Ninguém precisa beber leite de vaca, defende Christopher Gardner, cientista da nutrição e professor de medicina na Universidade de Stanford. Garantir a ingestão adequada de cálcio continua importante, especialmente para alguns grupos de alto risco, mas pode haver fontes melhores.
O que o leite faz com os ossos?
O cálcio é um nutriente essencial, fundamental para o funcionamento dos nervos, músculos e coração, além de ser vital para a saúde dos ossos e dentes. No entanto, como ocorre com a maioria dos nutrientes, o corpo precisa apenas de uma certa quantidade. As diretrizes alimentares dos EUA recomendam que adultos consumam de 1.000 a 1.200 miligramas de cálcio por dia (mesmo valor indicado no Brasil), mas esse limite é debatido entre especialistas — e outros países, como o Reino Unido, recomendam apenas 700 miligramas.
Ensaios clínicos anteriores mostraram que, quando crianças e adultos que não ingeriam cálcio suficiente aumentavam seu consumo — seja por meio de alimentos lácteos ou suplementos —, sua densidade óssea crescia em até 3%. Mas esses ganhos eram pequenos demais para reduzir de forma significativa o risco de fraturas, esclarece Willett. Outros estudos também mostraram que é preciso consumir cálcio extra diariamente para manter esses ganhos — algo que talvez não valha o esforço, ele acrescenta.
“A ideia de que precisamos de muito cálcio baseia-se principalmente em estudos de curtíssimo prazo, avaliando o balanço de cálcio ao longo de poucas semanas”, comenta Willett. E uma análise de 79 artigos sobre leite publicados entre 1999 e 2003 constatou que mais de um terço deles recebia financiamento da indústria de laticínios.
Há até evidências de que é possível ter ossos fortes sem beber leite. Segundo uma revisão publicada em 2020, países com menores índices de fratura de quadril também tendem a consumir menos leite. E análises de múltiplos estudos mostraram que beber mais leite não estava associado a menor risco de fratura.
Claro, estudos como esses não podem provar uma relação direta entre consumo de leite e saúde óssea, lembra René Rizzoli, ex-chefe do departamento de doenças ósseas dos Hospitais Universitários de Genebra. Para demonstrar que o consumo de leite previne fraturas, por exemplo, seriam necessários ensaios clínicos específicos sobre o tema — e eles não foram realizados.
No fim das contas, seu nível de atividade física e sua dieta como um todo podem ter mais influência sobre a saúde óssea. Portanto, não conte apenas com o leite para eliminar seu risco de fraturas, recomenda Rizzoli.
Algumas pessoas precisam mais de leite do que outras?
Especialistas afirmam que crianças de 9 a 18 anos precisam de mais cálcio do que qualquer outro grupo etário para sustentar seu crescimento; o mesmo vale para adultos mais velhos, já que a densidade óssea tende a diminuir após os 50 anos.
Quando o nível de cálcio de uma pessoa está baixo, o corpo pode se adaptar absorvendo mais cálcio dos alimentos e eliminando menos como resíduo, ensina Gardner. Mas esses mecanismos pioram com a idade e, quando o corpo não recebe o suficiente, passa a retirar mais cálcio dos ossos, enfraquecendo-os, ele acrescentou.
Em um ensaio clínico de 2021, pesquisadores designaram mais de 7 mil idosos residentes em instituições de longa permanência na Austrália para manterem seu consumo habitual de duas porções de laticínios por dia ou aumentá-lo para 3,5 porções diárias. Ao longo de dois anos, o grupo que consumiu mais laticínios apresentou uma redução de 11% no risco de quedas e de 33% no risco de fraturas. Os pesquisadores também observaram que eles mantiveram mais peso, massa muscular e densidade óssea do que o grupo que consumiu menos, embora não tenham conseguido determinar se a menor taxa de quedas e fraturas se devia a ossos mais fortes ou a outros fatores, diz Sandra Iuliano, nutricionista da Universidade de Melbourne.
De todo modo, o leite pode ser uma das fontes mais práticas de cálcio, além de fornecer outros nutrientes como proteína, potássio e fósforo, observa Jeri Nieves, epidemiologista nutricional do Hospital for Special Surgery, em Nova York. Outros alimentos — como tofu, peixes com espinha, vegetais folhosos e suco de laranja ou leites vegetais fortificados — também são boas fontes, afirma Jeri, mesmo que contenham menos cálcio por porção.
A melhor opção para obter cálcio, no entanto, pode ser o consumo de laticínios fermentados, como iogurte e queijo. Eles beneficiam o microbioma intestinal, tendem a ser mais bem tolerados por pessoas sensíveis à lactose e têm relação mais forte com menor risco de fraturas do que o leite, afirma Rizzoli. Também são ricos em cálcio — uma porção de 42 gramas de queijo cheddar, por exemplo, contém a mesma quantidade que uma xícara de leite integral./AE
“Se você gosta de leite, beba. Se não gosta ou não tolera, use outra fonte”, resume Jeri.
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