Um dos estudos mais relevantes nesse contexto, o PROTECT Trial, comparou três estratégias em pacientes com câncer de próstata localizado: monitoramento ativo, cirurgia e radioterapia. O acompanhamento desses pacientes ao longo de 15 anos mostrou que não houve diferença na sobrevida câncer-específica entre os grupos, ou seja, a chance de não morrer pela doença foi semelhante independentemente da estratégia inicial adotada.
No entanto, o estudo também mostrou um dado importante: cerca de metade dos pacientes inicialmente submetidos ao monitoramento ativo acabaram necessitando de tratamento radical ao longo do seguimento.
Esse resultado levanta uma discussão central no tratamento do câncer de próstata localizado: até que ponto a cirurgia ou a radioterapia realmente aumentam a sobrevida? E qual é o impacto desses tratamentos na qualidade de vida dos pacientes?
Isso porque os tratamentos radicais, embora altamente eficazes e com taxas de cura superiores a 90% em tumores localizados, podem estar associados a efeitos adversos relevantes, como incontinência urinária e disfunção erétil, que impactam diretamente a vida do paciente.
Diante desse cenário, o tratamento do câncer de próstata passou a ser guiado por três grandes objetivos: garantir a cura, preservar a qualidade de vida e evitar complicações. Ou seja, não se trata apenas de eliminar o tumor, mas também de manter funções urinárias e sexuais o mais preservadas possível.
É nesse contexto que surge a terapia focal, uma abordagem que busca tratar apenas a área da próstata acometida pelo tumor, preservando o restante do órgão. O objetivo é controlar a doença, adiar ou até evitar tratamentos radicais e reduzir os efeitos colaterais associados.
Entre as principais tecnologias utilizadas estão o HIFU, que utiliza ultrassom de alta intensidade para destruir seletivamente as células tumorais, e a crioterapia, que promove o congelamento da área afetada. Ambas são técnicas de preservação de órgão, já amplamente utilizadas em outros tumores, como rim, fígado e pulmão, mas que, na próstata, ganharam espaço mais recentemente com o avanço dos métodos diagnósticos.
Com a evolução da ressonância magnética, do PET e de métodos mais precisos de biópsia, tornou-se possível identificar melhor a área exata do tumor dentro da próstata, permitindo tratamentos mais direcionados e seguros.
Essas tecnologias já são utilizadas há anos nos Estados Unidos e em diversos países da Europa, com aprovação regulatória e incorporação em sistemas de saúde. No Brasil, o HIFU e a crioterapia passaram por um período de restrição regulatória, mas recentemente foram novamente autorizados pelo Conselho Federal de Medicina, permitindo sua utilização clínica em casos selecionados.
Na prática, esses tratamentos são indicados para tumores iniciais, de baixo risco ou risco intermediário, geralmente localizados em uma única região da próstata. Eles não substituem a cirurgia robótica em casos mais agressivos, mas representam uma alternativa menos invasiva para pacientes bem selecionados.
Além disso, essas técnicas também podem ser utilizadas em situações de recorrência após radioterapia, quando o tumor retorna à próstata. Nesse cenário, elas oferecem uma alternativa com menor risco de complicações em comparação com a cirurgia de resgate, que tradicionalmente está associada a maior morbidade.
Trata-se de uma mudança importante na forma de pensar o tratamento do câncer de próstata, com foco crescente em personalização, preservação de função e qualidade de vida, sem abrir mão do controle oncológico./AE
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