/Dois dedos de prosa com. “O machismo cega, ensurdece: torna o diálogo impossível”

Dois dedos de prosa com. “O machismo cega, ensurdece: torna o diálogo impossível”

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Camila Márdila. Ela vive um quase sonho. Não apenas porque o filme Que horas ela volta?, dirigido por Anna Muylaert e pré-indicado ao Oscar, é um dos grandes destaques do ano. Aos 26 anos, a atriz brasiliense conseguiu dar rosto, afeto e concretude a uma adolescente de família pobre, nordestina e que, como a mãe muitos anos atrás, desembarca em São Paulo para tentar a vida. Agora, porém, o capítulo tem final diferente. Mas não são os desejos de Jéssica, vivida por Camila, que a distanciam de Val, a doméstica interpretada por Regina Casé. Na tensão entre mãe e filha, o Brasil passa-se a limpo, revelando-se ainda patriarcal e preconceituoso, mas não sem esperança.

O POVO – Como tem sido a vida com o filme Que horas ela volta? já sendo considerado como marco do cinema brasileiro?

Camila Márdila – O dia todo é uma falta de ar de tanta alegria. Recebo centenas de mensagens com depoimentos que me emocionam muito. São muitas pessoas se sentindo representadas.

E elas têm voz, elas querem falar, e o filme tem gerado esse ambiente. As pessoas gostam de falar do filme porque falam de si, seja do lado da cozinha ou da sala, ou ambos. Ter feito a Jéssica, personagem que faz borbulhar o empoderamento da mulher que quer escrever sua própria história, me faz refletir bastante a responsabilidade do artista. Quero trabalhar muito pra que mais vozes sejam possíveis, e o diálogo constante. Pra mim, essa tentativa é uma responsabilidade do ator.

OP – Não sendo nordestina, como foi interpretar uma personagem dessa região, com sotaque e força tão vivos?

Camila– Me aproximar do sotaque pernambucano me ajudou muito na construção de Jéssica. O som, o ritmo, a cadência, as expressões já trazem uma presença muito forte, que reverbera. Acho dos sotaques mais lindos, e essa admiração me aproximou da dignidade necessária à Jéssica.

Os sotaques do nordeste geram muito respeito em mim. Eu ouço, e é como se automaticamente eu já dissesse: “tu sabe mais desse mundo que eu, pois diga”. Por isso trabalhei longe da caricatura do nordestino, que, pra mim, nunca fez sentido. Não vejo graça em quem ri de sotaque. São Paulo tem muito isso com nordestinos, mesmo sendo uma cidade extremamente dependente da força de trabalho que vem de cima, se acham a “maneira certa” de falar. Às vezes ouço risadas em sessão do filme, de algo qualquer que Val diz, apenas pelo sotaque. Me incomoda bastante.

OP – Que referências foram fundamentais na construção de Jéssica?

Camila – Os artistas pernambucanos. Karina Buhr, Banda Eddie, Siba, o filme O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho. Esses seres geniais que são, que produzem coisas incríveis. Não os ouvia e assistia apenas pra estudar o sotaque, mas toda uma atmosfera criativa que emana dali. Pensava que talvez fossem pessoas que Jéssica escuta. Todos com discursos muito pertinentes através das músicas, filmes, poesias.

OP – Num filme em que as mulheres são destaque, tanto na direção, com Anna Muylaert, quanto no elenco, com você e Regina Casé, como encara a presença feminina no cinema nacional hoje?

Camila – Ainda muito menor do que eu acredito que deva ser. Principalmente nas grandes produções. Diretores, roteiristas, protagonistas, em sua grande maioria homens. E homens pelo viés de um olhar extremamente machista. Nos filmes que pipocam em toneladas de cinemas, a mulher só usa vestido de noiva, desesperada correndo atrás de um homem porque só assim vai ser feliz. Ou virginal, porque o tesão só cai bem ao homem ou à “vadia coadjuvante encalhada”. Por isso, espero que o Que horas.. chegue cada vez em mais cinemas. Três personagens mulheres que têm muito a representar.

OP – Algumas críticas apontaram que o filme suaviza a realidade. Concorda com elas?

Camila – Não. E acredito que a grande maioria descreve uma “pancada no estômago”, uma “dificuldade de sair, de levantar da cadeira quando acaba”. Tendo a achar que se uma pessoa acha “suave” a filha da empregada-quase-da-família ser comparada a um rato, “há algo de podre no reino da Dinamarca”, já diria Hamlet. Há humor no filme, claro. Mas justamente esse contraste do cômico no trágico gera tensão que incomoda – ao menos me incomoda. Eu não cheguei ao ponto de assistir à patroa tomando suco no copo de vidro, enquanto pra filha da empregada o copo é de plástico, e pensar (ou nem pensar) que “assim são as coisas, e a gente já nasce sabendo seu lugar”. Esses detalhes do filmes, cena pós cena, um detalhe que salta da tela e me bate aqui, na cara.

OP – Como você reagiu à polêmica em torno do episódio com o Cláudio Assis?

Camila – Achei que aconteceu ali a ilustração do que a Anna vem trazendo em tantos discursos sobre a necessidade de protagonismo e poder do machista sobre a mulher. E isso precisa ficar marcado, não pode ser esquecido. Questões pessoais à parte, de quem disse ou não disse o quê, isso só demonstra o quanto o machismo precisa ser discutido em suas formas mais explícitas e as mais discretas, enrustidas. O machismo cega, ensurdece, emudece: torna o diálogo impossível. E estamos contaminadas disso, todos nós. Contaminados, mas não condenados. Assim como Jéssica, precisamos reivindicar nossas rédeas nessa história.                                               (O Povo Online).


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