/Da Bolívia ao Pici: abraçado pela família Fortaleza, Marlon é trunfo contra ex-clube

Da Bolívia ao Pici: abraçado pela família Fortaleza, Marlon é trunfo contra ex-clube

Aos 16 anos, foi embora de Curitiba. Morou com a avó, dona Aparecida, até os nove. Não cresceu com os pais. O tio Gilson foi o maior incentivador para que seguisse no esporte. Como tantos outros meninos que jogavam descalços na rua, Marlon tinha o sonho de calçar chuteiras e defender um grande clube. Viver de futebol. Quem sabe até ser ídolo um dia. Para isso, penou. Como tantos que nutrem o sonho pela glória, esbarrou em dificuldades. Alimentação inadequada. Salários atrasados. Chegou a perder um companheiro durante a caminhada. Foi moldado pelas intempéries. Mas com elas aprendeu a valorizar. Amigos, oportunidades, mas principalmente a família.

Pelas famílias do futebol, passou por muitas: ASA, Caxias-RS, Vila Nova. No Sampaio Corrêa, virou “Mago” e ajudou a levar o clube à Série B em 2017. Neste sábado (2), pela mesma Segundona, mas dessa vez defendendo uma outra família, encara o ex-clube num Castelão diferente.

Marlon ainda não faz mágica no Fortaleza. No Sampaio, foram seis gols em 36 jogos. Protagonista na campanha do acesso da Bolívia Querida. Chegou ao Pici como um dos grandes reforços para o ataque tricolor, mas ainda não marcou. Mas paciência é uma virtude. Meia no Sampaio, ganhou oportunidade de ponta esquerda no Leão, na vaga de Osvaldo, que foi para o futebol tailandês. Assumiu a titularidade e não pretende mais sair. Agradou comissão técnica e torcedor. Apelido ainda não tem. Pelo menos não para ser gritado da arquibancada.

 Torcedores e radialistas colocaram esse apelido de Mago lá no Sampaio. Confesso que até hoje quero saber o motivo (risos). Mas aqui o pessoal chama de “careca”. Viu o Gustavo que passou há pouco gritando aqui, né? Tá explicado o motivo? (baixa a cabeça e mostra os fios espaçados).

No Sampaio fez muitos amigos. Habituado a jogar no Castelão do Maranhão, receberá os ex-companheiros de clube na moderna Arena Castelão, onde o Fortaleza ainda não perdeu nesta Série B. Mas aquele dito popular nunca foi tão certo: “amigos, amigos…”

– Mas você pensa que eles (jogadores do Sampaio Corrêa) querem falar comigo? Querem nada! Falaram que só conversam depois do jogo (risos)! Pessoal só visualiza e ninguém responde – brincou o meia.

Caminho tortuoso

Marlon estrou no Fortaleza contra o Goiás, na quinta rodada. A conversa, por telefone, com Ceni, foi decisiva para fazer o jogador fechar com o Tricolor do Pici. Assim como foi decisivo na decisão de sair de casa aos 16 anos para tentar a vida como jogador de futebol. Estava na base do Cruzeiro quando tomou uma decisão que lhe custou caro, mas trouxe bastante aprendizado.

– Quando saí, passei em clubes que foram difíceis. Um deles foi a Esportiva Guaxupé. Quatro meses de dificuldades, sem receber salários. Pra você ter ideia, o presidente saiu do time, deixou tudo nas nossas mãos. O jogador ficava na bilheteria para repartir a renda entre todos. Lembro na época. Era R$ 1.000,00 pra cada. Tinha jogador que recebia ordem de despejo porque não recebia salário. A gente almoçava em restaurante popular, aqueles de R$ 1,00. Esse ano a gente perdeu um atleta dentro do ônibus. Ele acabou tendo um ataque fulminante e acabou falecendo. Tu imagina isso? Eu tive muito aprendizado. Aprendi a dar valor aos amigos, à família. Foi uma época muito difícil, mas a gente aprendeu bastante.

A esposa Lorraine está grávida. São mais de cinco anos de união, sendo os últimos cinco de casados. A família Prezotti está prestes a ganhar mais um membro. O gol pelo Fortaleza ainda não saiu, mas a ansiedade deu spoiler durante a entrevista. Na comemoração, o(a) futuro(a) filho(a) será homenageado(a).

– Julgo que seja importante ter passado por tudo isso. Hoje eu vejo amigos meus que poderiam estar muito melhores do que eu, mas por não ter passado alguma dificuldade, no primeiro obstáculo, eles vão lá e param. Era um sonho meu ser jogador de futebol. Passei por dificuldades de alimentação, saía cedo de casa para tentar uma oportunidade. Hoje agradeço a Deus por tudo o que eu tenho. Minha esposa está grávida. Ainda não sabemos se vai ser menino ou menina. Mas com certeza o gol que sair vai ser para ele ou ela – garantiu.

Marlon será titular na família Fortaleza que encara o Sampaio no sábado (2), na Arena Castelão, a partir das 16h30, pela oitava rodada da Série B do Campeonato Brasileiro./ge

(Foto: Pedro Chaves/Canal da Bola CE)

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