“Alcançar a autonomia implica diferentes limitações, porque todos nós enfrentamos obstáculos que nos restringem, em maior ou menor medida, a capacidade de conduzir a própria vida”, explica o sociólogo. “Por isso, a principal questão hoje é como proteger e apoiar as pessoas em uma sociedade que transforma a individualidade em uma exigência.”
O conceito é abordado na chamada trilogia do individualismo, criada por ele com o objetivo de analisar a transformação da sociedade contemporânea em um ambiente de alto desempenho. Obras usadas hoje como base para discussões sobre o sofrimento mental e o papel do indivíduo na sociedade.
O trabalho foi iniciado no livro O Culto da Performance: Da Aventura Empreendedora à Depressão Nervosa, de 1991, que tratou a busca pela autossuficiência como causadora do sofrimento mental. A tese é complementada por outros dois títulos: L’Individu Incertain (O Indivíduo Incerto, em tradução livre), de 1995, e La Fatigue d’être soi: Dépression et Société (A Fadiga de ser si Mesmo: Depressão e Sociedade, em tradução livre), de 1998.
Aposentado das salas de aula, o pensador se dedica à produção de livros e participações de congressos pelo continente europeu.
Leia abaixo os principais trechos da entrevista:
Como o senhor vê a relação entre o sofrimento mental e o conceito de autonomia individual, tema de sua obra?
Meu interesse sobre o assunto surgiu no fim da década de 1980, quando o tema começou a ser discutido na imprensa. Nessa época, percebi que, ao contrário de outras questões de saúde pública, a saúde mental merecia uma maior atenção por ser uma linguagem onde se expressam as tensões de uma sociedade contaminada pela ideia de autonomia individual.
A difusão desse ideal, principalmente o mundo do trabalho, colocou relevo nas questões de socialização, que é onde entram as doenças mentais. Por exemplo, a depressão nos impede de agir em conjunto, enquanto a angústia nos paralisa. Já o delírio, por sua vez, rompe totalmente a relação social.
A diferença é que a saúde mental também tem uma dimensão positiva, sendo considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um meio de enfrentar as incertezas da vida e lidar com elas, em maior ou menor grau. Logo, ela nos permite perceber as tensões da sociedade e agir em relação a elas.
A análise realizada pelo senhor tem mais de 30 anos e, mesmo assim, apresenta questões atuais. O que se mantém?
Acredito que seja necessário ir além do conceito de performance, porque por trás desse conceito estão as expectativas de autonomia de cada indivíduo. Nós entramos em uma sociedade em que a performance impregnou as reações sociais e nos transformou em uma sociedade moldada pelo poder de agir. Isso não era algo evidente na época.
Você também relaciona o conceito de atleta ao mundo corporativo. O que motivou o senhor a relacionar esses universos tão distintos?
O meu objetivo não era criar uma sociologia do mundo esportivo, mas analisar a mudança do valor social do esporte em uma sociedade voltada para a competição. Nesse contexto, o líder de uma empresa também surgia como um representante do dinamismo e da ação.
A aliança entre esses dois mundos representava a saída de uma sociedade em que o chefe era visto como o grande que reprimia os pequenos. Isso é importante porque o esporte representa o que eu chamo de desigualdade justa, onde todos são postos no mesmo nível, mas o melhor é sempre quem fica em primeiro.
Como a busca pela performance foi absorvida pelas pessoas?
Isso se tornou parte do cotidiano. As grandes mudanças daquele período, como a globalização e o colapso da União Soviética, aceleraram o processo. Esse processo alterou as condições do mundo atual já que, agora, não estamos entrando nesse mundo da competição, mas vivemos nele.
A autonomia é acessível a todos?
É difícil responder isso de forma objetiva, porque essa é uma questão de grau. A autonomia não é um estado absoluto. Alcançá-la implica diferentes limitações, porque todos nós enfrentamos obstáculos que nos restringem, em maior ou menor medida, a capacidade de conduzir a própria vida.
Por isso, a principal questão hoje é como proteger e apoiar as pessoas em uma sociedade que transforma a individualidade em uma exigência. Isso não significa que vivemos uma guerra de todos contra todos, há diferenças, principalmente entre os países. Na Europa, por exemplo, o bem-estar social continua sendo um valor importante, enquanto nos Estados Unidos ele ocupa um lugar muito menos central.
Essa autonomia deu espaço para diferentes formas de ser?
Hoje há uma diversidade que antes não era compreendida. Um exemplo é o autista de alto funcionamento, que, no século passado, era distante da sociedade. Agora, porém, é considerado um superindivíduo. Essa mudança trouxe à tona o conceito de neurodiversidade, que reconhece a capacidade de cada indivíduo desenvolver sua individualidade de maneira única.
Essa busca pela autossuficiência e a frustração de não alcançá-la explicaria o aumento do uso de medicamentos hoje?
Sim. Houve uma mudança profunda no que entendemos hoje como antidepressivos. Quando eles foram inventados, na década de 1950, eram difíceis de manejar e causavam muitos efeitos colaterais. Com o tempo, os antidepressivos tornaram-se os Mother’s Little Helpers (gíria para calmantes e ansiolíticos, popularizada pela música dos Rolling Stones de 1966, que retratava a dependência de tranquilizantes como o Valium entre donas de casa), principalmente com a chegada do Prozac no mercado.
Nesse contexto, a busca por medicamentos deixou de ser para o tratamento de sintomas. Agora, eles são utilizados para incentivar a interação social, já que a individualidade nos adoece. Os psicotrópicos funcionam como aspirinas da mente.
A forma de lidar com o sofrimento psíquico mudou nas últimas décadas?
Em uma sociedade que valoriza a autonomia, tornou-se cada vez mais importante oferecer apoio às pessoas. Por isso, hoje, fazer psicoterapia, por exemplo, é muito mais comum do que era na década de 1990. Ao mesmo tempo, outras abordagens terapêuticas ganharam espaço e ajudam as pessoas a desenvolver habilidades cognitivas, emocionais e a lidar melhor com as exigências do cotidiano. A saúde mental ganhou mais espaço no cotidiano.
A performance ainda é a principal regra da sociedade contemporânea?
Insisto que devemos parar de pensar que a performance seja a regra social. Não somos obrigados a estar performando o tempo todo. Na nossa vida, não existe apenas o trabalho, também temos os momentos de lazer e em família./AE
(Foto: Reprodução)






