Os dados são do DataSUS, do Ministério da Saúde, e estão disponíveis no Observatório da Saúde Pública, da Umane. O levantamento aponta que homens representam a maioria das vítimas, correspondendo a mais de 82% dos óbitos registrados, e que as mortes envolvem principalmente pessoas de 25 a 54 anos (54%). As vítimas eram em sua maioria pessoas pardas (21.296), seguidas por brancas (14.113) e pretas (2.187).
“O crescimento expressivo afeta diretamente o Sistema Único de Saúde (SUS), principalmente quando partimos do pressuposto de que grande parte dessas mortes poderia ser evitada”, afirma Evelyn Santos, gerente de investimento e impacto social da Umane.
Dados apresentados pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT), com base em levantamento do Ministério da Saúde, mostram ainda que o Brasil registrou 565.382 mortes por acidentes de trânsito nos últimos 15 anos. Desse total, 42% dos óbitos ocorreram em hospitais ou outros estabelecimentos de saúde.
Os acidentes com motocicletas vêm crescendo tanto em número de mortes quanto de internações. Apenas em 2024, foram registrados 15.500 óbitos de motociclistas — o maior número em 15 anos. Entre as hospitalizações registradas na rede pública no mesmo ano, 166.026 foram de motociclistas, cerca de dois terços dos casos (251.699).
Capitais
As diferenças regionais também chamam atenção. Enquanto Palmas apresenta a maior taxa de mortalidade por acidentes de transporte do País, com 30,6 mortes por 100 mil habitantes, São Paulo registra 4,3.
Outras capitais com altas taxas de mortalidade são Porto Velho, com 23,1 mortes por 100 mil habitantes, e Teresina, com 21,4.
Para Marcos Musafir, presidente do Comitê de Políticas Públicas da SBOT, parte dessa discrepância pode ser explicada pelo aumento do uso de motocicletas como principal meio de transporte e pelas diferenças de infraestrutura entre as regiões.
“São Paulo, por exemplo, já conta com motovias, o que ajuda a reduzir acidentes por meio da organização do tráfego e da educação no trânsito”, afirma o médico.
Ele ressalta, porém, que outras medidas ainda precisam ser adotadas, especialmente relacionadas ao excesso de velocidade em vias destinadas a motociclistas.
Perfil das lesões
Segundo Musafir, o uso das motos em substituição a outros meios sem que exista infraestrutura adequada para absorver esse crescimento contribui para o aumento proporcional do número de vítimas e para uma mudança no perfil das lesões.
“Hoje observamos fraturas muito mais complexas, com explosões ósseas e lesões articulares importantes. Isso ocorre principalmente porque os veículos mais vulneráveis são os de duas rodas, como motocicletas, bicicletas elétricas e patinetes”, explica.
“São pessoas que demandam tratamentos mais caros e prolongados, permanecem mais tempo internadas e ocupam leitos por períodos extensos. Isso acaba gerando impacto direto na fila de espera do sistema”, acrescenta Musafir.
Outra preocupação importante, segundo o especialista, envolve os passageiros transportados na garupa de motocicletas, especialmente diante da expansão dos serviços de mototáxi por aplicativo.
“Quando o passageiro entra nesse tipo de transporte, ele também deveria receber orientações básicas de segurança, como a forma correta de se posicionar e se segurar durante o trajeto. Existem instruções técnicas importantes para reduzir riscos”, afirma.
Mudanças
Segundo Evelyn, os homens aparecem com maior frequência entre as vítimas por apresentarem maior predisposição a comportamentos de risco. “Fatores comportamentais e sociais, como o consumo de álcool associado à direção, estão diretamente envolvidos”, diz.
Ela acredita que medidas como a Lei Seca, aliadas à fiscalização, à melhoria da sinalização e às campanhas de conscientização, são fundamentais para reduzir a mortalidade no trânsito. “É importante que todas essas estratégias estejam integradas para que a prevenção aconteça de forma efetiva.”
Musafir acrescenta que mudanças de comportamento e conscientização no trânsito devem começar ainda na infância, por meio da educação./AE
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