entram na avaliação.
Por que não adiar o atendimento?
Sem tratamento, a apendicite pode evoluir para perfuração do apêndice. Além disso, pode provocar a formação de abscesso e peritonite, assim como as pedras na vesícula.
A orientação dos médicos é não insistir em tomar repetidas doses de analgésicos em casa na tentativa de suportar uma dor persistente. Delgado também recomenda evitar laxantes, lavagens intestinais e antibióticos por conta própria.
Na consulta, contar quando a dor começou, onde apareceu e como mudou ajuda na investigação. Conforme a avaliação, exames como ultrassonografia e tomografia podem contribuir para confirmar a causa e definir o tratamento, que pode envolver cirurgia.
“Quanto mais cedo o paciente chega ao hospital, mais simples tende a ser o tratamento”, afirma Delgado./AE
(Foto: Reprodução)






