/Calma, Dória. Por Pedro Luiz Rodrigues

Calma, Dória. Por Pedro Luiz Rodrigues

No finalzinho da década de 1970, o deputado Paulo Maluf (PP-SP), queridíssimo dos militares então detentores do poder, sentia-se ungido pelos céus, como se tivesse recebido do Oráculo de Delfos a premonição de que chegaria um dia, não distante, à Presidência da República.

Não me recordo se em 1978 ou 1979, assisti como repórter do Estado/Jornal da Tarde uma palestra sua em Brasília, na Associação Comercial. O político paulista exultava, tendo revelado à atônita plateia que ao fim do regime militar, arrebataria ele o cetro presidencial.

Zeus nunca foi muito de apreciar humanos pretensiosos, e usava  pitonisas para fazê-los sofrer,  com suas profecias truncadas e imprecisas. O lídio Creso, tomado por entusiasmo similar ao de Maluf, acreditou ter condições de derrotar a Pérsia. A pítia de Delfos mandou dizer-lhe que se o fizesse, um grande império seria destruído.  Creso leu do jeito que quis, atacou  e foi derrotado e aprisionado pelo rei persa Ciro…em 547 antes de Cristo.

Maluf talvez tenha também recebido  uma profecia fajuta, não se sabe de quem,  de que  se não esmorecesse chegaria ao Palácio do Planalto. Fez o que pôde, mas o fato é que a glória pretendida nunca lhe foi atribuída.  Hoje, quando se põr seu nome  no Google ou outro procurador, o que se lê são coisas do tipo “STF condena Maluf a mais sete anos de prisão” (EBC, 23 de maio de 2017) ou “Justiça francesa condena Maluf a três anos de prisão por lavagem de dinheiro” (EBC, 20 de junho de 2017).

Não auguro ao jovem e dinâmico prefeito de São Paulo, João Dória (PSDB) destino político tão triste quanto o de seu recém-mencionado conterrâneo e também ex-prefeito da mesma cidade. Mais propício, talvez, seja recordar pretensões de elevadíssimo voo que por algum tempo animaram um outro ex-prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, a quem a experiência posterior  demonstrou que simpatia e capacidade administrativa não são tudo no complexíssimo sistema político brasileiro, onde há muito mais montanhas do que planícies.

Não sei se Dória está agindo sob orientação de especialistas ou por impulso próprio, mas seja como for,  acho que ele deveria dar uma paradinha para refletir sobre  se as propostas de estadista que vem fazendo são  compatíveis com sua atual envergadura política.  É o caso, por exemplo, da proposta por ele ontem  (31 de outubro) desfraldada, da criação de uma frente ampla de partidos de centro para enfrentar  a dupla Lula&Bolsonaro. Aqui em Brasília, todos os jornalistas sabem que se trata de uma proposta estapafúrdia.

Assim como aconteceu com Maluf a seu tempo, parece-me que Doria terá grande dificuldades de angariar votos  em quantidade razoável fora de seu reduto eleitoral, em particular do eixo Rio-Minas (inclusive) para o norte do País.  De modo geral, o eleitorado brasileiro parece  mais desejoso de  votar em candidato ou candidata (não deixemos o desastre que foi Dilma afastar essa hipótese) de comprovadas maturidade e  experiência política.

Mais razoável do que a bandeira levantada ontem, foi a bem mais modesta – mas mais importante –  que  Dória levantou anteontem, de que o PSDB deve unir-se para enfrentar o processo eleitoral de 2018.

É a esse tema que tenho dedicado atenção frequente nos últimos tempos. Na segunda-feira mesmo, sugerique o partido mais uma vez recorresse  à orientação e ao aconselhamento de quem tem sobeja experiência a oferecer, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Soube que FHC prepara um artigo nesse sentido, a ser publicado nos próximos dias. Aguardemos!

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