A cena costuma ser tratada com humor, mas também expõe uma percepção que ainda acompanha a modalidade: a de que o pilates seria uma atividade leve, voltada principalmente a mulheres e ao público da terceira idade.
O advogado Leonardo Lins Camelo da Silva, de 40 anos, admite que pensava de maneira parecida. Praticante de musculação, ele começou a fazer pilates por influência da esposa, que já frequentava as aulas havia mais de um ano.
Desde 2010, convivia com hérnia de disco na região lombar, mas a condição estava controlada depois de tratamentos como fisioterapia e RPG. Quando aceitou fazer uma aula experimental, imaginava encontrar pouco mais do que exercícios de alongamento. “Achei que ia ser leve mesmo no começo, que seriam aulas tranquilas, essas ‘aulinhas’ aí”, conta.
A aula experimental colocou Leonardo diante de um tipo de esforço diferente daquele ao qual estava habituado. Na musculação, ele já conhecia os exercícios e sabia como o corpo responderia às cargas. No pilates, precisou aprender outra lógica de execução e se adaptar à modalidade. “Achei o pilates mais difícil do que a musculação em certos aspectos, porque você tem que ter toda essa postura, concentração, respiração. Enfim, é um conjunto.”
Parte dessa diferença está nas capacidades exigidas por cada prática. A professora de educação física e fisiologista do exercício Patrícia Bueno de Godoy explica que o pilates trabalha força, mobilidade e flexibilidade, mas também envolve o que define como uma reeducação postural dinâmica. “Ao longo dos exercícios, o alinhamento corporal é observado e trabalhado dos pés à cabeça”, explica.
Silva permaneceu nas aulas. Hoje, conta que às vezes vai ao pilates mesmo quando a esposa não consegue comparecer. Além disso, desfez a ideia de que aquela seria uma atividade destinada a determinado gênero ou faixa etária. “Achava que era algo muito mais para idoso, mulher. Sempre existe aquele preconceito e, não vou mentir, também achava que era algo muito mais assim”, afirma.
Por que quem faz musculação pode “sofrer” no pilates?
Aos 55 anos, o gerente de Tecnologia de Redes e Infraestrutura Alexandre Cheruti chegou ao pilates por outro caminho. Desde 2010, convivia com uma hérnia de disco na região lombar que, com o tempo, passou a irradiar para a perna e limitar seus movimentos. Fisioterapia e anti-inflamatórios traziam alívio temporário e, em determinado momento, chegou a receber recomendação cirúrgica. Foi então que decidiu incluir natação e pilates na rotina, três vezes por semana.
Cheruti já havia praticado musculação esporadicamente e esperava encontrar uma atividade leve. A percepção mudou nas primeiras aulas. “Fiquei impressionado com a quantidade de trabalho, desde flexibilidade, equilíbrio, alongamento e força”, conta. A surpresa também veio ao observar colegas mais velhos. “Você participa com grupos de diferentes faixas etárias e se surpreende com alunos de 60, 70 anos executando posturas com mais facilidade.”
A situação ajuda a explicar por que a força adquirida na musculação não significa necessariamente facilidade em outra modalidade.

Segundo Carlos Eduardo Viterbo, médico ortopedista e divulgador científico, as adaptações provocadas pelo exercício são específicas ao tipo de treinamento realizado. “Uma pessoa pode ter força e massa muscular desenvolvidas e, ainda assim, encontrar dificuldade quando passa a ser exigida em capacidades às quais teve pouca exposição”, diz o especialista, que recentemente testou o pilates e mostrou a experiência nas redes sociais (veja abaixo).
Na musculação, muitos exercícios são realizados em posições estáveis, inclusive sentado ou deitado, explica o médico. No pilates, há movimentos que exigem sustentar o próprio corpo enquanto se trabalha equilíbrio, mobilidade e estabilização do tronco.
A fisioterapeuta Beatriz Serachiani Cabral aponta uma diferença semelhante. Segundo ela, não basta considerar quanto peso uma pessoa consegue levantar, mas como ela organiza e controla o movimento. “Por isso, alguém acostumado a trabalhar com cargas pode precisar desenvolver outras habilidades ao começar a modalidade”, afirma.
Isso também ajuda a entender as cenas em que uma pessoa mais velha parece ter menos dificuldade do que um jovem musculoso. Nesse caso, a diferença está menos na idade ou na aparência física e mais no treinamento acumulado e no domínio daquele movimento.
Viterbo ressalta ainda que não há uma explicação biológica que determine que homens tenham mais dificuldade no pilates. Algumas características corporais podem interferir em determinados exercícios, mas, segundo ele, fatores culturais ajudam a explicar parte das diferenças observadas.
“Homens historicamente são mais incentivados a praticar musculação e esportes associados à força e podem chegar à modalidade com menor experiência em atividades voltadas à mobilidade e à flexibilidade”, explica.
Com o tempo, Cheruti percebeu a própria evolução e incorporou o pilates à rotina. “Às vezes brinco com a instrutora do pilates que a última vez que trabalhei aquele grupo muscular eu deveria ter uns 5 anos de idade”, conta.
Pilates e musculação são aliados, não concorrentes
As dificuldades encontradas nas primeiras aulas não significam que quem começa a fazer pilates precise abandonar a musculação. As duas práticas produzem estímulos diferentes e podem fazer parte da mesma rotina, de acordo com os objetivos e as condições de cada pessoa.
A fisioterapeuta Beatriz explica que o pilates pode complementar não apenas a musculação, mas também corrida e outros esportes, já que trabalha aspectos como estabilidade, coordenação, consciência corporal e controle dos movimentos. A proposta, segundo ela, é desenvolver essas capacidades de maneira integrada e preparar o corpo para as exigências de outras atividades.

“A musculação e o pilates não são atividades concorrentes, elas são complementares, porque estimulam o corpo de forma diferente”, afirma a fisioterapeuta. A combinação, porém, precisa considerar a quantidade e o volume dos exercícios, além de períodos adequados de recuperação.
Essa complementaridade também pode ser usada como parte de uma estratégia para reduzir fatores associados a lesões, principalmente em pessoas que praticam outros esportes.
Beatriz ressalta, no entanto, que não é possível afirmar que fazer pilates impeça alguém de se lesionar. “Podemos utilizá-lo como uma ferramenta de prevenção e não uma garantia contra lesões”, afirma.
Isso ocorre porque uma lesão não depende de um único fator. Carga e técnica de treinamento, recuperação, sono, preparação física e histórico de lesões também precisam ser considerados. Por isso, para quem mantém as duas práticas na rotina, o cuidado está principalmente em ajustar o volume dos treinos e garantir tempo suficiente para recuperação.
Qual a frequência ideal?
Não existe. O número de sessões depende de fatores como objetivo, condicionamento, presença de lesões, outras atividades praticadas e disponibilidade para manter o exercício na rotina.
Para quem já faz musculação, duas sessões semanais de pilates podem ser um ponto de partida, segundo Cabral. “A pessoa já vai começar a sentir benefícios e perceber melhor seu corpo durante os treinos e seu dia a dia”, afirma.
Viterbo também considera duas vezes por semana uma frequência possível para quem consegue incluir a modalidade na rotina. A regularidade, explica, ajuda inclusive no aprendizado dos movimentos e no desenvolvimento da técnica. Isso não significa, porém, que o pilates seja uma prática obrigatória ou que precise substituir outros exercícios.
Para a saúde de forma geral, Viterbo lembra que as recomendações de atividade física incluem exercícios aeróbicos e de fortalecimento muscular. Por isso, alguém que já possui uma rotina de treinos precisa avaliar como o pilates será incorporado sem deixar de lado outras capacidades físicas que também precisam ser trabalhadas.
Mais importante do que encontrar uma prática capaz de atender a todas as necessidades, diz o médico, é escolher atividades que possam ser mantidas ao longo do tempo.
“Não existe uma atividade única que seja boa para tudo. Não existe um treino melhor do que o outro. Não há uma recomendação universal para todo mundo”, afirma.
“O objetivo maior das atividades físicas é que a gente se engaje em treinamento, tenha adesão, aderência, para que isso seja o mais frequente, o mais longevo possível. Porque os benefícios vão ser colhidos a longo prazo”, conclui Viterbo./AE
(Foto: Reprodução)






