Um estudo realizado por pesquisadores na China mostra que mais da metade dos homens com 50 anos ou mais não têm conhecimento suficiente sobre o problema.
Publicada em julho no periódico Neurourology Urodynamics, a pesquisa analisou 444 questionários coletados entre 2023 e 2024. Do total, 191 participantes tinham entre 60 e 69 anos.
A hiperplasia prostática benigna é caracterizada pelo crescimento não maligno da próstata e se torna cada vez mais frequente com o avanço da idade.
Entre os sinais mais comuns estão dificuldade para iniciar o jato de urina, jato fraco ou intermitente, sensação de esvaziamento incompleto da bexiga, aumento da frequência urinária durante o dia, necessidade de acordar durante a noite para fazer xixi e urgência miccional. Também pode ocorrer incontinência urinária, caracterizada pelo escape involuntário de urina.
Reconhecer esses sinais é importante para que o indivíduo não atribua automaticamente as alterações ao envelhecimento. A orientação também pode ajudar a reduzir o tabu em torno dos sintomas urinários, que ainda faz com que muitos adiem a procura por um especialista.
“A hiperplasia prostática benigna acomete cerca de metade dos homens acima de 50 anos e quase 90% daqueles com mais de 80 anos”, destaca o urologista Marcelo Wroclawski, coordenador da área de Hiperplasia Prostática Benigna do departamento de Disfunção Miccional da SBU (Sociedade Brasileira de Urologia).
O atraso na busca por atendimento pode ser ainda mais relevante entre pessoas que enfrentam dificuldades de acesso aos serviços de saúde.
“Esse estudo confirma o que vemos na prática médica no dia a dia: por ignorância, vergonha ou mesmo por dificuldades de atendimento, muitos procuram ajuda quando o caso já está mais avançado e pode apresentar consequências mais sérias”, diz o urologista Gustavo Caserta Lemos, do Einstein Hospital Israelita.
Obstrução pode comprometer a bexiga e os rins
O problema ocorre quando a próstata cresce na região próxima à uretra, canal responsável por conduzir a urina para fora do organismo. Com o aumento da glândula, a passagem pode ficar comprimida, dificultando o fluxo urinário e obrigando a bexiga a trabalhar com mais força para eliminar a urina.
Esse esforço contínuo provoca alterações na musculatura da bexiga. Com a evolução do quadro, as fibras elásticas do órgão podem ser substituídas por fibras colágenas, tornando sua parede mais rígida e menos funcional. Também podem surgir divertículos, pequenas bolsas formadas no tecido, que favorecem o aparecimento de cálculos vesicais.
Em casos mais avançados, a bexiga deixa de se esvaziar adequadamente e acumula uma quantidade cada vez maior de urina e passa a apresentar resíduo urinário após a micção. A retenção pode chegar a um quadro de obstrução completa. Como os rins continuam produzindo urina, mas encontram dificuldade para eliminá-la, a pressão pode provocar dilatação das estruturas renais e comprometer sua função.
O crescimento benigno da próstata não deve ser confundido com câncer de próstata. Na hiperplasia, o aumento das células ocorre principalmente na região central da glândula e provoca sintomas urinários. Já o câncer de próstata costuma surgir na região periférica da glândula e, nas fases iniciais, frequentemente não provoca sintomas.
“Por esse motivo, é fundamental o rastreamento periódico, mesmo sem queixas, que possibilita diagnóstico precoce, maior chance de cura e melhores resultados funcionais, como preservação da continência urinária e da ereção”, pontua Wroclawski.
É recomendado que todos os homens a partir de 45 anos, mesmo sem sintomas, façam avaliação urológica de rotina.
“O crescimento benigno da próstata começa por volta dos 40 anos, sendo que, em alguns pacientes, o ritmo de crescimento é bastante lento e talvez eles nunca precisem ser tratados. Em outros, o crescimento é mediano e essas pessoas só vão ter problemas a partir da sexta década de vida, e uma minoria tem um crescimento bastante rápido e pode ter problemas a partir da quinta década, por isso é importante o acompanhamento”, frisa Lemos.
Mesmo quando os sintomas não são graves, eles podem interferir significativamente na rotina. A necessidade frequente de urinar ou de interromper atividades para procurar um banheiro pode levar alguns homens a modificarem seus hábitos em vez de procurar tratamento.
“Muitos acabam reduzindo a ingestão de líquidos ou evitam sair de casa, por exemplo. Dessa forma, há impacto relevante na qualidade de vida, com prejuízo do sono, limitações sociais e efeitos na esfera sexual”, destaca o médico da SBU.
Novas opções ampliam possibilidades de tratamento
O tratamento da hiperplasia prostática benigna é individualizado e as opções incluem medicamentos, procedimentos minimamente invasivos e diferentes técnicas cirúrgicas, escolhidos de acordo com as características e necessidades de cada paciente.
“Dentre as medicações, destaca-se a silodosina, que foi recém-lançada no Brasil e tem como objetivo relaxar a musculatura da próstata e do colo vesical. Com isso, a substância melhora o fluxo de urina, tornando a micção mais eficiente”, conta Marcelo Wroclawski.
Entre as alternativas minimamente invasivas estão procedimentos realizados pelo canal da urina, como os que utilizam vapor d’água, implantes prostáticos e stents temporários. Em alguns casos, essas técnicas podem ser realizadas em regime ambulatorial, sem necessidade de internação, e apresentam como uma das possíveis vantagens a preservação da ejaculação.
Quando a próstata está muito grande e a cirurgia é indicada, ela pode ser aberta ou por robótica. Pelas duas técnicas, o cirurgião entra pelo abdômen, abre a bexiga e retira a parte crescida da próstata em bloco. A técnica robótica é muito menos invasiva do que a técnica aberta, mas, mesmo assim, é mais invasiva do que os procedimentos feitos via uretra.
“Temos à disposição diversas técnicas para tratar o quadro via uretra. A mais antiga e consagrada é a chamada ressecção transuretral (RTU) da próstata, que consiste na retirada em fatias da parte central da glândula por corte elétrico ou a plasma. O laser é uma tecnologia mais moderna, mas os resultados ainda não são tão bons quanto os do procedimento tradicional. Assim como muitas outras opções de tratamentos que foram criadas, o laser ainda precisa passar pelo crivo do tempo, do uso em maior quantidade de pacientes e dos urologistas”, explica o médico do Einstein.
O não tratamento do crescimento benigno da próstata em tempo adequado leva a alterações indesejadas e permanentes da bexiga.
“Quando o tratamento é feito tardiamente, não importa por qual técnica, os resultados não são tão bons porque a bexiga já não responde bem à desobstrução. Por isso, quanto mais cedo o paciente procurar ajuda médica, melhor”, opina Lemos./Folha SP
(Foto: Reprodução)






