/Secretário André Costa critica Imprensa, mas diz que Ceará vive “epidemia” de mortes violentas

Secretário André Costa critica Imprensa, mas diz que Ceará vive “epidemia” de mortes violentas

O que quer o secretário da Segurança Pública e Defesa Social, delegado federal André Costa, ao reclamar da postura da Imprensa cearense. Diz ele que os jornalistas só destacam no noticiário os números negativos da criminalidade, os assassinatos. E deixam de ressaltar outros números da violência, como a queda do número de furtos de celulares e de bicicletas. Parece até piada. Mas a resposta para Costa veio de seu colega, o secretário de Turismo, Arialdo Pinho, que destacou a gravidade de um homicídio: a perda da vida humana.

Mergulhado numa violência sem precedentes no estado, com números altíssimos no tocante aos Crimes Violentos, Letais e Intencionais (CVLIs), Costa falou na semana passada que o Ceará vive atualmente uma “epidemia de mortes”. Se considera assim, então não tem do quê reclamar da Imprensa. A verdade é que, por mais investimentos que o governador Camilo Santana (PT) tenha feito no setor, os números não respondem. Ao contrário, só aumentam. Então, vem a pergunta: onde está o erro? Santana tem contratado novos policiais militares, comprado viaturas novas e até helicópteros, expandiu o Batalhão Raio pelo Interior, mas não consegue dobrar a onda da criminalidade que se instalou no Ceará. Repetimos: onde está o erro?

OPÇÕES PARA A SEGURANÇA

A resposta é simples. Faltam mecanismos eficientes para o combate ao crime organizado. Valorizar a Polícia Judiciária (mais delegados, escrivães e inspetores), reorganizar e reaparelhar o sistema de Inteligência, bloquear o sinal de celular nos presídios, colocar mais delegacias funcionando 24 horas, modernizar a Perícia Forense, ocupar as áreas devastadas pelas facções, formular e implantar um plano estadual de Segurança Pública (não aquele editado em livros com estatísticas mirabolantes e insustentáveis), fiscalizar 24 horas as divisas (como faz a Paraíba há anos), aumentar o tempo-resposta nas chamadas à Ciops, e ouvir a sociedade através de suas entidades e corporações. E mais, pactuar com o Judiciário a não soltar presos à torto e à direito como acontece hoje. Os chefões das facções e do tráfico têm que ser presos e, imediatamente, levados para as penitenciárias federais de segurança máxima. Fora isso, a violência só vai aumentar. O número expressivo de novos soldados nas ruas inibe o ladrão, mas não o pistoleiro urbano, o matador das facções. Quem sai para matar, mata. Bem, aí estão as dicas. É pegar ou largar.

O SAFONEIRO E A VIOLÊNCIA

O cantor e sanfoneiro cearense Waldonys sofreu na pele a violência que domina a sociedade cearense. Na volta para casa com a família após o Carnaval, o artista se viu diante do fogo cruzado dos criminosos, bandidos armados que costumam atacar na rodovia CE-025, a que dá acesso ao Porto das Dunas e ao Beach Park, no limite entre Fortaleza e Aquiraz. A crueldade de bandidos que atiram para assaltar e, por vezes, matar suas vítimas. Experiente, o sanfoneiro orientou os filhos a obedecer as ordens dos assaltantes. Mesmo assim, a família foi rendida e humilhada. Por sorte, ninguém ficou ferido. Nas redes sociais, Waldonys e familiares narraram como ocorreu o assalto. “Foram muitos tiros mesmo”, disse ele. Assim como o cantor, dezenas de fortalezenses passam por isso. É o drama de uma população refém da violência e do medo. Como diz na canção que o sanfoneiro entoa em seus shows, a violência no Ceará só tende a “voar, voar, subir, subir!!!”

OFICIAL VIROU REFÉM

E na Quarta-Feira de Cinzas (13), a vítima da bandidagem foi um oficial superior da Polícia Militar, um coronel da PM que já está na Reserva Remunerada. Ele e a família acabaram virando reféns nas mãos de uma quadrilha que invadiu a sua casa, na cidade de Maranguape. Foram quase duas horas e meia de martírio, ameaças e agressões. Os ladrões sabiam quem estavam assaltando. Chamavam a vítima de “coronel” e pediam armas, dinheiro e objetos de valor. Por fim, roubaram tudo o que puderam, levado, até mesmo, a espada militar do coronel. O oficial chegou a ser amordaçado e espancado. A PM foi acionada, mas até o momento não conseguiu capturar os ladrões, o que deve acontecer nos próximos dias. Mais uma vez, a experiência da vítima foi importante para o resultado final: não houve reação e os criminosos foram embora. Agora, é tratar de tentar apanhá-los.

SAÍDA PARA O SISTEMA PENAL

Senador cearense Eunício Oliveira (PMDB), presidente do Senado Federal, quer que o Congresso Nacional mire suas atenções neste momento para a Segurança Pública do País. O momento é quase desesperador em vários estados e municípios, como o Rio de Janeiro, e os estados do Ceará, Pernambuco e tantos outros afetados pela guerra das facções criminosas e pelas ações do crime organizado. Na verdade, nenhum deles escapa da sanha dos bandidos. As propostas de lei que estão sendo tocadas no Senado contemplam a Segurança Pública, mas se estendem também pelo Sistema Penitenciário. Entre as propostas a serem apreciadas pelos deputados federais e senadores da República a que prevê a implantação de penitenciárias agrícolas que seriam destinadas ao cumprimento de pena para aqueles réus condenados por crimes sem gravidade e, portanto, que recebam sentenças judiciais leves.

NÚMEROS IRREAIS, MAS OFICIAIS

E aconteceu o que já era esperado. Autoridades da Segurança Pública deixaram para a sexta-feira à tarde (já quase fim de expediente) o momento para anunciar, em mais uma reunião na SSPDS, os números relativos aos Crimes Violentos, Letais e Intencionais (CVLIs) do mês de janeiro. E novamente os índices apresentados foram negativos. Em janeiro de 2017, ocorreram 349 assassinatos. Em janeiro de 2018, foram 482. Na verdade, os números são bem outros. No mês passado foram mortas no Ceará 528 pessoas. Porém, muitos crimes não entram na estatística oficial, seja por sub-notificação, seja por critérios próprios da Pasta, como, por exemplo, as mortes violentas, os assassinatos que acontecem dentro dos presídios e cadeias públicas cearenses. Assim, por exemplo, as 10 mortes registradas na chacina na Cadeia Pública de Pentecoste, ocorrida no mês passado, não entraram na lista dos mortos. Uma forma que o governo encontra sempre de esconder os números reais da violência do nosso dia-a-dia./ Fernando Ribeiro

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