Diferentemente de pesquisas eleitorais, que se concentram na identidade de grupo —como se declarar petista, antipetista ou bolsonarista —o trabalho da Fespsp buscou identificar a composição emocional da relação dos brasileiros com os principais campos politicos. Foram analisadas emoções como entusiasmo, esperança e orgulo, e emoções negativas, como raiva, medo e decepção.
“O que vemos hoje é um eleitorado cada vez mais orientado pela rejeição ao adversário e, em muitos casos, por uma relação fria ou desencantada com a política. Essa transformação da negatividade em um dos principais balizadores do voto gera desalento e pode enfrauecer a representatividade democrática” analisa o cientista político Jairo Pimentel, que conduziu a pesquisa.
Segundo o trabalho, o grupo que rejeita um dos campos políticos sem aderir a outro mais do que triplicou entre 2006 e 2026, saltando de 6% para 19%.
Também cresceram os eleitores indiferentes à disputa política, que passaram de 12% para 19%, e aqueles que rejeitam simultaneamente os dois polos, de 2% para 5%.
Embora minoritária, a parcela de eleitores polarizados saltou de 19% para 31% no período. E o percentual de brasileiros que apoiam um projeto político sem hostilidade ao adversário despencou, de 32% do eleitorado para 16%.
O estudo comparou uma pesquisa nacional realizada em 2006, com 2.400 entrevistados, a uma nova rodada feita neste ano, com 1.500 pessoas. Em vez de classificar os eleitores por identificação partidária ou ideológica, a metodologia mediu emoções positivas, como esperança e orgulho, e negativas, como raiva, medo e decepção, em relação aos diferentes campos políticos.
Segundo o pesquisador, os resultados indicam que o debate público costuma superdimensionar a polarização ao retratar o país como dividido entre dois blocos de tamanho semelhante. Na prática, diz ele, uma parcela expressiva dos brasileiros se encontra em posições marcadas por desalento, desconfiança ou afastamento da política.
“O que mudou não foi apenas o crescimento da polarização, mas a redução da adesão positiva”, afirma o estudo. “Tornou-se menos comum gostar de um campo político sem rejeitar o outro.”/Folha SP
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