Embora ainda represente uma parcela menor dos casos totais, a incidência de câncer de mama em jovens vem aumentando, segundo Sociedade Brasileira de Mastologia. O problema é que essas mulheres muitas vezes não são contempladas pelas diretrizes tradicionais de rastreamento. Na saúde suplementar, a mamografia é recomendada a partir dos 40 anos. No Sistema Único de Saúde (SUS), o exame começa apenas aos 50. Com isso, boa parte dos tumores em mulheres mais jovens tem sido diagnosticada de forma tardia.
Os fatores que contribuem para esse aumento são diversos: obesidade, sedentarismo, consumo excessivo de álcool e mudanças no padrão reprodutivo — como adiar a maternidade para depois dos 35 anos ou optar por não ter filhos e, por consequência, não amamentam. Hoje, já há evidências de que a poluição ambiental pode estar associada a um risco maior de desenvolver a doença. Fatores genéticos e histórico familiar também podem entrar nessa equação. É um cenário multifatorial que exige atenção constante.
Como identificicar
Como essas mulheres não fazem parte da faixa etária priorizada para exames de rotina, os tumores costumam ser identificados após o surgimento de sintomas — ou seja, muitas vezes é a própria paciente quem percebe algo diferente. Infelizmente, isso faz com que a doença, em muitos casos, já esteja em estágio mais avançado no momento do diagnóstico.
Por isso, é fundamental estar atenta aos sinais do corpo. Se uma mulher jovem, com menos de 40 anos, perceber alguma alteração nas mamas, deve procurar seu ginecologista — e essa queixa precisa ser levada a sério. Mesmo que a alteração seja detectada apenas no exame físico realizado pelo médico, é indispensável solicitar exames mamários, como ultrassonografia ou mamografia, de acordo com a avaliação clínica.
Em geral, os tumores de mama nessa faixa etária são mais agressivos e, por isso, o tratamento costuma incluir quimioterapia, além de terapias endócrinas em muitos casos.
Um olhar especial
Mulheres jovens costumam enfrentar desafios específicos que precisam ser considerados durante o cuidado oncológico.
Um deles é a adesão ao tratamento, que pode ser mais difícil em algumas situações. Outro, frequentemente negligenciado, é o impacto da quimioterapia na fertilidade. Quando tratamos uma mulher jovem, em plena fase produtiva da vida, é essencial abordar como o tratamento pode afetar sua capacidade de engravidar no futuro.
A fertilidade após o câncer depende de vários fatores: o tipo e a duração da quimioterapia, a idade da paciente e a reserva ovariana prévia. Felizmente, existem estratégias para minimizar esse impacto. Uma das principais é o uso de medicamentos chamados análogos de LHRH durante a quimioterapia. Eles ajudam a proteger os ovários, reduzem o risco de menopausa precoce e aumentam a chance de preservar a fertilidade.
Além disso, para mulheres que desejam engravidar após o tratamento, é possível — e indicado — fazer a coleta de óvulos antes do início da quimioterapia. Caso a paciente tenha um parceiro estável, pode optar também pela criopreservação de embriões. Essas decisões precisam ser tomadas antes de começar o tratamento, já que após o início da quimioterapia não é mais possível realizar a coleta com segurança.
Por isso, como oncologistas que cuidam de mulheres jovens, temos um papel fundamental: discutir a fertilidade e o impacto que os tratamentos podem ter sobre esse desejo de ser mãe no futuro. Nosso compromisso é oferecer o melhor, buscando sempre preservar ao máximo essa possibilidade. Discutir fertilidade não é um detalhe — é parte essencial do cuidado integral. Cada mulher tem o direito de ser informada e de ter sua história respeitada em todas as etapas do tratamento./AE
(Foto: Reprodução)






