Especialistas ouvidos pela reportagem recomendam manter parte da carteira em títulos como Tesouro Selic e Certificados de Depósito Bancário (CDBs) atrelados ao Certificado de Depósito Interbancário (CDI) e aproveitar as taxas ainda altas de prefixados e papéis ligados à inflação, como o Tesouro IPCA+, sobretudo nos vencimentos entre dois e seis anos.
Enquanto bancos centrais de economias grandes sobem ou mantêm os juros para conter a inflação, o Banco Central (BC) brasileiro segue caminho oposto. A decisão se apoia em uma leitura mais favorável da economia doméstica. Desde agosto, por exemplo, os economistas passaram a confiar mais na desaceleração da atividade e no avanço da queda da inflação.
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) recuou para 4,22% no acumulado em 12 meses até agosto, favorecido pela queda temporária da conta de luz com o bônus de Itaipu. Ainda assim, um ponto de atenção permanece. As expectativas de inflação para os próximos anos seguem acima da meta de 3%. O Boletim Focus apontou previsão de 4,3% para o IPCA de 2027 e de 3,8% para 2028.
A atividade econômica também perdeu força. O Produto Interno Bruto (PIB) avançou apenas 0,5% no segundo trimestre frente aos três meses anteriores, com o consumo das famílias em queda de 0,4% no período.
O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), termômetro mensal do PIB, recuou 0,2% em julho, segundo dados dessazonalizados divulgados pelo BC nesta quarta. A mediana das estimativas do mercado, colhida pela Reuters, apontava um recuo menor, de 0,1%.
Por outro lado, o mercado de trabalho ainda resiste. O desemprego caiu para 5,3% no trimestre até julho, o menor porcentual para esse intervalo desde o início da série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), iniciada em 2012.
Apesar dos sinais de melhora, o BC mantém o olhar atento aos riscos. O aumento do endividamento das famílias e a queda do consumo já afetam o varejo mais do que se esperava. Soma-se a isso a proximidade das eleições, que costuma elevar a instabilidade nos mercados, e a chance de um Super El Niño a partir de setembro, capaz de mexer com os preços de alimentos e energia.
Para as próximas reuniões, o mercado projeta um novo corte de 0,25 ponto percentual, o que levaria a Selic a 13,5% ao ano ainda neste ano. O DI Futuro (mercado de juros futuros), porém, indica taxas entre 13,5% e 14% para os vencimentos entre 2027 e 2030, sinal de que ninguém espera uma queda forte dos juros no médio prazo.
Como ficam os pós-fixados
Quem já está em CDBs, Tesouro Selic e fundos DI não precisa sair correndo desses produtos, segundo os especialistas ouvidos pela reportagem. Milene Dellatore, sócia-diretora do Grupo Mide, defende manter boa parte da carteira nesses papéis, sobretudo para a reserva de emergência. “Uma Selic de 13,75% ainda proporciona uma remuneração bastante relevante”, afirma Milene.
Ela recomenda, porém, uma transição gradual, sem concentrar toda a carteira nesses ativos, ampliando aos poucos a fatia em prefixados, IPCA+ e crédito privado conforme o ciclo de cortes avança.
Marcelo Freller, estrategista de investimentos do C6 Bank, segue na mesma linha e defende cautela justamente pela proximidade da eleição e pela alta do petróleo lá fora.
“A gente prefere ficar na parte pós-fixada da renda fixa, porque ela tem menos volatilidade. Ainda é uma taxa de juros bastante alta, que basicamente compensa para que o investidor não precise tomar muito risco e, mesmo assim, tenha uma boa rentabilidade”, diz o especialista.
Prefixados e IPCA+ ganham espaço
Para quem aceita alguma oscilação, prefixados e títulos atrelados à inflação despontam como opção interessante neste momento, avalia Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos. A lógica é travar hoje uma taxa alta antes de um novo corte da Selic.
“Sim, porque hoje ainda é possível travar taxas elevadas. Se os juros caírem nos próximos meses, esses títulos podem se valorizar, além do rendimento contratado”, explica Lima. Para ele, os prazos mais atrativos ficam entre 2028 e 2030 nos prefixados, e perto de 2032 nos títulos IPCA+, com cautela redobrada para vencimentos muito longos diante de qualquer piora fiscal.
Ciro Avelar, economista da Paribus Finanças, faz coro à cautela com prazos longos. Segundo ele, as curvas de juros futuros já mostram taxas entre 13,5% e 14% para 2027 e 2030, o que sugere que o mercado não aposta em uma queda acentuada dos juros no médio prazo. Ele sugere concentrar as apostas prefixadas em papéis de dois a três anos, prazo já considerado longo no país.
Crédito privado pede mais cautela
Debêntures, Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs), Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) e fundos de crédito seguem entre as opções dos investidores, mas exigem análise mais cuidadosa, avaliam os especialistas.
“Muita atenção com todos eles. Muitas vezes, as corretoras e os bancos não entram no detalhe de qual empresa está dentro do fundo, e o investidor acaba levando o risco sem saber”, alerta Avelar.
Ele lembra que crédito privado não conta com a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), benefício restrito a CDBs, Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) e Letras de Crédito Imobiliário (LCIs).
Dellatore, por outro lado, recomenda olhar para o spread, ou seja, quanto o papel paga além de um título de risco baixo. “O que interessa é o spread, quanto aquele investimento está pagando além de um título de risco muito baixo. Se esse prêmio estiver pequeno, talvez não compense assumir risco de empresa e de liquidez”, diz.
Bolsa ganha fôlego em setores específicos
A queda da Selic tende a beneficiar companhias mais sensíveis ao custo do crédito, segundo os entrevistados. Lima cita os setores que costumam reagir primeiro a um ciclo de corte de juros. “Construção civil, shoppings, varejo, locadoras, infraestrutura e algumas small caps [companhias pequenas na Bolsa] entram nesse grupo. Empresas com dívida também podem ter algum alívio com a redução do custo financeiro”, afirma o analista da Ouro Preto Investimentos.
Ele faz uma ressalva e reforça que a escolha ainda depende de fundamento, geração de caixa e gestão da companhia, não apenas do patamar da Selic.
Confira:
Freller avalia que a Bolsa brasileira já embute boa parte do ciclo de corte em seus preços e reforça que o resultado da eleição pesa tanto quanto a taxa de juros nas próximas semanas. Para ele, o momento não é de grandes apostas adicionais, e sim de manutenção de uma fatia moderada em ações, de acordo com o perfil de cada investidor.
Como montar a carteira agora
Na hora de dividir os recursos entre renda fixa, crédito privado e Bolsa, Avelar sugere um modelo mais defensivo, com peso maior nos pós-fixados diante do risco de a Selic voltar a subir nos próximos anos.
“Recomendo 60% em títulos pós-fixados, 20% em papéis atrelados à inflação, cerca de 15% em prefixados e 5% em ações de empresas que consigam se manter estáveis numa eventual retomada da alta de juros, como companhias de commodities, minério, grãos, proteína animal e petróleo”, diz Avelar.
Lima trabalha com uma divisão parecida, um pouco mais otimista com a Bolsa. Ele sugere cerca de 50% em renda fixa dividida entre pós-fixados, prefixados e IPCA+, 15% em crédito privado com critério na qualidade dos emissores, 20% em ações e os 15% restantes entre investimentos internacionais e fundos imobiliários.
O que dizem os bancos sobre o fim do ciclo
Até a publicação desta reportagem, instituições financeiras e consultorias mostram falta de acordo total sobre o fim do ciclo de cortes. A mediana das apostas para a Selic em dezembro deste ano caiu de 13,75% (na leitura de 31 de julho) para 13,50% (até 15 de setembro), enquanto a mediana para dezembro de 2027 está em 12%.
Entre os grandes bancos, a maioria trabalha com a Selic estável em 13,75% até o fim do ano. É o caso de Itaú Unibanco, Bradesco, Banco do Brasil, Santander, BTG Pactual, C6 Bank, Citi, Goldman Sachs, J.P. Morgan, HSBC e Deutsche Bank. Já Bank of America (BofA), Morgan Stanley e XP esperam um corte adicional, a 13,25%. Por outro lado, Banrisul e Rabobank projetam o caminho oposto, com a Selic voltando a 14% até dezembro.
SELIC = 13,75%
Valor após 1 ano, descontada a inflação de 4,9%*
* Previsão IPCA Boletim Focus/Bacen
Rendimento da Caderneta de Poupança em 8,28% no ano
Investimento de R$ 1.000,00
| Aplicação | Rent. Bruta em 1 ano | Tx. Adm. | IR em Reais | Rentabilidade Líquida em Reais | Valor Real (descontada a inflação) |
|---|---|---|---|---|---|
| LCA 97% | 13,34% | – | R$ 0,00 | R$ 133,38 | R$ 77,84 |
| LCI 97% | 13,34% | – | R$ 0,00 | R$ 133,38 | R$ 77,84 |
| CDB 116% | 15,13% | – | R$ 30,25 | R$ 121,00 | R$ 66,07 |
| Tesouro Selic + 0,01% a.a. | 13,76% | 0,25% | R$ 26,95 | R$ 107,80 | R$ 53,52 |
| Fundo DI | 13,75% | 0,50% | R$ 26,36 | R$ 105,45 | R$ 51,28 |
| Poupança Nova | 8,28% | – | R$ 0,00 | R$ 82,80 | R$ 29,74 |
| Poupança Antiga | 8,28% | – | R$ 0,00 | R$ 82,80 | R$ 29,74 |
| Fundo DI2 | 13,75% | 1% | R$ 25,23 | R$ 100,90 | R$ 46,96 |
| Fundo DI3 | 13,75% | 2% | R$ 22,95 | R$ 91,80 | R$ 38,30 |
Obs.: LCIs e LCAs consideradas sem tributação de Imposto de Renda.
Valor após 1 ano, descontada a inflação de 4,9%*
* Previsão IPCA Boletim Focus/Bacen
Rendimento da Caderneta de Poupança em 8,28% no ano
Investimento de R$ 5.000,00
| Aplicação | Rent. Bruta em 1 ano | Tx Adm. | IR% em Reais | Rentabilidade Líquida em Reais | Valor Real (descontada a Inflação) |
|---|---|---|---|---|---|
| LCA 97% | 13,34% | – | R$ 0,00 | R$ 666,88 | R$ 389,20 |
| LCI 97% | 13,34% | – | R$ 0,00 | R$ 666,88 | R$ 389,20 |
| CDB 116% | 15,13% | – | R$ 151,25 | R$ 605,00 | R$ 330,36 |
| Tes Selic + 0,01% a.a. | 13,76% | 0,25% | R$ 134,76 | R$ 539,02 | R$ 267,61 |
| Fundo DI | 13,75% | 0,50% | R$ 131,81 | R$ 527,25 | R$ 256,41 |
| Poupança Nova | 8,28% | – | R$ 0,00 | R$ 414,00 | R$ 148,71 |
| Poupança Antiga | 8,28% | – | R$ 0,00 | R$ 414,00 | R$ 148,71 |
| Fundo DI2 | 13,75% | 1% | R$ 126,13 | R$ 504,50 | R$ 234,78 |
| Fundo DI3 | 13,75% | 2% | R$ 114,75 | R$ 459,00 | R$ 191,51 |
Obs.: sem tributação das LCIs/ AE






