Durante 14 meses, ela convenceu uma família de que era uma adolescente vítima de abusos. Ganhou quarto próprio, presentes e passou a ser tratada como filha, segundo a polícia.
Para o delegado Rodrigo Gusso, responsável pela investigação, o caso revela o “alto poder de convencimento e empatia” da mulher.
A mulher foi presa em flagrante na terça-feira (2), no distrito de Pirabeiraba, suspeita dos crimes de falsa identidade e estelionato. A investigação aponta que ela se apresentava como uma adolescente chamada Gabriele. Dizia ter fugido do Pará após sofrer abusos e conseguiu mobilizar a ajuda de uma comunidade religiosa antes de ser acolhida pela família.
O delegado disse que o caso foi descoberto na semana passada. Um parente das vítimas passou a desconfiar da história. Ao fazer buscas por conta própria, encontrou indícios de que a suposta adolescente já havia aplicado um golpe semelhante no Rio de Janeiro. A descoberta foi comunicada à Polícia Civil, que iniciou uma apuração.
Quando os policiais chegaram à residência, encontraram uma situação que demonstrava o grau de envolvimento criado pela mulher.
“O vínculo emocional era muito forte. A família acreditava realmente que estava acolhendo uma adolescente em situação de vulnerabilidade”, afirmou Gusso.
A relação chegou ao ponto de a família organizar uma festa para celebrar o que seriam os 12 anos da jovem. A comemoração ocorreu meses após sua chegada à residência, quando ela já estava integrada à rotina da casa.
“A família tem um bom poder aquisitivo. Ela teve festa para comemorar o aniversário dos 12, pois disse quando chegou que tinha 11 anos”, disse o delegado. De acordo com a investigação, a suspeita reforçava diariamente a identidade que havia criado. Brincava de boneca, fazia desenhos infantis, usava chupeta, mamadeira e mantinha objetos associados à infância.
“Ela vivia efetivamente como uma adolescente. O comportamento era infantilizado e compatível com a idade que dizia ter. Isso ajudava a afastar suspeitas e fortalecia a narrativa construída ao longo do tempo”, disse o delegado.
Antes mesmo de passar a morar oficialmente com a família, a mulher já recebia ajuda financeira. Ela solicitava dinheiro e transferências via Pix, que eram encaminhadas para terceiros, afirmou a polícia. O exato valor movimentado ainda está sendo investigado.
Além de moradia e alimentação, ganhou roupas, presentes e outros itens pessoais. “Ela tinha um quarto próprio, decorado. Era tratada como filha pelo casal”, disse Gusso.
Sempre que surgia a possibilidade de regularizar a situação por meio de uma adoção formal, a mulher apresentava uma justificativa para evitar qualquer procedimento oficial.
“Ela dizia que não queria ser adotada porque um suposto pai abusador poderia encontrá-la e levá-la embora. Era uma explicação que sensibilizava a família e fazia com que o assunto não avançasse”, afirmou Gusso.
O delegado afirma que a suspeita demonstrava habilidade para criar vínculos emocionais e responder a questionamentos sobre sua história. “Ela possui um alto poder de convencimento e empatia. Conseguia despertar compaixão e sempre tinha uma resposta para as dúvidas que apareciam. A narrativa era muito bem construída”, disse.
A prisão também surpreendeu parte da família. A mulher que exercia o papel de mãe teve dificuldade para acreditar na fraude mesmo após a chegada dos policiais.
“A pessoa que a acolheu como filha inicialmente não acreditou no que estava acontecendo. O envolvimento emocional era tão grande que houve resistência em aceitar a realidade”, afirmou o delegado.
Já o pai havia tomado conhecimento de suspeitas sobre a verdadeira identidade da suposta adolescente poucos dias antes da prisão. O filho mais velho da família, por sua vez, mantinha uma relação mais distante e não participava diretamente dos cuidados.
Levado à delegacia, o caso tomou outro rumo. Confrontada com as informações reunidas pelos investigadores, a mulher abandonou a identidade falsa e confessou a fraude, diz o delegado. “Quando foi questionada, ela confessou os fatos. Informou seu verdadeiro nome, apresentou CPF e revelou sua origem. Até então dizia ser do Pará, mas, na verdade é natural do Ceará”, afirmou Gusso.
Durante o interrogatório, a suspeita relatou que teve uma infância difícil e admitiu que utilizava a falsa identidade para obter ajuda e acolhimento, afirma Gusso. “A confissão chamou atenção porque foi extremamente coerente. Ela apresentou uma linha do tempo dos acontecimentos e explicou como tudo ocorreu”, disse o delegado.
A mesma postura foi mantida durante a audiência de custódia realizada após a prisão. “Na audiência ela voltou a informar o nome verdadeiro, confirmou sua origem e demonstrou compreender plenamente os atos praticados. Em nenhum momento observamos dificuldade para entender a situação ou as consequências da própria conduta”, afirmou.
As investigações apontam que a mulher já teria aplicado golpes semelhantes em outros estados. Há registros relacionados a ocorrências em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás e Rio Grande do Sul.
Ela permanece presa no Presídio Regional de Joinville. A Polícia Civil continua investigando o montante recebido por meio das transferências financeiras, o envolvimento de terceiros que receberam valores e a existência de outras vítimas./Folha SP
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