Os autores chegaram a essa conclusão após avaliar as taxas de troponina, uma proteína liberada quando há lesão nas células do músculo cardíaco, de quase 6.000 participantes com idades entre 45 e 69 anos, acompanhados ao longo de 25 anos.
No estudo, pessoas com níveis de troponina mais elevados, mesmo abaixo dos limites clínicos, tiveram um risco 38% maior de desenvolver demência ao final do período analisado. Além de ser um marcador de infarto, a troponina também aumenta em casos de miocardite, pericardite, insuficiência cardíaca, fibrilação atrial, doença renal crônica e hipertensão mal controlada, por exemplo.
“A relação entre coração e cérebro está cada vez mais clara na medicina moderna. Hoje entendemos que a saúde cardiovascular não influencia apenas infarto, AVC [acidente vascular cerebral] ou insuficiência cardíaca, mas também a velocidade do envelhecimento cerebral”, diz o cardiologista Humberto Graner, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia.
O trabalho britânico reforça que a demência não se inicia quando a memória piora. “Ela provavelmente começa décadas antes, de forma silenciosa, por processos vasculares, inflamatórios e metabólicos progressivos”, analisa Graner. “O estudo é importante porque mostra que pequenas lesões miocárdicas aparentemente ‘invisíveis’ podem funcionar como marcador precoce desse envelhecimento biológico acelerado. Ou seja, a lesão miocárdica subclínica antecede em décadas a manifestação neurológica.”
Portanto, um problema ainda não detectado pode já comprometer a irrigação cerebral ou mesmo a saúde vascular. “O cérebro depende de um fluxo sanguíneo contínuo. Quando o organismo convive por décadas com hipertensão, diabetes, resistência à insulina, inflamação crônica, aterosclerose, isso repercute também na microcirculação cerebral. O resultado é um ambiente progressivamente menos favorável à preservação da rede neuronal”, detalha o cardiologista.
Por meio de exames de imagem, a pesquisa também identificou uma redução do volume do hipocampo, região fundamental para memória e aprendizado. “Isso provavelmente ocorre porque o cérebro é extremamente dependente de irrigação e oferta energética adequadas. Pequenas perdas de eficiência vascular ao longo de décadas, incluindo inflamação vascular, disfunção endotelial e pequenos trombos, podem produzir dano cumulativo. É um desgaste biológico lento e progressivo”, alerta o médico do Einstein em Goiânia.
Os fatores protetivos já estão bem estabelecidos: controle rigoroso da pressão arterial, tratamento adequado de diabetes e resistência insulínica, redução agressiva do colesterol LDL e carga de aterosclerose, atividade física regular, preservação da massa muscular, dormir bem, não fumar, manter peso adequado, redução da inflamação metabólica, e estímulo cognitivo e social contínuos.
“A boa notícia é que praticamente tudo o que protege o coração protege o cérebro, e a janela de maior eficácia é justamente dos 40 aos 65 anos”, afirma Humberto Graner./Folha SP
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